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Zelensky tem culpa na guerra, diz Lula à Time

Lula causa furor entre apoiadores ao estampar a capa da Time, mas falas em que equipara presidentes da Rússia e da Ucrânia provocam controvérsia e se juntam à série de erros cometidos ultimamente pelo ex-chefe do Executivo

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) agitou o mundo político, ontem, por ganhar a capa da prestigiada revista Time, dos Estados Unidos. A publicação chama o petista de "o líder mais popular do Brasil" e diz que ele "busca voltar à Presidência". Apoiadores de Lula inundaram as redes sociais com imagens da revista seguidas de comentários elogiosos e muita provocação aos bolsonaristas virtuais. Mas nem tudo foi festa. Mais uma vez, declarações do ex-presidente provocaram reações e críticas, alimentando, desta vez, um debate sobre a posição dele em relação à invasão da Ucrânia pela Rússia.

"Putin não deveria ter invadido a Ucrânia. Mas não é só o (presidente da Rússia, Vladimir) Putin que é culpado, são culpados os Estados Unidos e é culpada a União Europeia. Qual é a razão da invasão da Ucrânia? É a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte)? Os Estados Unidos e a Europa poderiam ter dito: 'A Ucrânia não vai entrar na Otan'. Estaria resolvido o problema", respondeu Lula a uma pergunta sobre a guerra. Na sequência, ao dar a opinião sobre o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, emendou: "Ele é tão responsável quanto o Putin, porque uma guerra não tem apenas um culpado".

Ao nivelar invasor com invadido, Lula provocou reações, inclusive entre aliados da candidatura petista. Os adversários, porém, foram rápidos em criticar, incluindo os prováveis oponentes na eleição de outubro (leia mais na página 3).

Entre os partidos aliados do PT, as recentes polêmicas provocadas por declarações de Lula e a proporção que tomaram causam desconforto. De abril para cá, o petista recebeu ataques por dizer que o aborto é uma questão de saúde pública, que o presidente Jair Bolsonaro "não gosta de gente, gosta de policial", e por defender que os eleitores "mapeiem" endereços dos parlamentares para fazer protestos. Também criticou o "politicamente correto", ao reclamar que não pode mais fazer piada sobre nordestinos.

Para o deputado Heitor Schuch, do PSB — partido do pré-candidato a vice, Geraldo Alckmin —, "Lula fala muito, e fala sobre coisas que já passaram". "Candidato que fala demais não é eleito", frisou ao Correio, acrescentando que não se considera, pessoalmente, aliado do ex-presidente.

Já o 1º vice-líder do PSB na Câmara, Camilo Capiberibe (AP), acredita que a discussão eleitoral não deve se basear em polêmicas, mas no que interessa para tirar o Brasil da crise em que vive. "(A polêmica) beneficia, principalmente, Bolsonaro. São questões que animam muito a militância, mas que não se traduzem em nada relevante ao processo eleitoral."

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Bolsonaro tem aproveitado a onda de declarações polêmicas do ex-presidente para faturar politicamente e alimentar suas bases nas redes sociais. Na internet, houve uma enxurrada de críticas da ala bolsonarista e de ex-integrantes do governo à entrevista na Time. A hashtag #LulaVergonhaDoBrasil esteve entre assuntos mais comentados do Twitter ontem, impulsionada por contas de apoiadores de Bolsonaro. Para o deputado federal Capitão Augusto (SP), vice-líder do PL na Câmara (PL-SP), as falas controversas do ex-presidente vão ajudar o chefe do Executivo a ultrapassar Lula nas pesquisas de intenção de votos até o fim deste mês.

"É tanta bobagem que acaba perdendo votos e cedendo para Bolsonaro. Não sei o que está acontecendo com Lula. Não sei se ele está subestimando ou se está praticamente jogando a toalha. Mas é inacreditável falar tanta bobagem em um curto espaço de tempo, e bobagens que impactam as intenções de voto", avaliou.

O ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência, general Augusto Heleno, disse por meio das redes sociais que a Time "menospreza a memória e a inteligência dos brasileiros de bem". "Lamento que enalteça e dê espaço a quem tanto mal fez ao Brasil e, com seu vice, canta o hino da Internacional Socialista", postou.

O deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) ironizou e disse que a escolha editorial da revista foi um tutorial "de como perder a credibilidade" ao retratar "o maior bandido de um país como a sua esperança". O filho 02 do presidente, vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ), republicou uma thread (tuítes em série) de Felipe G. Martins, chefe da assessoria internacional da Presidência da República, absolvido de acusações de fazer sinais nazistas em sessão no Congresso. No texto, o assessor palaciano alegou que a revista estava "se intrometendo" na política brasileira. E citou diversas empresas, pessoas e ações internacionais que, segundo ele, dão apoio a Lula.

Ruídos

Os problemas na pré-campanha de Lula são apontados pelo cientista político Cristiano Noronha, da Arko Advice. Ele observou que a mudança no comando do marketing já é uma percepção de que há ruídos na comunicação. "Antes, Lula estava contido, e Bolsonaro desgastado. Mas, à medida que a campanha vai se aproximando, ele vai aumentando a exposição, e isso acaba ampliando as chances de erro", ressaltou. "Isso vai expondo o ex-presidente, e a pessoa que pensava em apoiá-lo pode acabar pensando duas vezes e até mudar o voto na direção do Bolsonaro."

De acordo com o especialista, "se Lula continuar cometendo erros e o governo, cada vez mais, seguir adotando medidas que possam estimular a economia e melhorar índices de avaliação, essa distância entre Bolsonaro e o ex-presidente vai se aproximar mais".

Arthur Wittenberg, professor de políticas públicas do Ibmec, concordou que as recentes declarações de Lula têm potencial de tirar votos. "Foram pelo menos seis declarações nos últimos meses. A questão que se coloca é: Lula perdeu a mão ou é uma estratégia? De acordo com diversas pesquisas (de intenção de voto), de janeiro para abril, o espaçamento entre Lula e Bolsonaro caiu", ressaltou.

"As falas de Lula não tratam dos assuntos mais importantes para o eleitorado, não são de centro, não são propositivas na saúde ou na economia. Logo, Lula tem errado nas falas, tanto no tema escolhido quanto na forma, e empurrado eleitores indecisos para Bolsonaro", concluiu.

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A Time classifica a candidatura do petista como "o segundo ato de Lula", chamando-o de "o líder mais popular do Brasil". A reportagem traça um perfil da volta dele à arena política após passar 580 dias preso no âmbito da Lava-Jato. Cita, por exemplo, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que anulou condenações da operação e declarou a parcialidade do ex-juiz Sergio Moro no caso. Os confrontos entre o presidente Jair Bolsonaro e o STF também foram mencionados pela revista, que fez um paralelo entre ele e Donald Trump, ex-presidente dos EUA. "Em abril, ele (Bolsonaro) sugeriu que as eleições poderiam ser 'suspensas' (na verdade, falou em 'suspeição') se 'algo anormal acontecer'", diz um trecho. "Se ele perder, alertam os analistas, é provável que haja uma versão brasileira do motim de 6 de janeiro. Se ele vencer, as instituições brasileiras podem não aguentar mais quatro anos de seu governo", acrescenta.