Cidade nossa

Boteco a distância

Paulo Pestana
postado em 15/08/2020 17:38
 (foto: .)
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A noite ainda começava a cair quando nosso amigo entrou no bar reclamando que nasceu na época errada. Antes de prosseguir com o lamento, é necessário dizer que no boteco não é de bom tom — sim, há uma etiqueta — ficar inquirindo os parceiros, até porque quase sempre a amizade se limita àquele determinado local; fora dali, pessoas que riem, celebram e choram juntas são praticamente desconhecidas.

A reclamação do companheiro serôdio era da mulher. Por causa da pandemia, ficamos exatamente 115 dias sem bar com a alegação oficial que assim evitaríamos contágio e propagação do vírus. A maioria comportou-se bem, ficou em casa nos primeiros dias ouvindo aquele monte de teoria, de que tudo seria diferente dali em diante. Ele desabafou: a mulher achou que o tal novo normal era um mundo sem boteco.

Depois de tantos dias recolhido, ela achou que a cervejinha que o marido tomava sozinho no canto da varanda, enquanto via o jornal da noite, era o suficiente. Pois bastou ele avisar que, liberados os bares, papearia com os amigos que a casa caiu.

Mal sabe ela que, muitas vezes, o equilíbrio do lar depende de algum tempo no bar. É onde os maridos deixam escapar boa parte da pressão do dia a dia, evitando que a casa seja contaminada pela pestilência e pelo mau humor provocados por um chefe, um cliente, um sapo qualquer, engolido de mau jeito.

Esse é um tópico que falta nesses cursos de noivos, em que nubentes recebem noções do que os espera quando se junta os panos. Ninguém explica esse fundamento à noiva. E que falta nos faz o Jornal das Moças, uma das primeiras publicações dedicadas à mulher, que trazia conselhos muito úteis às jovens casadoiras do início do século passado.

Já no primeiro número, de 1914, foi publicado o artigo O que a mulher deve ser, com vários tópicos de comportamento recomendando, entre outras coisas, modéstia, além de deixar bem evidente a posição da mulher no casamento.

Na grafia da época, o número quatro dizia: “É de bem que procure agradar ao homem, pois para isso nasceu, mas sem que tente deslumbra-lo, affectando dotes e qualidades que não possue” — isso para aconselhar que não se engane o homem com “cadeiras postiças” e “seios de algodão”.

Também deixava claro que é preciso estar sempre pronta, como aparece no sétimo tópico: “Deve procurar levantar-se mais cedo do que elle e sempre às escuras ou sob a penumbra do aposento, para que o marido não a veja desgrenhada”.

No segundo número do Jornal das Moças, o conselho é que a mulher deve ser um pouco instruída: “Pelo menos, os rudimentos de arithmetica e de leitura”. E ainda ameaça: “Por não saber dividir bem, algumas mulheres dividem os maridos...”

Mas os tempos são outros. O nosso extemporâneo amigo está com um problemão para resolver em casa: convencer a mulher de que não é porque está em regime de trabalho a distância, que o mesmo tratamento deve ser dispensado ao boteco, com o sistema de telebar.

 

 

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