Especial

Sinais de identidade

Pessoas que têm vitiligo relatam preconceitos sofridos por carregam na pele uma doença autoimune e contam como foi o processo de autoaceitação

Tayanne Silva*
postado em 03/09/2020 18:48

“Olá, como vai? Já se olhou no espelho hoje e percebeu que sua diferença só te torna único(a)?”. Essa é uma das falas que legendam as postagens da brasiliense, modelo e manicure Larissa Sampaio, 18 anos, em sua conta no Instagram (@sampaiolariissa). Com vitiligo — doença caracterizada por manchas hipopigmentadas —, a jovem abriu mão das camadas de produtos de maquiagem que esconderam sua identidade por 12 anos para conscientizar sobre a condição e virar símbolo de autoaceitação.

A primeira mancha no joelho apareceu quando tinha apenas 5 anos. “No início, foi algo tranquilo, porque era uma manchinha. Mas, quando começou a aumentar, foi o momento em que passei a me esconder, esconder quem eu era de verdade. Tinha vergonha das minhas manchas, principalmente as do rosto, que eram as que eu cobria com maquiagem. Eu me sentia diferente das pessoas e comecei a me privar de algumas coisas”, explica. Larissa também recorria a calças e blusas com mangas ompridas para esconder a pele.

Algumas dessas escolhas eram armas de defesa contra o preconceito. Larissa foi alvo de bullying no colégio, recebeu apelidos e viu algumas pessoas, principalmente colegas de sala, afastaram-se. Lidar com as falas maldosas e com a ideia de não atender ou não se encaixar totalmente no padrão de beleza imposto pela sociedade a machucaram durante anos.

Essa foi, justamente, a preocupação de seus pais. “Quando eles descobriram que eu tinha vitiligo, ficaram superpreocupados, principalmente pela questão de eu poder sofrer preconceito na escola. Só que eles sempre deixaram claro que eu era linda, tentavam aumentar minha autoestima. Quando era pequena, eu não queria aceitar que tinha vitiligo, falava para as pessoas que era queimadura. E minha mãe foi me ensinando e fui aprendendo que eu tinha vitiligo, uma doença de pele”, relembra.

A causa do seu vitiligo é, principalmente, emocional. O período em que a condição autoimune passou a se manifestar coincidiu com a separação dos pais, o que a afetou bastante. “As manchas cresceram primeiro nas pernas e, atualmente, estão presentes no meu corpo todo. Meu vitiligo é universal, nasce em todas as regiões do corpo. Não faço tratamento, só passo protetor solar e evito andar no sol, porque minha pele é muito sensível.”

Gatilho emocional

O fator genético ligado à doença também está presente. Atualmente, há outros dois casos de vitiligo em sua família, além da suspeita que o irmão mais novo de Larissa, de 2 anos, tenha a condição. A patologia afeta 1% da população mundial e não é trransmissível.

A patologia pode ocorrer em qualquer pessoa, idade e tom de pele, desde que tenha predisposição genética. Não é contagiosa e não representa nenhum risco para a vida do indivíduo. “É uma doença da pele, em que ocorre a morte das células de pigmento (melanócitos). Quando elas morrem, essa área perde a cor totalmente (mancha branca) ou parcialmente (mancha clara, sem ser branca)”, explica o dermatologista Paulo Luzio.

Desenvolve-se devido ao estresse — o cérebro manda informações que geram uma descarga neuronal na pele. “Após isso, há vários acontecimentos que vão terminar com a formação de anticorpos contra as células de pigmento”, detalha o médico. “O vitiligo é considerado doença autoimune. Mas, a primeira coisa que sempre acontece é o cérebro respondendo ao estresse”, complementa ele, especialista em dermatologia pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e membro da Global Vitiligo Foundation.

O vitiligo pode afetar a autoestima de algumas pessoas e é, justamente, esse abalo emocional um dos gatilhos para o surgimento de mais manchas. “O aparecimento das lesões pode estar associado a períodos de estresse agudo, como separação ou falecimento de alguém querido”, diz a dermatologista Nayane Braga Aidar, também membro da SBD. “Os tratamentos dos tópicos orais devem estar em conjunto com a terapia psicológica e psiquiátrica”, enfatiza ela, formada pela Universidade de Brasília (UnB). Segundo a médica, a doença pode ser classificada, como localizada — subdividida em focal e segmentar —; generalizada ou comum — acrofacial, vulgar e misto —; e universal — despigmentação de mais de 50% da pele e/ou mucosa.

Influência

Larissa acredita que sua aceitação em relação ao vitiligo aconteceu na hora certa, quando já tinha sabedoria suficiente e poderia ajudar outras pessoas por meio de palavras, fotos e vídeos ou ao compartilhar vivências e informações. “O que me ajudou a alcançar essa aceitação foi o convite da agência de modelos para a qual entrei. O produtor me desafiou a não usar mais maquiagem, não tapar mais as manchas, porque isso era diferente e me tornava única, linda e, por meio delas, poderia ajudar outras pessoas a entenderem que não existe só um padrão de beleza no mundo”, afirma.

Falar de vitiligo nas redes sociais tem grande importância para a modelo, pois é um caminho para incentivar o amor às suas diferenças. Ela, que tem compartilhado diversas fotos mostrando suas manchinhas com textos com relatos empoderados, consegue perceber o impacto da atitude. “O retorno principal, e que eu amo receber, são mensagens das pessoas que me seguem, contando suas histórias sobre o vitiligo, dizendo que estão começando a se aceitar, que sou inspiração. Não tenho palavras para agradecer e dizer o quanto isso mexe comigo! É muito gratificante saber que estou ajudando alguém por meio da minha história”.

Larissa também tem a própria inspiração: a canadense Winnie Harlow. Os feitos da supermodelo, assim como sua representatividade no campo profissional são um incentivo para a brasiliense. Ela completa explicando que, hoje, cada manchinha que tem pelo corpo significa algo muito importante relacionado à autoaceitação e ao amor próprio. “Elas dizem quem eu sou.”

*Estagiárias sob a supervisão de Sibele Negromonte

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