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Governo negocia com Musk monitoramento da Amazônia

Bolsonaro anuncia contrato com Musk para monitoramento da região e diz que satélites derrubarão "mentiras" sobre devastação

Cristiane Noberto
Deborah Hana Cardoso
postado em 21/05/2022 06:00
 (crédito:  AFP)
(crédito: AFP)

O presidente Jair Bolsonaro (PL) e o bilionário Elon Musk — dono das empresas SpaceX, Tesla e Starlink — anunciaram, ontem, em São Paulo, o lançamento de um programa de internet via satélite que pretende conectar 19 mil escolas em áreas rurais e promover um monitoramento ambiental "mais tecnológico" na Amazônia. Não foram divulgados, porém, detalhes do acordo.

Bolsonaro buscou no empresário sul-africano um aliado para refutar pressões sobre sua gestão da Amazônia. Ele é muito criticado, no Brasil e no exterior, por sua política ambiental e os números recordes de desmatamento e incêndios na maior floresta tropical do planeta. O chefe do Executivo disse contar com Musk para "mostrar a verdade para o mundo sobre a região tão cobiçada por outros países".

"Nós vamos mostrar que a Amazônia é preservada. Lógico que existem os nichos de exploração, de queimada e desmatamento irregular, mas a chegada dos satélites vai nos ajudar a preservar. Agora, precisamos, também, desenvolver aquela região, que é riquíssima em biodiversidade e em riquezas minerais", enfatizou Bolsonaro, reclamando de "quanto malefício causam para nós aqueles que difundem mentiras sobre essa região".

Presente ao encontro, o ministro das Comunicações, Fábio Faria explicou, durante coletiva de imprensa, que os satélites darão ao governo ferramentas para colaborar no controle do desmatamento. São equipados — conforme destacou — com laser que detectam o ruído das motosserras de quem desmata, e além disso, vão ajudar a vigiar os "focos de calor" na região para controlar possíveis queimadas ilegais. Em novembro, o governo já tinha informado que negociava um acordo com Musk para o fornecimento de internet via satélite na Amazônia.

A notícia sobre o monitoramento amazônico pela Starlink foi recebida com ressalvas por especialistas em Amazônia, já que o Brasil possui um robusto sistema de acompanhamento da situação da floresta — pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Imazon e Mapbiomas, entre outros.

Ludmila Rattis — pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e do Woodwell Climate Research Center — frisou que o controle da situação da Amazônia é feito por um conjunto de monitoramentos que incluem até satélites da Nasa. Ela disse não ver problemas em ter mais um componente que mapeie o bioma, mas ressalvou: "Não pode ser algo para lucro. Se está vindo por garantir o bem-estar de todo o planeta, é muito bem-vindo, para somar esforço".

Tasso Azevedo, coordenador do Mapbiomas — consórcio de ONGs, universidades e startups que usa imagens de satélite para rastrear a destruição da floresta —, destacou que "trazer internet é ótimo, conectar escolas faz sentido". "Mas monitorar o desmatamento não faz muito sentido, porque no Brasil isso já é feito com excelência. O que falta é ação, não monitoramento", frisou.

Mapa-amazônia
Mapa-amazônia (foto: AFP)

Custos

Para Basílio Perez — presidente da Federação Latino-Americana e do Caribe das Associações de Provedores de Internet (LAC-ISP) e conselheiro da Associação de Provedores de Internet e Telecomunicações (Abrint) —, não tem lógica o governo contratar um serviço diferente, haja vista que o fornecido por um provedor local "vai sair pelo menos 10 vezes mais barato".

"O satélite é caro, o equipamento, a instalação e a mensalidade são caros. O satélite é e vai ser útil em determinados locais, mas não pode generalizar. Obviamente que, pelo tamanho da Amazônia, sempre vai ter uma localidade em que não é vantajoso levar um cabo de fibra óptica, será mais fácil um satélite levar o serviço, mas o critério não pode ser porque é da Starlink, tem que ser para quem fornece o serviço mais barato e com maior qualidade", ressaltou. (Com AFP)

Bolsonaro chama Musk de mito da liberdade

O presidente Jair Bolsonaro rasgou elogios ao empresário Elon Musk pela intenção de comprar o Twitter (leia Saiba mais) e disse que a atitude é um "sopro de esperança". Na visão do chefe do Executivo, o bilionário é um "mito da liberdade".

"Cada vez mais, a tecnologia se faz presente para nos ajudar. O mais importante na presença dele (Elon Musk) é algo imaterial. Hoje em dia, poderíamos chamá-lo de mito da liberdade. Um exemplo ele nos deu há poucos dias, quando anunciou a compra do Twitter. Para nós, foi como um sopro de esperança", destacou.

O presidente ainda condecorou o bilionário com uma medalha de honra ao mérito. Na visão de Bolsonaro, Musk tem a "vontade de devolver a liberdade". "Liberdade é a semente para o futuro", disse o chefe do Executivo. "Então, a presença dele aqui, todos sabem de sua importância e do que ele representa para o mundo", continuou.

No encontro, também estiveram o banqueiro André Esteves (BTG Pactual), Alberto Leite (FS), Ricardo Faria (Granja Faria), Zeco Auriemo (JHSF), Flávio Rocha (Riachuelo), Carlos Sanchez (EMS), Rubens Ometto (Cosan), Rubens Menin (MRV e Inter), Carlos Fonseca (Galápagos), Rodrigo Abreu (Oi), José Félix (Claro), Pietro Labriola e Alberto Griselli (Tim), Jorge Moll Filho (Rede D'Or), Roberto Campos Neto (presidente do Banco Central), Walter Braga Netto (ex-ministro da Defesa e possível vice na chapa de Bolsonaro neste ano), Paulo Sérgio Nogueira (ministro da Defesa), Tarcísio de Freitas (ex-ministro de Infraestrutura e pré-candidato do governo de SP), e Dias Toffoli (ministro do Supremo Tribunal Federal).

O empresário e um dos maiores ativistas do bolsonarismo, Luciano Hang, dono da rede Havan, aproveitou para engajar o encontro de Musk com o presidente. Ao compartilhar uma imagem na qual atribui falas de Elon Musk sobre um jogo político contra ele nos Estados Unidos, o brasileiro escreveu: "A esquerda é igual em todos os cantos do mundo! Compartilho com vocês esse tweet do @elonmusk. Lembre-se: a esquerda gosta da divisão, do ódio, de destruir reputações, e prega intolerância. Parabéns Elon, pela coragem de se posicionar. O mundo precisa de mais empresários assim".

Mais rico do mundo

Nascido na África do Sul — e com nacionalidades, também, americana e canadense —, Elon Musk, 50 anos, é a pessoa mais rica do mundo, segundo a revista Forbes. Tem fortuna estimada em US$ 200 bilhões. Inicialmente conhecido como o fundador da Tesla, Musk, pai de oito filhos e divorciado três vezes, tornou-se uma figura central do neocapitalismo americano com suas ambições extraplanetárias e ideias políticas, amplamente difundidas por ele nas redes sociais. Nesta semana, negou acusações de ter agredido sexualmente uma comissária de bordo há seis anos e denunciou o que definiu como um complô "político". O canal on-line independente Insider informou que a SpaceX pagou US$ 250 mil a uma mulher, em 2018, para encerrar um processo de comportamento inadequado contra o bilionário.

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