Especial

Flores que curam

Em dois dias, a primavera chega com seu colorido e prenúncio de esperança. Saiba como as flores, com toda sua exuberância, têm ajudado as pessoas nesta pandemia

Em meio ao isolamento social, as flores tornaram-se grandes aliadas da saúde mental. A natureza, seja no quintal ou na varanda, seja no quarto, na sala, na cozinha ou no banheiro, traz um respiro, uma companhia e uma nova vida ao lar em momentos tão difíceis. Ao mesmo tempo que deixam mais alegre o dia de quem as recebe ou compra, as flores são agentes de transformação de quem trabalha com elas e precisou se reinventar durante a pandemia.

A florista Cilene Vieira é um exemplo de como o contato com as flores pode mudar uma vida — e não apenas no âmbito profissional. Depois de receber um resultado falso positivo de covid-19, ela passou uma semana completamente isolada — período em que montou, para si mesma, um arranjo por dia. A cada novo buquê, escolhia flores diferentes e usava os conceitos de cromoterapia. “As flores me salvaram, foi uma experiência fantástica. A presença delas me deu tranquilidade, e o trabalho manual me ocupou de forma saudável”, garante.

Quando precisa recarregar as energias, é nelas que Cilene encontra paz. Praticante de flower meditation, uma técnica de meditação durante o trato com as flores, ela monta os arranjos de forma mais perceptiva e sensitiva. A preparação do ambiente começa com a separação e a limpeza do material. Em seguida, acende incensos e coloca músicas meditativas para tocar. Depois de respirar fundo, começa a criação. “Não consigo fazer isso em todas as encomendas, claro. Mas é algo que repito pelo menos uma vez por semana e quando crio arranjos para mim. Posso testar a mistura de cores, texturas e cheiros”, conta.

Momentaneamente, é possível esquecer as preocupações com o dia seguinte e toda a sensação de insegurança causada pela pandemia. Segundo a florista, que sugere que todos tentem em casa, com o trabalho criativo, é possível se desligar e tudo ganha mais cor.

A florista azul

Formada pela Escola Brasileira de Arte Floral e com diversos cursos e bastante prática, Cilene vivia o mercado das flores como um extra, paralelo ao trabalho como executiva de marketing, e como um hobby prazeroso. Em 2019, resolveu viver um ano sabático e passou dois meses estudando no Canadá. De volta ao Brasil, após o carnaval, logo surgiu o primeiro caso de covid-19 em Brasília.

O isolamento acabou levando Cilene a investir ainda mais no mercado dos flores. Ela, o marido e o filho isolaram-se na chácara da família e as flores foram assumindo um papel cada vez mais importante no seu dia a dia, não só por meio dos arranjos, mas, também, do cultivo.

Antes mesmo da pandemia, ao observar os orgânicos cultivados pelo marido para consumo próprio, Cilene descobriu que são poucas as opções de flores orgânicas. Por serem apreciadas por formigas, lagartos e fungos, as plantações costumam ter muito veneno e alguns floristas acabam desenvolvendo problemas de saúde pelo contato direto.

“Foi o incentivo para que eu criasse meu jardim de teste, no qual vejo como as flores se comportam e se adaptam ao nosso clima. Começamos com as lavandas, minhas preferidas e que dão nome à marca que estou lançando, a Florista Azul”, conta.

O isolamento fez com que Cilene resolvesse aumentar a atuação no mercado. Antes, os arranjos eram pedidos apenas por amigos e familiares, sem uma marca estabelecida. As encomendas para parabenizar aniversariantes, inauguração de casa nova e gestações aumentaram, assim como buquês apenas para lembrar o amor de netos que não podem visitar os avós. “Percebi que, por não poderem visitar ou abraçar, as pessoas passaram a contar com as flores como uma forma de mostrar o afeto, de chegar perto sem poder estar presente fisicamente. Recebi encomendas até de fora do Brasil, de quem não podia voltar para visitar”, conta.

Solo fértil

Espécies que resistem bem no cerrado e que você pode cultivar no quintal de casa
Caliandra
Jasmim
Congeia
Cosmos
Lisiantos
Áster
Lavanda

Arco-íris floral

Para quem não se sente seguro para misturar cores nos arranjos, a florista Cilene Vieira dá a dica de ouro: observe a natureza, veja como ela combina as cores e siga essa orientação.
As flores magenta e vermelhas estão mais ligadas à paixão e ao amor, são muito procuradas no Dia dos Namorados e ocasiões românticas. Misturadas com rosa e amarelo-claro e branco suavizam o arranjo e o deixam ideal para dar um toque romântico ao lar.
Rosa claro com branco, folhagens cinza e verde dão uma sensação de leveza e romantismo ao mesmo tempo.
Arranjos com lilás e cor-de-rosa predominantes são sinônimo de serenidade, tranquilidade e calma para o ambiente.
Quando bate o desânimo e é preciso agitar as coisas, aposte no amarelo e laranja. Misturados com verde e vermelho. Esses arranjos trazem energia, riqueza e força.
O verde é a cor da cura, da alma e do corpo, e é uma boa combinação com qualquer outro tom. Quando é predominante no arranjo, traz frescor e estabilidade.

*Dicas: lisiantos e angélicas são flores bem perfumadas e apenas uma ou duas em um buquê o deixam muito mais cheiroso e marcante.

Dicas para o arranjo durar mais
Antes de colocar as flores em um vaso, corte as hastes em diagonal. Quanto maior a superfície, maior a absorção de água.
Observe os tamanhos das hastes, algumas são mais ou menos compridas e todas devem estar em contato com a água.
Se as flores passarem mais de 20 minutos fora da água, corte as hastes novamente. Como mecanismo de proteção, elas fazem uma espécie de embolia e criam uma bolha de ar na ponta para evitar a desidratação.
Remova a maior parte das folhas, pois elas competem com a flor pela água. Nunca deixe folhas em contato com a água, isso aumenta as chances de proliferação de bactérias.
Troque a água diariamente.
Não coloque os arranjos em lugares com correntes de ar fortes, pois elas sofrem com o vento.
Não deixe as flores em contato direto com o sol.
Um pouquinho de álcool junto com a água diminui a rapidez de proliferação de bactérias no vaso.
Aposte em produtores locais, as flores não sofrem tanto para chegar até sua casa, estão cortadas há menos tempo e são mais saudáveis. Além disso, você ajuda o comércio da região.

 

Mercado em adaptação

Assim como as flores precisam fazer concessões e mudanças para viver bem no clima temperamental do cerrado e, como recompensa, encontram um solo rico em minerais e nutrientes, o mercado da floricultura sofreu baques durante a pandemia, mas encontrou um alívio ao se reinventar, com o aumento dos pedidos por delivery, assinaturas florais e encomendas de arranjos para presente.

Florista do Ateliê Florescer, Camilla Holz cria buquês com espécies tropicais produzidas pela família, em Brazlândia, há mais de 15 anos. Com a irmã, Daniela Holz, responsável pelas entregas, ela conta ter percebido um grande aumento nos pedidos desde o início da pandemia.

“Acredito que, isoladas, as pessoas perderam o contato com o verde da natureza e querem recuperar, encurtar essa distância com os arranjos.” Muitos dos clientes das irmãs fazem assinaturas florais e comentam como as flores trouxeram alegria, diminuíram o estresse do home office e têm ajudado a passar por momentos de dificuldade.

Camilla atribui esse retorno positivo à troca de energia que as flores permitem — tornam-se um ser vivo, de quem as pessoas precisam cuidar, com quem podem conversar e que sempre deixam o espaço mais bonito e colorido.

Keisuke Miyahara, presidente da Central Flores, Associação de Produtores de Flores e Plantas Ornamentais do Distrito Federal, explica que o aumento na venda de flores depende muito do tipo de produtor e das adaptações feitas. Os produtores voltados para o ramo de eventos e os que vendiam apenas por atacado, por exemplo, sofreram muito com a pandemia, com uma queda de até 80% nas vendas. Alguns adaptaram-se e passaram a investir no varejo e em assinaturas florais para diminuir o prejuízo.

Já os associados que já tinham uma produção voltada ao varejo e arranjos viram um aumento nas vendas, principalmente nas entregas. “Quando as feiras estavam fechadas, os que tinham serviço de entrega acabaram tendo um aumento. Vários outros começaram a investir também nessa forma de serviço”, comenta.

Keisuke revela ainda que flores de corte, como girassóis, rainha-margarida e gérberas, estão entre as preferidas, assim como as suculentas. “A procura por suculentas aumentou muito por terem muita durabilidade e serem fáceis de cuidar.”

 

Plantas eternas

A dentista Simone Chaves, 51 anos, criadora da Flores de Si, foi uma das pessoas que entraram em um mundo mais florido com o início da pandemia. No segundo mês de isolamento, mexendo no celular, viu um curso gratuito de arranjos, que lhe despertou interesse. Só aí ela se deu conta de que as flores usadas eram artificiais. Mas, logo nas primeiras aulas, começou a praticar em casa, desmanchando arranjos antigos que tinha. Depois de cinco aulas grátis, envolveu-se tanto que comprou o curso completo. “Foi muito prazeroso, conseguia esquecer tudo de ruim que estava acontecendo.”

Apesar de serem artificiais e não proporcionarem o mesmo contato com a natureza durante a produção, o trabalho manual mostrou-se um aliado grande nos dias dentro de casa. Amigos e familiares começaram a se interessar e logo Simone começou a vender suas criações.

A artesã confessa que, assim como a maioria das pessoas, tinha um certo preconceito com as flores artificiais, mas, com materiais de boa qualidade, encontrou um nicho diferente. “Elas são duráveis e práticas para quem não tem tempo, não consegue cuidar de plantas naturais e até mesmo para quem sofre com alergias, mas quer florir a casa. Deixam seu lar colorido e bonito.” Simone incentiva quem está sofrendo com o isolamento. “Ocupar o tempo com algo belo é uma questão terapêutica e de bem-estar.”

Saúde mental

Psicóloga da CliniCASSI Brasília Sul, Maria Clara Martins Pereira Fialho explica que é importante cuidar da saúde de forma integral, valorizando a saúde mental e investindo em atividades que proporcionam esse cuidado. O trabalho manual com as plantas, acessível e relativamente barato, é um grande aliado, pois envolve uma relação de cuidado, como plantar, regar e cultivar.

Floricultura, jardinagem, plantação de temperos e hortas, assim como outros trabalhos manuais, trazem novos assuntos para o dia a dia das pessoas, promovem novas relações e novos círculos sociais, mesmo a distância, e auxiliam no desenvolvimento de habilidades sociais. Além disso, aumentam a autoestima e a criatividade, mudam a rotina, amenizam sintomas de estresse, ansiedade e depressão, melhoram a concentração, estimulam a memória e o cumprimento de metas, sendo uma ajuda importante no isolamento.

A psicóloga acrescenta que presentear e ser presenteado com flores e arranjos pode ser um elemento importante no distanciamento social. “Qualquer surpresa que mude dias que têm sido muito iguais é positiva. Receber flores traz cor e é a demonstração de um ato de cuidado, tão valioso nesse momento”, completa.

Fique em casa com flores

Florista há cinco anos e criadora do Ateliê Fluorita, Lilian Souza, 53 anos, encontrou no ofício uma forma de se manter positiva e ajudar quem pudesse. Levando flores para dentro dos lares, ela tornou-se uma distribuidora de afeto. “As flores são uma forma de fazer carinho sem tocar.” Lilian acredita que elas atuam como um componente vivo na casa, podem ser companhia para pessoas solitárias e tornam-se uma atividade para quem precisa se sentir ocupado com algo prazeroso. Alguns podem, ainda, descobrir um novo ofício em um hobby, como aconteceu com ela.

Os arranjos personalizados de Lilian, pensados especial e individualmente para cada pessoa ou ocasião, fizeram tanto sucesso entre familiares e amigos que a propaganda boca a boca foi instantânea. E a florista encontrou sua vocação.

Logo que os decretos governamentais permitiram o retorno das atividades, Lilian não queria apenas voltar a fazer arranjos como se o mundo não tivesse se transformado. Pensando em como poderia oferecer algo positivo para as pessoas e para a cidade, encontrou a inspiração dentro do próprio ateliê.

Observando casinhas em terracota produzidas por um dos colaboradores, teve a ideia de criar os arranjos ao redor das peças de artesanato. Com o conceito “fique em casa com flores”, as casitas viraram presentes ideais para que as pessoas se sentirem queridas e lembradas. “Os clientes mandam para os pais, os avós e para todos que amam, mas não podem abraçar. Tornou-se uma forma de levar alegria e lembrar a importância de ficar em casa”, conta.

Para a florista, as casitas tornaram-se uma corrente do bem. Os objetos decorativos que estavam parados no ateliê ganharam nova função, e a produtividade e a renda do artesão aumentaram. A florista buscou produtores locais e pessoas que estavam com dificuldades nas vendas para adquirir as plantas, flores e outras matérias-primas necessárias nas criações.

Ter um produto que não era apenas comercial, mas que tinha um significado e o poder de ajudar durante o distanciamento social, deixou Lilian aliviada. “É um conceito de empatia e cuidado que chega à casa das pessoas. Vem de uma cadeia de produção voltada para o bem geral e não somente para o lucro ou comércio.”

Durante o isolamento, estar em contato direto com a natureza tem um efeito curativo na florista, que vê no seu trabalho uma forma de deixar o mundo menos triste. Para quem quer ir além dos arranjos, Lilian incentiva os cuidados com o jardim. A chegada da primavera e das chuvas em Brasília é mais um estímulo para investir no cultivo particular.