Bichos

Comportamento indesejado

Entenda por que alguns cães têm o hábito de montar em objetos ou pessoas e saiba como agir

Manuela Ferraz*
postado em 11/09/2020 20:35
 (crédito: Arquivo pessoal)
(crédito: Arquivo pessoal)

Você já deve ter notado um hábito curioso de cães – machos ou fêmeas – que parece simular um ato sexual, com movimentos pélvicos em almofadas, bichinhos de pelúcia, outros animais ou até em braços e pernas de seres humanos. O comportamento de monta, como é denominado, é mais comum do que imaginamos no mundo canino.

“O filhote começa a montar como uma forma de brincadeira ou de comunicação com os irmãos. Então, é comum o cachorro que ainda está amamentando praticar o comportamento”, explica Elisa Dornelas, adestradora e franqueada da Cão Cidadão. O fato de estar frequentemente ligado à puberdade canina não impede que possa acontecer em outras fases da vida e, possivelmente, torna-se inadequada e motivo de dor de cabeça para muitos tutores.

Emerson Oliveira, tatuador conhecido como Japa Art Work, 31, passou por duas experiências dessas com seus cães. “Nossa primeira cadela, a Saori, sempre teve o hábito de montar. Ela fazia isso quando adotamos o Goku, mas não com a filha Serena. Agora, adotamos o Floki e, para garantir o território em meio à matilha, ele subiu em todos os cachorros que temos, o que gerou um grande conflito entre os animais”, relembra.

O maior confronto foi entre Floki, um samoieda de 1 ano, e o golden retriever Goku, 4 anos, por serem os únicos machos do grupo. As abordagens escolhidas pelos tutores para lidar com a situação – e que permitiram a boa relação atual entre os pets – foram a castração e o adestramento. Floki passou por um tratamento conjunto com comportamentalista canino e adestrador. “Em duas semanas, ele voltou um novo cachorro. Não subia mais em nenhum cão e estava muito mais calmo, carinhoso e educado — apesar de latir muito, mas isso é característica da raça”, afirma o tatuador.

Ele explica que, durante o processo, algumas orientações também foram passadas, como ficar atento a indícios de conflito entre os cães e corrigi-los imediatamente — sem gritos ou punições. A atitude foi imprescindível para o convívio dos três goldens e do samoieda da família.

Orientação especializada
Para o zootecnista Pedro Henrique Mendes, comportamentalista canino e responsável técnico do São Chiquinho Hotel Fazenda Pet, buscar ajuda profissional é o primeiro passo a seguir. “É comum os donos acharem que adestramento e treinamento comportamental são sinônimos, mas são completamente diferentes. No adestramento, são ensinados comandos ao cão que são bastante úteis como ferramentas para lidar com o animal. É algo benéfico para todos os cachorros, principalmente por exercitar seu cérebro e a disciplina – no entanto, nem sempre é suficiente. Distúrbios comportamentais precisam de outro tipo de treinamento e são resolvidos por meio de uma forma de ‘terapia’.”

Por isso, Pedro acredita que a melhor forma de resolver a situação é unindo o trabalho do profissional com formação em comportamentalismo canino com o do adestrador. Para Jéssica Andrade Fucitalo, psicóloga e adestradora positiva, os tutores devem procurar profissionais de adestramento que utilizam técnicas sem uso de aversivos, como bronca, medo ou susto. “Esse outro tipo de tratamento pode ter efeito oposto, tornando o cão medroso e/ou agressivo. Nos casos de compulsão, em que há necessidade de intervenção medicamentosa, deve-se procurar por veterinários comportamentais — um nicho novo no Brasil”, explica.

Em alguns casos, a monta pode ocorrer aliada a outros comportamentos indesejados, como aconteceu com Eros, shih-tzu de 3 anos. “Essa não era a principal questão dele, mas, sim, a agressividade com os outros cães. Nesse caso, havia o componente da compulsão, falta de atividade física, mental e social e dificuldade de comunicação com outros pets”, afirma Jéssica Andrade.

Para o caso de Eros, a adestradora explica que foi ajustada uma rotina de atividades físicas, mentais e sociais, e realizados treinos de comandos de obediência, calma e manejo comportamental com os outros shih-tzus da família, Ringo, 8, e Diana, 6. “O comportamento de montar diminuiu muito com essa abordagem, porém a agressividade com outros cães não foi sanada por completo, pois era necessário intervenção medicamentosa, socialização ativa e maior tempo de treino.”

Ela afirma que, no processo de educação, enquanto o cão não sabe o que esperamos dele, devemos evitar o comportamento, tirando o brinquedo que o pet costuma montar ou nos afastando imediatamente quando ele tenta montar na nossa perna — porém, retornar após alguns segundos para recompensá-lo quando estiver calmo.

Formas de lidar
Os tutores também têm papel importante no processo. Para reduzir o hábito, é preciso não reforçá-la com carinhos ou petiscos, e não ser permissivo ou justificá-lo como um possível ato de namoro do animal. “Reforçamos que cães não têm desejo sexual premeditado, mas, exclusivamente, frente ao período relacionado ao estro da cadela”, explica Pedro.

O zootecnista indica tornar o dia a dia do animal mais produtivo e interessante, com atividades físicas e mentais. Brincar com bolinha e usar comandos como senta e deita são válidos. Sobre esses comandos, o médico veterinário comportamentalista da Comporvet Ricardo de Pauli afirma: “Ensine o seu cão a sentar ou deitar sempre que quiser interagir com você. Com isso, ele entenderá que, se montar em sua perna, você não dará a atenção que ele quer, porém, se sentar-se, terá sua atenção, carinho e até um petisco.”

“Tanto o cão quanto o dono precisam ser orientados a agir nessa situação. Usamos como técnica a utilização de reforços positivos para ensinar o cachorro a não praticar o ato de montar em outras pessoas. É importante que esse reforço seja realizado pelo tutor, jamais pelas visitas. O tutor precisa exercer o papel de liderança”, explica Elisa Dornelas.

Ela afirma que a castração, indicada pelo médico veterinário, pode ajudar a diminuir o comportamento de monta, mas que não é garantia para resolução do problema. É importante que esse cão seja treinado e consiga obedecer a comandos do seu tutor.

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

 

 

Causas diversas

As causas e origens do comportamento de monta podem estar associadas a acontecimentos externos, serem puramente comportamentais ou estarem ligadas a fatores fisiológicos. Conheça os motivos mais comuns, segundo especialistas:

Excesso de hormônios (hipersexualidade)
Parte dos cães aumenta a frequência de monta ao atingir a puberdade — que, geralmente, inicia-se aos 6 meses nas fêmeas e aos 7 meses nos machos. “Nesse período, os animais estão com os hormônios, literalmente, à flor da pele e podem transferir esses impulsos a outros animais, pessoas e até a almofadas e objetos”, afirma Ricardo de Pauli, médico veterinário comportamentalista da Comporvet.

Brincadeira ou disputa hierárquica
A maior parte das situações não tem função sexual. Cães filhotes, e alguns adultos, costumam repetir os movimentos de cópula em outros animais durante brincadeiras de força e submissão. Mas é necessário cuidado para não estimular esse comportamento, pois nem sempre o animal aceita a monta — o que pode gerar brigas entre os pets.

Falta de socialização ou desmame precoce
A interação com a ninhada ou com outros animais no período de socialização — das 3 semanas aos 3 meses de vida — é importante para que o filhote aprenda a respeitar outros pets e limites. “Desmamar precocemente e não socializá-lo adequadamente poderá privá-lo dessas interações. Com isso, o cãozinho não aprenderá a respeitar alguns limites durante brincadeiras e criar o hábito de montar em outros cães.” O veterinário indica respeitar o período mínimo para desmame de 45 dias após o nascimento e socializar bastante o seu filhote.

Excesso de energia e tédio
Cães entediados podem transferir a frustração e o excesso de energia para comportamentos muitas vezes indesejáveis. Nesses casos, busque direcionar a energia para algo produtivo. Além disso, procure aumentar gradativamente o tempo de passeio com o pet — de preferência nos horários de maior agitação do animal.

Busca por atenção
Alguns cães podem continuar a montar mesmo após a castração. Isso acontece porque, muitas vezes, o animal associa o comportamento à atenção que consegue do tutor — mesmo que seja para receber uma bronca. Segundo o comportamentalista canino Pedro Henrique, a monta pode acontecer quando o cão está acostumado com uma rotina em que é o centro das atenções e perde a prioridade por algum motivo, como home office ou a chegada de um bebê ou um novo pet na família.

Estresse e ansiedade
Cães que têm uma rotina solitária em casa, com poucos estímulos, interações e atividades físicas e mentais, ou que vivem uma mudança de ambiente e da própria rotina podem desenvolver o comportamento de monta.

Cio ou situações de anomalias fisiológicas
Cio é a condição fisiológica em que a fêmea fica apta ao coito e pode causar, nos demais cães machos ou fêmeas, o ato de monta. Sobre as anomalias fisiológicas, Pedro Henrique explica: “Dores na região abdominal, infecções de urina e até mesmo alergias de pele podem desencadear a monta transitória”.

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