A influência do crime organizado é uma ameaça real à política e à democracia. Para as votações em outubro, há uma inédita preocupação das autoridades eleitorais e de segurança com a influência das facções criminosas e das milícias, uma vez que, atualmente, não se limitam a determinar as escolhas do morador das áreas que controlam. O envolvimento com a política se sofisticou. As organizações criminosas têm seus próprios candidatos, independentemente de representarem as localidades em que surgiram na vida pública.
No Rio de Janeiro — estado que é o berço do bolsonarismo, mas que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende avançar para conquistar o eleitorado (leia na página 3) —, pelo menos seis candidatos teriam algum grau de envolvimento com o crime organizado. Todos negam qualquer espécie de vínculo. Um deles é Val da Ceasa, candidato à reeleição como deputado estadual pelo PRD. Ele é apontado pelos ministérios públicos do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ) e Eleitoral (MPE) por supostos vínculos com a facção Terceiro Comando Puro (TCP) e, também, por suspeita de tentar interferir em uma operação policial. Em junho, o MP-RJ cumpriu mandados de busca e apreensão na casa e no gabinete do deputado, apreendendo valores em espécie sob suspeita de favorecimento a lideranças do tráfico e interferência em ações policiais na região.
Outro dessa lista é João Felipe Drumond, também candidado do PRD a uma vaga na Assembleia Legislativa fluminense (Alerj). Teve a candidatura questionada pelo MPE devido a parentesco com chefões d o jogo do bicho no Rio de Janeiro. Ele é neto de Luizinho Drummond, antigo patrono da escola de samba Imperatriz Leopoldinense.
Júnior da Lucinha (PSD) é alvo de ações de impugnação pelo MPE devido a suspeitas de conexões e histórico político associado a investigações de milícias no estado do Rio. No caso de Mariana Souza (PP), ela teve a pré-campanha e articulações questionadas por se casada com Wilson Marques de Albuquerque, o "Zé Dirceu", apontado como o segundo na hierarquia do Comando Vermelho em Alagoas. Tem ainda Cristiano Hermógenes (Avante) cujo registro foi impugnado por parentesco direto com chefes do CV.
Há candidatos sob suspeita de envolvimento com facções também em São Paulo e na Paraíba.
Com vistas a impedir que os representantes do crime sejam eleitos, o MPE elaborou um caderno de recomendações para impedir que tal influência siga crescendo. No documento, há orientações para que os partidos adotem medidas voltadas à prevenção da infiltração das facções e milícias nas estruturas partidárias.
O modelo foi elaborado pelo Grupo de Trabalho de Combate ao Crime Organizado no Âmbito Eleitoral, sugerindo a criação de protocolos internos de fiscalização e segurança para identificar possíveis vínculos entre filiados, pré-candidatos e organizações criminosas. De acordo com o GT, a influência dessas facções no processo eleitoral representa uma ameaça ao regime democrático e à livre escolha dos eleitores.
Entre as medidas recomendadas, está a implementação de protocolos de integridade internos que obriguem os pré-candidatos a apresentar certidões criminais de todas as instâncias das justiças Estadual e Federal, para fornecer dados que analise as candidaturas a serem lançadas pela legenda. Além disso, o documento orienta a criação de comissões de sindicância ética, para análise do histórico social, vínculos territoriais e compatibilidade patrimonial dos pré-candidatos.
Em 2025, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) consolidou jurisprudência no sentido de proibir a candidatura de integrantes de organizações paramilitares ou similares.
Influência
Pouco mais de 41% dos cidadãos com 16 anos ou mais reconhecem a presença de grupos criminosos ligados ao tráfico ou a milícias nas suas regiões. Isso é o equivalente a 68,7 milhões de pessoas vivendo sob o signo da brutalidade, segundo expôs o Fórum Brasileiro de Segurança Pública no relatório Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança. Pela pesquisa, tal reconhecimento é mais forte nas capitais, onde 55,9% da população admite essa atuação em seu bairro. Nos outros municípios da região metropolitana em que moram, esse percentual é de 46,0%.
Entre as pessoas que compõem esses pouco mais de 41%, a vasta maioria (80,4%) percebe algum nível de influência desses grupos nas decisões e regras de convivência do bairro — uma forma de governança criminal. Um dos impactos disso na política é o silenciamento: 59,5% das pessoas que vivem em áreas com presença de criminalidade organizada afirmam que evitam falar de política por medo, segundo o documento.
O levantamento mostra que as agressões físicas motivadas por escolha política ou partidária atingiu 2,2% da população brasileira nos últimos 12 meses (cerca de 3,6 milhões de pessoas). Segundo o relatório, os homens são as maiores vitimas dos espancamentos por razão política do que mulheres (2,9% contra 1,5%). A incidência é maior entre as classes D/E (3,5%), se comparado às classes C (1,4%) e A/B (2,2%). Isso indicando, também, que a vulnerabilidade econômica aumenta a exposição a esse tipo de brutalidade.
Mudança de local
Em 4 de agosto, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro anunciou a alteração de 268 locais de votação por motivos de segurança. A medida afeta cerca de 610 mil eleitores, de 20 municípios fluminenses. A decisão do presidente do TRE-RJ, desembargador Claudio de Mello Tavares, tem o objetivo de impedir que a votação seja realizada em locais dominados pelo crime organizado e classificados como de alto risco.
"A mudança desses locais de votação é um compromisso com a higidez do processo eleitoral. Com essas trocas, buscamos garantir que o eleitorado possa ir às urnas tranquilo e escolher os candidatos que desejar, livre de pressões de qualquer tipo. Esse é um momento de exercer livremente o direito ao voto. O TRE-RJ atua para que essas escolhas possam ser confirmadas da maneira mais serena possível", explicou.
As alterações feitas até agora superam as 53 das eleições de 2024, mas esse número pode aumentar. Isto porque a Justiça Eleitoral fluminense mapeia outras localidades em busca de outros locais de votação. No processo de substituição, os novos destinos precisam estar fora de áreas do tráfico ou de milícias, afastadas de territórios dominados por facções rivais e precisam estar o mais próximo possível de cada local de votação substituído.
*Estagiário sob a supervisão de Fabio GrecchiSaiba Mais
