ELEIÇÕES 2022

Por que Marina Silva é considerada peça-chave para o 'voto útil' em Lula

Com a declaração do apoio de Marina Silva ao petista, Lula pretende se aproximar do eleitorado evangélico e fortalecer a estratégia do 'voto útil'

Após anos distantes, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a ex-senadora Marina Silva (Rede-SP) firmaram união. A ex-ministra do Meio Ambiente do governo do próprio petista, afirmou, nessa segunda-feira (12/9), que estará ao lado do presidenciável nestas eleições para defender a democracia.

"Agora nós estamos diante de um quadro que é democracia ou barbárie. Estou partindo do princípio de que tudo isso que está acontecendo é a nossa capacidade de reelaborar, repensar o passado, para construir um novo futuro", disse a candidata à Câmara dos Deputados durante coletiva de imprensa no escritório político da campanha de Lula, em São Paulo.

O apoio a Lula vem após um longo período de críticas e divergências políticas. Após sair do PT, em 2009, Marina Silva se filiou ao Partido Verde (PV) e iniciou sua caminhada distante do Partido dos Trabalhadores.

Em 2010, se candidatou à Presidência da República e angariou um número expressivo de votos: 19.636.359, ficando em terceiro lugar, com uma porcentagem de 19,33% em todo o país. No entanto, sua ex-colega de governo, Dilma Rousseff (PT), saiu vitoriosa com 55.752.529 de votos. José Serra (PSDB) ficou em segundo lugar, com 43.711.388 votos.

Em sua segunda tentativa, Marina foi ainda mais expressiva. A ex-ministra se candidatou pelo PSB, novamente, em 2014, ano em que rompeu, de fato, com o PT. A campanha de Dilma Rousseff, que disputava a reeleição, observando o crescimento de Marina nas pesquisas de intenção de votos, partiu para o ataque, propagando que a política teria um relacionamento próximo com grandes banqueiros, passando a mensagem de que Marina tiraria dos pobres para fortalecer, ainda mais, os ricos.

Mesmo com a ofensiva do PT, a ex-presidenciável ainda conquistou 22.176.619 votos. Não foi o bastante, porém, para ultrapassar Aécio Neves (PSDB), que, no segundo lugar do primeiro turno, ficou com 34.897.211 votos. Dilma levou a reeleição, no segundo turno, com 54.501.118 votos. Marina apoiou Aécio na segunda fase das eleições de 2014.

“De fato, Marina teve uma votação expressiva, mas o contexto de 2010, por exemplo, era difícil. Tínhamos Dilma surfando numa aprovação de Lula superior a 80% e tínhamos o PSDB, de José Serra, governador de São Paulo com avaliação positiva acima dos 50%. 2014 talvez tenha sido o mais próximo de Marina ter protagonizado a disputa presidencial. Para ela e qualquer outro que tente ser presidente, tem que largar entre os dois candidatos preferidos, no máximo, o terceiro se tiver muito próximo do segundo, se não, é difícil ir para um eventual segundo turno ou até mesmo ganhar eleições”, avalia o professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Alagoas, Denisson Silva.

Em 2018, já no Rede, Marina se candidatou novamente, porém, conseguiu apenas 1.069.578 votos. Ainda segundo Denisson, o mau desempenho da candidata se deveu à fragmentação das eleições daquele ano. No entanto, ele analisou pontos positivos da campanha da ex-ministra.

"A eleição de 2018 foi muito fragmentada. Com isso, os eleitores tiveram muitos polos de atração, ou como diríamos na metáfora econômica, tínhamos muitos produtos à disposição do consumidor (eleitor). Então, a eleição no primeiro turno seguiu o seu propósito, as pessoas votaram naqueles candidatos mais próximos de suas convicções”, disse.

“Outro ponto importante a ser considerado, é a máquina partidária. Isso significa, em última instância, estrutura para campanha. Pois, parte do financiamento é distribuído pela proporcionalidade de parlamentares na Câmara dos Deputados. Mas ainda assim Marina saiu de alguma forma vitoriosa, pois, com bem menos recursos (próprios, privados ou estatais) teve praticamente a mesma votação Henrique Meirelles com toda estrutura do MDB e ainda o vultoso patrimônio próprio empregado na campanha”, completou.

Neste meio tempo, Marina não poupou críticas ao PT. A ex-ministra afirmou que, durante a campanha de 2014, Dilma tinha praticado fake news contra ela. Em outras ocasiões, ela ainda afirmou que o partido não reconhece seus erros. E no impeachment da ex-presidente petista, Marina ainda se colocou positiva ao impedimento.

Todo esse histórico de críticas ao Partido dos Trabalhadores, porém, pode se tornar um “ponto-chave” para a estratégia petista este ano, após o apoio declarado de Marina a Lula. A ex-ministra passa credibilidade e imparcialidade para quem ainda está indeciso no voto. Além disso, Marina aproxima Lula do eleitorado evangélico, o qual ainda é defasado.

“Para Lula (a aproximação) é boa, pois reforça o discurso de frente ampla. E para os ambientalistas é importante pautar uma das candidaturas que têm chance de vitória. No cenário em que os dois sejam eleitos (Lula na Presidência e Marina na Câmara dos Deputados), é ainda melhor para os defensores das pautas ambientais, pois, de um lado vai ter uma parlamentar comprometida com a causa e um governo que deve ter algum grau de comprometimento também. Ela ainda anda em diversos círculos e é bem quista É evangélica, facilitando a ponte e uma aproximação maior de Lula com esse eleitorado”, afirmou o cientista.

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Transferência de votos

A aproximação entre Lula e Marina se torna ainda mais importante para a campanha de Lula. Uma das estratégias do petista é insistir no voto útil, para tirar Jair Bolsonaro (PL) da Presidência. Com a expressividade de votos que a ex-ministra teve nos pleitos de 2010 e 2014, a possibilidade de a transferência de voto virar o dito voto útil pode acontecer, avalia o professor.

“A transferência de voto não é algo automático. Mas, sem sombra de dúvidas, ter apoio da magnitude de Marina importa para qualquer candidato. Ou como diria na linguagem das redes sociais, Marina é uma 'influencer'. Não é à toa que foi costurada essa aliança. Além de simbolicamente representar essa frente ampla que Lula está construindo”, afirma Denisson.

A Rede Sustentabilidade, além de ter declarado apoio a Lula, faz parte da coligação "Brasil da Esperança", que tem a Federação Brasil da Esperança com PT/ PCdoB/ PV/PSB e, junto,o Solidariedade/PROS e a Federação PSOL/REDE/Avante/Agir. No entanto, Marina só declarou apoio ao PT nesta semana. Apesar disso, não era esperado, por outro lado, que a ex-ministra apoiasse Bolsonaro.

“O governo Bolsonaro não tomou nenhuma medida efetiva para combater os males climáticos, entre eles, a destruição da Amazônia, Cerrado e Pantanal. Então, era de alguma forma esperado que Marina, uma política que dedicou a vida à pauta ambiental, fosse para um projeto de governo que tivesse condições, ou ao menos prometesse reverter ou parar com o processo de destruição ambiental em marcha”, conclui o professor.