Entrevista

Admirador de Berlusconi, Fittipaldi vê imagem errada de Bolsonaro na Europa

O ex-piloto decidiu se candidatar ao Senado da Itália, nas eleições parlamentares de setembro.

Agência Estado
postado em 17/08/2022 22:35
 (crédito:  Arthur Menescal/Esp.CB/DA.Press)
(crédito: Arthur Menescal/Esp.CB/DA.Press)

Nos últimos anos, Emerson Fittipaldi aprendeu a conviver com perguntas sobre dívidas em meio a questões e lembranças sobre sua trajetória vitoriosa na Fórmula 1. Nesta semana, o bicampeão mundial surpreendeu ao voltar ao noticiário por um motivo totalmente diferente. Decidiu se candidatar ao Senado da Itália, nas eleições parlamentares de setembro.

A surpresa foi acompanhada de críticas por conta do partido escolhido. Ele apresentou sua candidatura pelo controverso Fratelli d'Italia (Irmãos da Itália), criticado no mundo da política pelas ideias de direita radical. O partido é liderado por Giorgia Meloni, liderança polêmica na Itália por já ter indicado ser admiradora do ex-ditador Benito Mussolini, criador do fascismo. Liderando uma coalizão de direita, ela é favorita nas pesquisas e pode se tornar a primeira mulher a ocupar o cargo de chefe de governo na Itália.

A própria Meloni convidou Fittipaldi para ser candidato ao Senado representando os descendentes de imigrantes italianos, os chamados "oriundi". O ex-piloto de 75 anos deve encontrar dificuldades na disputa por apenas uma vaga (eram três antes de mudanças na Constituição italiana) porque enfrentará concorrentes da Argentina, país com maior população de descendência italiana.

Nesta entrevista exclusiva ao Estadão, concedida por telefone da Itália, a lenda do automobilismo brasileiro negou qualquer inclinação fascista da líder do partido, que usa símbolos que remetem ao movimento liderado por Mussolini. Ele elogiou Meloni e Luis Roberto Lorenzato, do Lega Nord (Liga Norte), outro partido da direita radical italiana. Disse ser fã do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi e afirmou que deve saldar todas as suas dívidas até o fim deste ano.

Nas redes sociais, o senhor foi criticado por se candidatar por um partido da direita radical italiana. Isso causou incômodo ao senhor?

Eu respeito a opinião de todos. Deus nos deu a liberdade de expressão, mas a liberdade de expressão tem de ter a verdade. O fascimo e o nazismo foram enterrados há muitos e muitos anos. Foram uma tragédia para o ser humano. Não existem mais e, pela lei italiana, nem poderiam existir. Não existe partido fascista. O meu partido é de centro-direita, não é de extrema direita. É um partido cristão, porque sou muito cristão. É um partido que respeita a família. Eu jamais entraria num partido que tem ideologia fascista.

Como surgiu a ideia de se candidatar?

Foi uma surpresa para mim. Eu nem sabia que 'oriundi' (descendentes de imigrantes italianos) podem entrar na política italiana. Duas semanas atrás, um amigo de longos anos, o Lorenzato, que é deputado, me chamou para ser candidato. Fiquei surpreso porque sou do esporte, mas ele me disse que eu teria um campo aberto para incentivar o esporte. Perguntei sobre o partido, que ele me explicou ser de centro-direita, liderado pela Giorgia Meloni, que é muito respeitada na Itália. Ela segue os passos do Berlusconi e eu sempre admirei o Berlusconi. Até almocei com ele há uns dois anos e gostei muito. Quando ele entrou na política italiana, acho que a Itália avançou bastante para o lado certo.

A Giorgia Meloni já deu declarações polêmicas e o partido usa alguns símbolos considerados fascistas...

Isso não existe. Está errado. Eu nunca entraria (num partido assim). É só ver as declarações que ela fez há uma semana. Ela desmentiu totalmente essa imagem que criaram. Ela segue o caminho do Berlusconi e tem conteúdo espetacular. É inteligente e ama o país dela. Para mim, será uma honra poder contribuir com as ideias do partido, se eu for eleito.

Quais suas principais propostas como candidato?

Nós, 'oriundi', enfrentamos algumas dificuldades. Há muita demanda nos consulados. Precisamos desburocratizar o serviço, para facilitar a vida dos funcionários. Precisamos também criar uma ponte grande entre a cultura brasileira e a italiana. E também quero aumentar a participação dos 'oriundi' na Itália. Precisamos conhecer melhor a Itália, fortalecer essa ligação. A raiz está aqui na Itália. E o italiano precisa descobrir como o Brasil é lindo, e não apenas o turismo sexual, como às vezes acontece.

Já pensou em entrar para a política no Brasil?

Nunca pensei, mas já recebi ofertas. Não quis entrar. Acho que essa oportunidade que Deus está me dando, de concorrer, é uma honra muito grande. Se eu for eleito, será um sonho grande poder contribuir.

O senhor recebeu o apoio do presidente Jair Bolsonaro nesta investida na política?

Não conversei com ele, mas, com certeza, tenho o apoio dele. Eu dou muito apoio ao presidente. Ele gosta de partidos de centro-direita e é 'oriundi' também. Tem tudo a ver. A imagem que o presidente Bolsonaro tem na Europa não é correta. Eu conheço bem tudo o que está acontecendo no Brasil. Ele tem a imagem errada aqui na Europa.

O senhor pretende ajudar a mudar essa imagem?

O que eu puder fazer futuramente é trabalhar com a verdade. E a imagem que inventaram do presidente Bolsonaro? eu quero estar sempre com a verdade. A verdade é o mais importante na vida de um político.

Como está a situação das suas dívidas?

Só posso agradecer a Deus porque estou praticamente com 92% das minhas dívidas já acordadas, encerrando os processos. Prometi lá trás (que saldaria as dívidas) e estou chegando no caminho. E vou estar zerado logo, com muito orgulho e agradecimento a todos que me ajudaram. Agradeço a Deus por estar saindo dessa grande dificuldade que tive no Brasil e que foi parte da minha vida e já ficou no passado. Agora estou indo para a frente.

Recebeu alguma ajuda ou doação para saldar as dívidas?

Não, foi tudo trabalho nosso negociando as dívidas. Mas as pessoas ajudaram na negociação. E foi muito bom, me deparei com muita gente boa que entendeu a minha situação. Negociamos e acertamos. Tudo o que prometi, estou cumprindo. Ainda falta um finalzinho para cumprir. Estou nas últimas duas voltas do 'Grande Prêmio'. Quero resolver tudo até o fim do ano. Estou muito feliz.

O senhor perdeu algum bem ou patrimônio por causa das dívidas?

Não perdi nada. Aconteceu aquele escândalo infeliz de divulgarem que eu estava quebrado. Quiseram destruir a minha imagem e não conseguiram. A minha imagem é muito forte no mundo inteiro. Graças a Deus, estou com todos os bens e troféus, tudo recuperado. 

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