Especial

Passado, presente e futuro

Correio Braziliense
postado em 02/10/2020 17:45
 (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
(crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press)


Iris Hazel, bruxa, pesquisadora de saberes espirituais, terapeuta holística e taróloga há 28 anos, acredita que o tarô é um instrumento de divinação, no qual encontramos as chaves para alcançar o plano divino que tem dentro de cada um. A prática para fins terapêuticos, linha escolhida por ela, trata dos bloqueios emocionais e máscaras e ajuda o consulente a resgatar o entusiasmo pela vida, aprender a reconhecer sua verdadeira vontade, resolver conflitos emocionais, cuidar da sua criança interna, entre tantos outros benefícios.

Iris destaca que a jornada do louco é importante no caminho do tarô — não é apenas de respostas, mas que leva a uma consciência interna evoluída. A consulta examina em profundidade a situação enfrentada no momento, o plano externo e interno, a energia do universo e das pessoas próximas.

“Se é uma pessoa que nunca jogou, geralmente, faço um jogo das 10 cartas, é geral e vai abordar o que ela precisa naquele momento. A primeira carta fala sobre a energia que a pessoa traz para o jogo, como ela está vendo a situação de sua vida”, detalha. As seguintes mostram as dificuldades que enfrenta e como a espiritualidade a acolhe no momento.

Outras cartas falam sobre o passado, quando, possivelmente, está a âncora do consulente, e fazem uma análise interna. Nas últimas, mas não menos importantes, há as possibilidades do futuro. “Elas falam sobre o que pode acontecer de benéfico em relação à situação apresentada. As duas últimas cartas apontam a solução, a saída, e a energia geral do jogo, um conselho final.”

Ação do divino

A jornada de Iris no tarô teve um início interessante. Ela, que conheceu a prática em 1995, lembra que tinha medo das leituras de cartas de baralho comuns, muito utilizadas na época. “Mas, chegou um tempo que falei: ‘Quero conhecer o tarô’.” Ela comprou uma revistinha e recortou as cartinhas. “Só que, quando abri aquelas cartas, senti uma coisa diferente. Achei muito interessante a simbologia dos desenhos, a posição dos braços, das mãos, dos pés. Foi assim que comecei no caminho do tarô.”

Dada a complexidade do jogo, Iris precisou mergulhar no estudo, no estudo da cabala, da astrologia no tarô e dos elementos da natureza. Ela acredita que, sem esses conhecimentos, é impossível entender o tarô — um caminho inicial da alta magia, que se eleva a todos os tipos de conhecimentos ou cultos já passados para a humanidade.

Atualmente, a taróloga, que mora em Ceilândia Sul e coordena círculos femininos na periferia, oferece serviço de consultas, promove reuniões e é facilitadora de cursos. “São muitos anos aprendendo com outros mestres, comprando livros, indo atrás de sites americanos porque, infelizmente, no Brasil, não temos uma preparação para compreender sobre a espiritualidade de forma profunda. Aqui, a gente sempre encontra bloqueios, ignorância, preconceito e, principalmente, racismo.”

Para ela, grande parte dessa discriminação se dá pela falta de conhecimento e abertura aos profissionais de tarô, que, por auxiliarem no trato emocional, deveriam ser mais valorizados. “Estamos em um ano de Xangô, ano do Sol, que traz luz à consciência, em que as mentes estão voltadas para um desespero coletivo. Só se conseguirmos nos elevar espiritualmente, chegaremos a uma compreensão do todo para agir em harmonia e equilíbrio. Nós, que vivemos em busca de conhecimentos espirituais, sempre deixamos uma mensagem ao final, e essa é minha mensagem.”

Ainda envolto em preconceito

O professor Eurico Antônio Gonzalez, do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), conta que nem todas as crenças e práticas que surgiram na sociedade encontraram liberdade para serem desenvolvidas. Muitas, na verdade, foram alvo de discriminação durante anos. “As religiões, como falam sobre aquilo que não experimentamos com os sentidos, ou seja, suas afirmações não são evidentes por si mesmas, não podem se dar ao luxo de conviver com crenças diferentes das suas, sob pena de faltar-lhes verossimilhança”, justifica.

Segundo ele, há dois ou três mil anos surgiram grandes religiões que têm, por sua vez, ramificações internas. Embora sua difusão tenha sido enorme, não eliminaram todas as religiões, crenças ou práticas dissonantes e minoritárias. Enquanto religião é uma ordem de crenças pré-moderna, a tolerância religiosa é uma invenção política moderna. Sendo assim, pode-se dizer que, hoje, há maior liberdade, quando comparado com o cenário de séculos atrás.

Busca por profissionalização

 (crédito: Fotos: Arquivo pessoal)
crédito: Fotos: Arquivo pessoal

Inicialmente, o conhecimento do tarô era passado secretamente dentro da elite envolvida com a prática ou nas sociedades secretas, explica Ana Cristal, que atua como taróloga desde 2008 e é terapeuta alquímica, formada pela Escola de Alquimia Contemporânea. A população, em geral, o conhecia por meio de instruções verbais. “Na França, no século 18, Etteilla difundiu o tarô ensinando a prática para pessoas que não faziam parte de sociedades secretas.”

Atualmente, no movimento de desenvolvimento de formações para o ensino de diversas temáticas, o tarô não poderia ficar de fora. A terapeuta, que também é instrutora do curso on-line Entendendo o Tarô, elaborado por ela e divulgado em parceria com o perfil da Universidade da Magia, afirma que é possível perceber uma busca por profissionalização e formas mais estruturadas de se obter conhecimentos sobre a prática — visto que, muitas vezes, as informações ainda são encontradas pulverizadas ou sem coerência.

Ana acredita na importância da construção do tarólogo por meio do estudo. “Se você tem acesso a um estudo estruturado sobre o tarô, que ensina o contexto histórico, filosófico, sua evolução e prática, terá muito mais segurança para orientar as pessoas em suas dificuldades e incertezas.” Ela ainda afirma que o certificado não é ponto-chave da formação, mas, sim, o nível de conhecimento do profissional e sua capacidade de transmitir de forma coerente o que aparece no jogo.

O tarólogo Carlos Henrique percebe o movimento de profissionalização e tem visto oportunidades, tanto para quem busca o uso terapêutico e pessoal da prática quanto para quem quer atuar profissionalmente. O Clubeterapia, do qual faz parte, oferece diversos cursos, além do tarô, que ajudam no processo de autoconhecimento.

Decisões e sentido de vida

 (crédito: Fotos: Arquivo pessoal)
crédito: Fotos: Arquivo pessoal

Paira no imaginário popular a abordagem adivinhatória do tarô. Para o tarólogo e terapeuta energético Carlos Henrique Torres, ele, de fato, mostra tendências sobre uma determinada situação, mas o futuro não é algo absoluto e imutável — as atitudes do indivíduo podem oportunizar a concretização ou não. “Usar o tarô para adivinhação é como usar um carro de corrida para ir à padaria. Não há nada de errado nisso, mas não se está usando todo o potencial do carro”, compara.

Ele acredita que a melhor utilização do jogo é para o autoconhecimento. “A linguagem simbólica dessas cartas retrata muito bem o consciente e inconsciente (pessoal e coletivo) do ser humano. O autoconhecimento é fundamental no caminho evolutivo do ser humano, e o tarô pode contribuir muito nessa jornada”, explica.

Esse é o caso de Sandra Silva de Oliveira, 57 anos. Terapeuta holística, ela foi apresentada ao tarô há cerca de 30 anos. “Estava passando por um processo de reestruturação interna, de quem sou, o que estou fazendo aqui, o que me completa, o que faz sentido nesta vida. Senti, com todo o meu ser, que, por meio da tiragem do tarô, aquele era o meu caminho”, conta.

Segundo ela, as portas se abriram como um chamado.“Hoje, sou psicanalista e hipnoterapeuta ericksoniana e sempre busco continuar a me aprimorar.” Para Sandra, a vantagem do jogo é confrontar o medo, a angústia, a tristeza e outras emoções que tiraram a vontade de “seguir em frente”. Ela acredita que o tarô é uma ferramenta fantástica de aperfeiçoamento. Por meio de uma série de inferências, dá a liberdade de exercer o livre arbítrio.

A terapeuta explica que faz dois tipos de leitura do tarô: a divinatória, quando um campo já está formado, não dando mais tempo de modificar o seu pensamento, comportamento e ação; e a terapêutica, que mostra como você está no contexto dos fatos que está passando, passou ou vai passar.

Carlos Henrique entende o tarô como um intermediário entre nós e o Universo, entre o consciente e o inconsciente. “Ele atua no campo da sincronicidade, termo que Carl G. Jung usou para definir as coincidências cognitivas ou paralelismos sem causas — situações do tipo: pensar numa pessoa e esta ligar, estar com vontade de comer um chocolate e ganhar um. Sincronicidade e acaso atuam no embaralhar e selecionar das cartas. Tudo isso, com a intuição de quem interpreta as lâminas do tarô, dá funcionamento a ele”, detalha.

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