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Ninho tucano sofre novo abalo

Integrante da velha guarda do PSDB, ex-chanceler Aloysio Nunes ignora Doria e anuncia que votará em Lula no primeiro turno

TAINÁ ANDRADE VINiCIUS DORIA
postado em 14/05/2022 00:01
 (crédito: Edy Amaro/Esp. CB/D.A Press)
(crédito: Edy Amaro/Esp. CB/D.A Press)

Tucano histórico, o ex-senador e ex-ministro das Relações Exteriores Aloysio Nunes ignorou o fato de o PSDB ter pré-candidato ao Palácio do Planalto — o ex-governador paulista João Doria — e declarou apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já para o primeiro turno das eleições de outubro.

Nunes justificou que a decisão não é uma rejeição a Doria, mas uma posição firme "entre a civilização e a barbárie". Conforme argumentou, o Brasil "não aguenta" um segundo mandato do presidente Jair Bolsonaro (PL).

Segundo ele, a terceira via, que prometia ser uma alternativa aos eleitores nem-nem — nem Lula, nem Bolsonaro —, se tornou inviável porque não foi capaz de apresentar ao eleitorado um nome competitivo para fazer frente à polarização apontada pelas pesquisas de intenção de voto.

Sobre o pré-candidato do PDT, Ciro Gomes, Nunes comentou que será a quarta candidatura do ex-governador ao Planalto e que o postulante "não tem mais coelho na cartola para tirar".

"Só há duas vias abertas hoje: a da manutenção de Bolsonaro e a da derrota dele. E quem tem condição de derrotá-lo é o Lula. Não há hesitação possível. Vou apoiá-lo no primeiro turno. Eu estou me colocando diante de uma situação nacional dramática. Com mais quatro anos de Bolsonaro, o Brasil chafurda na corrosão democrática. Estamos diante da escolha entre a civilização e a barbárie."

A declaração surpreende porque o PSDB sempre se colocou como antagonista do PT nas disputas eleitorais ao longo das últimas três décadas. No entorno da pré-campanha de Doria, a declaração foi recebida com irritação e desconfiança de que o movimento de Nunes seja a ponta de lança de uma articulação mais ampla, envolvendo o ex-tucano e vice do petista, Geraldo Alckmin (PSB), e lideranças importantes do PSDB, como o senador Tasso Jereissati (CE).

Além de aumentar o isolamento de Doria, Nunes lança mais uma pedra no caminho do autodenominado centro democrático, uma articulação entre PSDB, Cidadania e MDB.

A justificativa pública do ex-senador para não se juntar ao pré-candidato de sua própria legenda é a alta rejeição de Doria nas pesquisas eleitorais. De acordo com o último levantamento de intenção de voto da Quaest, divulgado na quarta-feira, o ex-governador aparece empatado com Bolsonaro: 59% dos entrevistados declararam que não votariam no tucano em outubro.

Apesar de Nunes considerar "injusta" a visão que se tem de Doria, ele não vê no colega de partido a consistência necessária para a disputa nacional. "Existe uma rejeição muito forte a ele, que acho até injusta do ponto de vista administrativo, porque ele fez um bom governo, e (do ponto de vista) político, pois Doria foi um dos pouquíssimos tucanos que enfrentaram, de fato, Bolsonaro", afirmou.

Pressão

Há uma forte pressão no PSDB para que Doria saia da corrida presidencial. Essa articulação parte do grupo político ligado ao deputado Aécio Neves (MG) e a outros tucanos emplumados, como Jereissati. A ala poderosa tentou emplacar o ex-governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite como companheiro de chapa da senadora Simone Tebet (MDB-MS) na composição da terceira via.

Os presidentes dos partidos do centro democrático — Baleia Rossi (MDB), Bruno Araújo (PSDB) e Roberto Freire (Cidadania) — definiram, na última quinta-feira, que a cabeça de chapa e a vaga de vice serão definidas com base em pesquisas quantitativas e qualitativas encomendadas pelas legendas.

Entre hoje e amanhã, o Instituto Guimarães de Pesquisa e Planejamento (IGPP) estará em campo para coletar as informações que vão subsidiar as cúpulas das siglas na tomada de decisão, marcada para a próxima quarta-feira.

A preferência dos caciques é pela pré-candidatura de Tebet. Restaria ao PSDB a vaga de vice, que Doria já declarou não aceitar por ter sido escolhido nas prévias do próprio partido.

Com a situação de Doria, voltam à mesa os nomes de Leite e Jereissati para compor a chapa da terceira via. O ex-governador paulista admite, inclusive, judicializar o processo caso seja escanteado pela cúpula tucana antes das convenções partidárias, marcadas para o fim de julho e início de agosto.

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