Cidade nossa

Entre leões e urubus

Paulo Pestana
postado em 03/09/2020 19:42
 (foto: Editoria de arte)
(foto: Editoria de arte)

As esparsas chuvas recentes lavaram o céu de Brasília. A névoa seca formada por poeira, material orgânico flutuante e sabe-se lá mais o quê deu lugar a um azul anil vivíssimo, que tem tornado a secura dos últimos dias suportável; no mínimo, mais colorida. Como está difícil ficar em casa, muita gente se arrisca pelos lugares públicos da cidade, desafiando o vírus.

O resultado é um batalhão de gente que decretou feriado permanente nos chamados dias úteis; o tal do teletrabalho virou passeio, transformando alguns funcionários públicos em inúteis que batem perna pela cidade. A situação lembra aquela crônica do Stanislaw Ponte Preta, quando dois leões fugiram do zoológico; um foi para a floresta da Tijuca, outro se abrigou em uma repartição.

O que foi para o mato foi logo encontrado e recapturado. O outro continuou desaparecido e, para matar a fome, a cada dia comia um funcionário, até que foi encontrado e levado para a cela, onde se encontrou com o outro fugitivo e contou sua história. Perguntado se foi capturado porque se acabaram os funcionários, ele respondeu:

— Nada disso. O que não acaba no Brasil é funcionário público. É que eu cometi um erro gravíssimo. Comi o diretor, idem um chefe de seção, funcionários diversos, ninguém dava por falta. No dia em que eu comi o cara que servia o cafezinho... me apanharam.

Mas não era nada disso que eu ia escrever. Comecei falando no tempo seco e limpo, porque parece que tem sido do agrado dos urubus. Já contei o caso do amigo que tinha a cobertura de seu apartamento no Setor Sudoeste frequentada por abutres, porque um vizinho cismava de deixar carcaças de frango, como quem deixa alpiste para passarinho.

Com isso, os urubus fizeram ponto nas coberturas do prédio, deixando espalhadas todas as fedorentas necessidades, destruindo as plantas dos vasos e mexendo em tudo. Mas eles haviam sumido. E não por medo do estilingue que meu amigo comprou, lembrando seus tempos de caçar rolinhas, quando elas ainda voavam pelas chácaras de Vicente Pires; ruim de mira, nunca acertou um urubu. Avalie uma rolinha!

Não sabemos se é o céu sem nuvens, se o tempo seco torna o ar mais propício para aquelas longas plainadas das aves de rapina ou se por nostalgia dos pedaços de frango, mas o fato é que os urubus voltaram. E estão mais folgados que nunca, comportando-se como donos do pedaço e expulsando sabiás e bem-te-vis.

O cacajau-de-cabeça-preta, o mais comum, frequenta lixões, é pequeno e veloz, enxerga de longe e voa em grande altitude; portanto, o sexto andar do prédio é moleza. Antes, era só um casal de pássaros, agora são mais e meu amigo acredita que são muitos mais.

Urubu não se mata, é crime. Ele já fez de tudo para tirar os bichos de lá, até comprou um aparelhinho que emite ultrassons, que o fabricante garante que espanta tudo. “Devem ser surdos”, disse. Agora, ele voltou a fazer a alegria do balconista da loja de fogos e a disparar rojões para tentar espantá-los, mas só ganhou uma certeza: definitivamente, aqueles urubus são surdos.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação