Nas Entrelinhas

Análise: Candidato de centro ainda tem um papel a cumprir

Luiz Carlos Azedo
postado em 20/04/2022 05:57 / atualizado em 20/04/2022 05:58
 (crédito: Getty Images)
(crédito: Getty Images)

O presidente do MDB, deputado Baleia Rossi (SP), pretende cobrar uma definição dos demais partidos da chamada terceira via — PSDB-Cidadania e União Brasil — na próxima reunião de cúpula do grupo, marcada para 18 de maio, com objetivo de escolher um candidato único. "Não dá para adiar, ninguém aguenta mais essa indefinição", desabafou, ontem, em conversa no cafezinho da Câmara. Segundo ele, há três candidaturas na mesa de negociação: Simone Tebet (MDB), João Doria (PSDB) e Luciano Bivar (União Brasil). "Uma delas deve ser escolhida", afirmou.

Rossi descartou o ex-governador gaúcho Eduardo Leite, que trabalha para ser candidato de união: "O candidato indicado pelo PSDB é o Doria". Faz sentido, para além da formalidade, porque o propósito do MDB é consolidar o nome de Tebet. A senadora por Mato Grosso do Sul se destacou na CPI da Covid e é respeitada pelos pares por sua atuação à frente da Comissão de Constituição e Justiça da Casa. Ela é formada em direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em direito do Estado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Simone Tebet, natural de Três Lagoas (MS), não é uma cristã nova na política. Aprendeu o jogo do poder com o pai, Ramez Tebet, que foi governador do Mato Grosso do Sul, prefeito de Três Lagoas e senador da República. Atuou por 12 anos como professora universitária e foi consultora e diretora legislativa da Assembleia Legislativa do estado. Foi deputada estadual, prefeita de Três Lagoas por dois mandatos e vice-governadora no governo Puccinelli, cargo no qual permaneceu até 2015, quando assumir o mandato de senadora. Aos 52 anos, tem cancha de político profissional.

Essa experiência está fazendo a diferença no jogo de bastidores da terceira via, pela forma firme e suave com que lida com as disputas políticas, como aconteceu no episódio do jantar dos setores do MDB do Nordeste com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Tratada como a noiva desejada pelos outros candidatos, já disse que não pretende ser vice de ninguém; caso não seja candidata à Presidência, pretende disputar a renovação de seu mandato de senadora. Pela conversa de Baleia Rossi, a maioria dos diretórios do MDB deseja a candidatura de Tebet.

Bombeiros no ninho

O tucano Eduardo Leite, que se movimenta pelo país em busca de apoio para ser candidato, mesmo após perder as prévias do PSDB, farejou o perigo em razão do famoso áudio da conversa privada do presidente do PSDB, Bruno Araújo (PSDB), no qual o então coordenado da campanha de João Doria admitiu as articulações para unificar a terceira via em torno de Tebet e não, como se esperava, do ex-governador gaúcho. Araújo acabou afastado do comando da campanha por Doria e viajou para os Estados Unidos, onde a filha vai estudar, para deixar a poeira baixar. Leite resolveu procurar Doria para apagar o fogaréu no ninho tucano. A conversa entre os dois foi ontem, em São Paulo.

Nos bastidores do PSDB, a avaliação é de que a movimentação de Leite contra Doria e as inconfidências de Araújo criaram uma situação implosiva para a legenda. O ex-governador paulista mandou recado de que não vai retirar a candidatura nem aceita que as prévias da sigla, que venceu, sejam desrespeitadas. Caso seja removido a fórceps pela cúpula da federação PSDB-Cidadania, Doria recorrerá à Justiça. Judicialização da campanha é tudo o que os defensores da terceira via, que apostam na racionalidade de Doria, não querem. A desistência do ex-gestor paulista é uma construção política, da qual o próprio seria protagonista, e não uma humilhante derrota por antecipação.

O tempo é curto para a unificação da terceira via, porque as pesquisas estão mostrando que o espaço para uma candidatura nem Lula nem Bolsonaro está se reduzindo. Essa candidatura, mesmo não rompendo a polarização, cumpriria o papel de atrair uma parcela de eleitores que poderá decidir o pleito no segundo turno. Além disso, também garantiria a eleição de uma parcela expressiva de cadeiras na Câmara e no Senado. O problema é que essa avaliação, tipo o importante é competir, favorece a manutenção das candidaturas de Doria e Tebet.

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