Cidade nossa

Agulha no agulheiro

Paulo Pestana
postado em 17/09/2020 18:56
 (crédito: Editoria de arte)
(crédito: Editoria de arte)

A habilidade de o ser humano fazer música nasceu junto com as palavras. Ou até antes: há quem defenda que as primeiras comunicações eram musicais, ou quase; ainda hoje, um grunhido vale por mil palavras, principalmente se sair da garganta da patroa.

Daí para a frente era a sonoridade — a onomatopeia — que dava sentido ao que ia sendo nominado. Mais uma vez, o som se sobrepunha à razão. E foi Nietzsche quem disse que, sem música, a vida seria um erro. Quem sou eu para contrariar?

Ainda tenho estantes cheias de long-playings e compactos, muito mais — imagino — por fetiche do que por necessidade. Outro dia mesmo, fiquei feliz de encontrar A swinging affair, álbum de Dexter Gordon que dava como perdido, para, em seguida, verificar que ele está integralmente no Spotify, com a vantagem de ter sido remasterizado a partir das fitas originais.

Ainda assim, teimei e quis ouvir o velho LP, ainda brilhante e limpo, mas as decepções começaram assim que foi colocado no prato da velha vitrola Garrard e ficou parecendo pizza sendo aberta no dedo de pizzaiolo, girando cheio de ondulações. Estava empenado.

Mas guerreiro não desiste no primeiro contratempo e busquei o braço para colocar, via manivela, como manda o figurino, no sulco inicial de Soy Califa, o tema que abre o disco. Assim que encostou, a agulha pulou fora, quebrada.

Não faz tanto tempo assim, até em mercadinho se encontrava agulha de vitrola, mas hoje é artigo raro como pincenê, galocha ou Emulsão Scott. O caminho lógico é o sebo de discos; menos para o proprietário, que vende LPs, mas não tem os apetrechos para tocá-los.

Tem uma loja na Asa Sul que vende agulhas, disse a mocinha. Realmente tinha, mas foi quando comecei a compreender o real significado da expressão ‘procurar agulha no palheiro’. Só que no caso era ainda pior, já que a agulha estava num agulheiro mesmo.

Pedi uma shure diamante, mas o homem fez cara de que quem não entendeu e perguntou se eu estava com o corpo da agulha quebrada para ele ver o tipo de conexão. Eu insisti que queria aquele modelo, mas não adiantou. Voltei para casa sem nada.

Perdi umas boas horas para atender a um capricho, pensando se valeria mesmo a pena gastar cerca de R$ 150 num objeto obsoleto que pode ser arrancado pelo primeiro arranhão mais profundo de um disco qualquer. O CD já tinha acabado com essa tortura, além de garantir uma reprodução tão boa ou melhor que a de um ótimo vinil, com a vantagem de que não chia, não solta estalidos e, principalmente, não pula.

Já em casa, olhei a bela capa do disco, com o largo sorriso do saxofonista iluminado de vermelho sobre o fundo preto, mas a vontade de ouvir as frases mais fluidas que o jazz produziu havia passado. Olhei para os CDs, mas pulei. Abri o aplicativo, digitei o nome de Candeia e o som de Sorriso antigo saiu da caixa ligada sem fio.

Limpo, sem ruído, sem pular.

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