Três perguntas para: Andressa Pellanda, coordenadora geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação

Correio Braziliense
postado em 19/05/2022 00:01

Há vários países onde o ensino em casa é tradicional e bem sucedido — aspecto que é defendido pelos apoiadores do projeto. Com as peculiaridades do Brasil, há condições de se obter bons resultados?

A proposta concreta para se monitorar o que está acontecendo na educação doméstica é a realização de provas. É uma visão estreita sobre o que é educação. Um estudo americano, com metodologia científica séria e boa amostragem, concluiu o seguinte sobre crianças que estudavam em casa: têm menos probabilidade de entrar na faculdade e obtêm menores níveis de educação superior do que as das escolas públicas; frequentam universidades de menor prestígio; têm menos probabilidade de obter um diploma de faculdade ou pós-graduação; e têm níveis significativamente diferentes de engajamento cívico.

Quais podem ser as consequências, a médio e longo prazo, da implementação desse modelo para a educação brasileira?

Hoje, altas taxas de violência e abuso sexual e de trabalho infantil acontecem dentro do ambiente familiar. Caso se autorize a educação domiciliar, o risco se agrava, pois são reduzidas, ainda mais, as perspectivas de controle, identificação ou proteção dessas crianças e adolescentes. Para a educação ser a prática da liberdade, deve ser, também, espaço de debate sobre os temas da sociedade, inclusive os mais sensíveis. Só por meio de uma educação democrática, que dá lugar à discussão plural, construímos uma educação emancipatória e crítica. Uma sociedade inclusiva começa pelo ambiente escolar e regulamentar a educação domiciliar significa restringir o acesso à escola aos que são diferentes — é mais exclusão. Qualquer pessoa ocupará o lugar do professor, o que não é admissível para quem defende a ciência — desvalorizando ainda mais a docência. O discurso nem sempre explicitado pelos defensores do ensino domiciliar afeta o conceito da educação como bem público.

Um ponto citado pelos defensores do homeschooling é a dificuldade das escolas em lidar com os casos de bullying. Retirar o estudante do convívio resolve?

Isso é frequentemente utilizado como justificativa para defesa da educação domiciliar. Mas esse é um problema próprio de uma sociedade que padroniza comportamentos, formas corpóreas, vestimentas, cabelos, cor de pele, sexualidade — uma sociedade que não respeita a diversidade. A educação domiciliar, nesse sentido, em nada contribui para enfrentar o problema, pois não se debate e busca a solução. Essa prática impede o convívio das crianças com as diferenças e aumenta a intolerância.

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