Encontro com o chef

Valorizando a simplicidade com receitas de bolos e cucas da infância

Ao se ver sem trabalho durante a pandemia, arquiteta resgata livro de receita da infância e começa a preparar bolos e cucas para vender

Sibele Negromonte
postado em 09/07/2020 12:46 / atualizado em 07/09/2020 12:46
 (foto: anaray)
(foto: anaray)

Sempre que uma amiga estava com dificuldade, Juliana Kneipp Giareta costumava dar o mesmo conselho: “Você cozinha tão bem, por que não vai fazer bolo?”. No início da pandemia, a empresa para a qual ela trabalhava precisou cortar a representante em Brasília e, de repente, a arquiteta se viu sem emprego. Chorou por dois dias. Mas, em seguida, resolveu seguir o próprio conselho. E foi preparar bolo.

Nascida em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, Juliana chegou a Brasília há 12 anos. Com um tio arquiteto, que tinha ajudado, inclusive, na construção da capital, a recém-formada veio em busca de oportunidade de trabalho e aperfeiçoamento profissional. Por aqui, atuou em escritórios e em sua grande paixão arquitetônica: restaurações.

Tudo ia bem até que veio a pandemia e, assim como a de tantas outras pessoas, a vida de Juliana deu uma virada. Não que a gastronomia fosse exatamente uma novidade para ela. Descendente de alemães e italianos, a gaúcha sempre amou cozinhar. “Muitas vezes, nós, do Sul, somos consideradas pessoas frias, que não gostam muito de abraçar. A comida é uma das formas de demonstrarmos afeto em família”, resume. A gaúcha lembra que, aos domingos, uma tia costumava visitar sua família e ela ficava responsável por preparar um bolo para recebê-la. “Era uma forma de carinho.”

Aos 11 anos, recorda-se, cursou uma matéria na escola em que aprendia a cultivar horta e a cozinhar. “Nessa época, eu já fazia bolos sozinha, sem a supervisão de adultos.” A mãe ficava responsável pelos salgados e ela, pelos doces. “Confeitaria sempre foi minha paixão. Eu lia o caderno de gastronomia do Zero Hora e praticava.”

Quando se viu sem emprego, Juliana resgatou o antigo caderninho de receita do colégio e a batedeira, que estava encostada, comprou ingredientes e formas extras, avisou aos amigos que ia preparar bolos com gosto de avó e pôs, literalmente, a mão na massa. Como mora sozinha e em uma quitinete, começou a trabalhar no seu ritmo e dentro das suas possibilidades. “Não posso, por exemplo, fazer estoque de ingredientes porque não tenho onde armazenar. O meu fogão tem apenas duas bocas”, diverte-se.

Memória afetiva

Em abril, começaram a sair os primeiros bolos do forninho de Juliana. Os clientes iniciais eram os amigos. “Como ainda havia muitas incertezas e poucas informações sobre o vírus, eles faziam questão que eu entregasse (prática que ela segue até hoje).” Hoje, a rotina da arquiteta resume-se a assar os bolos durante todo o dia e fazer as entregas no fim da tarde.

A gaúcha decidiu preparar bolos simples, sem grandes segredos. “Mas não é porque o processo é simples, que eles não têm sabor. Na verdade, a simplicidade não permite mascarar sabores. Ou você faz bem-feito ou não. Não há meio-termo.” E a resposta não podia ser melhor. “Muitos começaram a me dizer que o bolo trouxe lembranças de infância. Tem presente melhor do que ter seu prato comparado ao da casa da avó de alguém? Se isso aconteceu, é porque mexeu muito com a pessoa”, emociona-se.

Com o sucesso, Juliana não só ampliou o cardápio como incluiu as cucas — tão populares no Sul do Brasil e com forte influência europeia. “As que eu faço seguem a linha alemã, uso frutas. Já os italianos preparam um tipo mais seco, para comer com salame”, detalha.

Em pouco tempo, as cucas — oferecidas em vários sabores, como banana, chocolate, maçã, queijo — viraram campeãs de vendas. Bateram, inclusive, os bolos mais populares, como os de cenoura e laranja. “Muita gente compra para presentear alguém querido. E essas pessoas acabam virando clientes, também.” E não é à toa que eles sejam presentados. Juliana tem um cuidado especial com as embalagens, transformando-as em um mimo. “Quando comecei a fazer, tinha umas flores aqui em casa e eu coloquei na embalagem. E acabei investindo nisso. É o meu lado arquiteta falando mais alto”, brinca.

Hoje, Juliana se vê completamente dividida entre a arquitetura e a gastronomia. “Eu nunca imaginei a gastronomia como profissão. Eu sempre vi a cozinha como um processo terapêutico, um movimento de reorganização dos pensamentos. Foi assim que eu comecei durante a pandemia: cozinhando e pondo as ideias em ordem.” De uma coisa ela tem certeza: as duas profissões sempre farão parte de sua vida.

Cuca

Cuca de Juliana Giareta
Cuca de Juliana Giareta (foto: anaray)

Ingredientes
2 ovos
2 colheres de sopa de manteiga
2 xícaras de açúcar

4 xícaras de farinha de trigo
1 e 1/2 xícara de leite
2 colheres de fermento em pó

Farofa
1 e 1/2 xícara de farinha de trigo
1 e 1/2 xícara de açúcar
1 pitada de canela em pó
1 tablete de manteiga
Junte todos os ingredientes até formar uma farofa.

Modo de fazer
Bata bem todo os ovos, a manteiga e o açúcar.
Adicione o leite e a farinha aos poucos.
Por último, acrescente o fermento.
Unte uma forma retangular com manteiga e farinha e coloque a massa.
Por cima, adicione a farofa e leve ao forno por 45 minutos a 180º.

Serviço
Instagram: @bolos_jugiareta
WhatsApp: (61) 9 8123-0385

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