Comando

"Fratura no nível de confiança" leva Lula a trocar o comando do Exército

Presidente troca o comandante após "uma fratura no nível de confiança" no general Júlio César Arruda. Quem assume é Tomás Miguel Ribeiro Paiva , que fez um discurso em defesa da democracia na semana passada

Victor Correia
postado em 22/01/2023 03:55 / atualizado em 22/01/2023 15:58
 (crédito: Divulgação/Exército)
(crédito: Divulgação/Exército)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva exonerou ontem o comandante do Exército, general Júlio César Arruda, e anunciou o general Tomás Miguel Ribeiro Paiva como seu substituto. A troca ocorreu em meio à tensão entre o petista e as Forças Armadas, especialmente o Exército, devido à omissão frente aos atos terroristas de 8 de janeiro e resistência a punir eventuais militares que tenham participado dos atos.

Lula tomou a decisão cedo, mas o anúncio oficial ocorreu apenas à noite, após reunião no Palácio do Planalto entre presidente; o ministro da Defesa, José Múcio; e o chefe da Casa Civil, Rui Costa. O general Tomás também estava presente.

"Conversamos hoje (ontem), logo cedo, com o general que estava no comando, o general Arruda, a quem eu faço as minhas melhores deferências, e queria apresentar aos senhores o seu substituto, o general Tomás, que a partir de hoje é o novo comandante do Exército brasileiro", declarou Múcio a jornalistas no saguão do Planalto, ao lado do comandante. A passagem oficial de comando ocorre nesta semana.

"Evidentemente que depois desses últimos episódios, a questão dos acampamentos, a questão do 8 de janeiro, as relações, principalmente com o comando do Exército, sofreram uma fratura no nível de confiança. E nós achávamos que precisávamos estancar isso logo de início, até para que nós pudéssemos superar esses episódios", completou o ministro da Defesa.

Após ser informado da exoneração, o general Arruda convocou uma reunião virtual com o alto comando do Exército para discutir o caso. Militares avaliam que a demissão ocorreu pela falta de ação de Arruda contra as manifestações bolsonaristas, especialmente após os ataques terroristas de 8 de janeiro.

Lula pediu a demissão do ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, o tenente-coronel Mauro Cid, que foi nomeado no fim do governo anterior para cuidar do 1º Batalhão de Ações de Comandos (BAC), que fica em Goiânia. A unidade é responsável por operações especiais, de alto risco, e tem permissão para atuar em Brasília em situações de emergência. Homem forte de Bolsonaro, Mauro Cid é suspeito de operar um esquema de caixa 2 dentro do Planalto durante a última gestão, o que motivou o pedido de exoneração do comando do 1º BAC, mas o tenente-coronel nega. O governo, porém, considera o 1º BAC estratégico em caso de novos ataques terroristas e vê com preocupação que o batalhão seja comandado por um aliado do ex-presidente.

O general Arruda se recusou a exonerar Mauro Cid do cargo, o que motivou a troca de comando no Exército. Já havia, porém, grande tensão entre o presidente e as Forças Armadas. Ao ser nomeado, havia a expectativa de que Arruda ordenasse a remoção dos acampamentos de bolsonaristas em frente aos quartéis, o que não ocorreu. Fontes da caserna ressaltam que todos os comandantes ficaram em uma situação delicada, já que os manifestantes exaltavam o Exército e pediam uma intervenção militar.

Lula demonstra publicamente o desconforto com os militares desde os ataques terroristas, citando a participação de integrantes das Forças nos atos. Segundo o presidente, "a porta do Planalto" foi aberta para os bolsonaristas antes da depredação, e "nenhum general se moveu" para desmobilizar os acampamentos que, mesmo antes do ataque, já pregavam ações violentas e antidemocráticas. Além disso, pelo menos 80 militares foram exonerados de cargos no governo federal.

Com o pretexto de melhorar a relação com a caserna, Lula reuniu-se na sexta com os comandantes do Exército, Marinha, Aeronáutica e do Estado Maior, bem como o ministro da Defesa, José Múcio, para discutir medidas para a modernização das Forças. A jornalistas, após o encontro, Múcio disse que o tema dos atos antidemocráticos não esteve em pauta.

Fontes próximas ao presidente relataram, porém, que o tema foi, sim, discutido e que Lula garantiu que não culpa as Forças Armadas por participação ou incentivo aos atos antidemocráticos, mas quer, sim, a responsabilização legal de envolvidos. Lula teria ficado incomodado ainda por Arruda não demonstrar apoio a punições.

Militares, por sua vez, relatam que a demissão de Arruda um dia após o encontro causou estranheza. Primeiro, porque Lula poderia ter aproveitado a reunião para conversar sobre a troca de comando no Exército. Segundo, porque Arruda e os demais comandantes saíram satisfeitos com a perspectiva de modernização e investimento das Forças Armadas, bem como a sinalização de um arrefecimento da crise.

O substituto

O novo comandante do Exército será o general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, que estava à frente do Comando Militar do Sudeste. Pelo critério da antiguidade, escolhido por Múcio para nomear os comandantes, Ribeiro Paiva está logo após Arruda. O novo chefe, porém, ganhou destaque por discursos recentes cobrando respeito ao resultado das eleições.

"Ser militar é isso. É ser profissional. É respeitar a hierarquia e a disciplina. É ser coeso. É ser íntegro. É ter espírito de corpo. É defender a pátria. É ser uma instituição de Estado, apolítica, apartidária. Não interessa quem está no comando, a gente vai cumprir a missão do mesmo jeito", discursou à tropa na última quarta-feira, durante solenidade que homenageou militares mortos no Haiti.

"Quando a gente vota, tem que respeitar o resultado da urna. Não interessa, tem que respeitar. É isso que se faz. Nem sempre a gente gosta, nem sempre é o que a gente queria. Não interessa", afirmou ainda. A fala chamou atenção de aliados de Lula, o que fortaleceu o nome de Tomás para comandar o Exército. O posicionamento está alinhado com o objetivo do governo de "desbolsonarizar" as Forças Armadas, reestruturando-as como instituições de Estado e as distanciando do discurso golpista pregado nos últimos quatro anos.

O general Tomás era cotado como possível chefe do Exército mesmo durante a campanha eleitoral, por ter bom trato político com integrantes do atual governo. O nome foi referendado por parlamentares, ex-ministros e até pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Lula, porém, decidiu seguir a tradição de nomear o general mais antigo para o cargo, que era Arruda.

 

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Evidentemente que depois desses últimos episódios, a questão dos acampamentos, a questão do 8 de janeiro, as relações, principalmente com o comando do Exército, sofreram uma fratura no nível de confiança"

José Múcio, ministro da Defesa

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