Cidade nossa

A ameaça da pitanga

Paulo Pestana
postado em 22/10/2020 19:16
 (crédito: Editoria de arte)
(crédito: Editoria de arte)


Depois de uma certa idade, ninguém quer explorar mais nada. Pelo menos é o que dizem por aí, já que os anos envergam e tiram o viço. Assim, não se sabe se foi o recolhimento forçado pelo vírus ou alguma conjunção astral, mas os três amigos deram de explorar as margens do Lago Paranoá, aproveitando que as cercas caíram.

Descontadas construções que ficaram pelo caminho, muralhas de mato colocadas estrategicamente pelos inconformados moradores para impedir o trânsito ou acidentes geográficos, a margem está desimpedida. Ou quase, já que bandos de capivaras deitadas ao sol intimidam.

Não há perigo. O mato cresceu um bocado em determinados locais, já que os moradores se recusam a cuidar dos agora baldios terrenos da área de marinha, mas fora um rato ou um calango, só os novos andarilhos andam por ali. E muitas famílias.

Muita gente tem vindo de longe para fazer animados piqueniques na beira do Paranoá. Trazem churrasqueiras, carvão, isopores com cerveja e carne, grandes panelas, até redes; o que for necessário para a farra. Incluindo, é claro, essas caixas de som portáteis que revelam o gosto musical das camadas populares da cidade.

Muitos ainda não aprenderam que é educado levar o lixo embora ou, no mínimo, deixá-lo nos recipientes que foram espalhados pelo lugar. Basta uma caminhada para ver garrafas de plástico, latinhas, marmitas de alumínio ou isopor, embalagens diversas e até restos de comida.

As poucas entradas para a orla vão sendo ocupadas pelo mesmo público que nunca se empolgou muito com as áreas “oficiais” de acesso à água, exceto a prainha, na estrada para o Paranoá. As churrasqueiras do parque localizado ao lado da ponte do Bragueto, por exemplo, estão sempre vazias. Diferentemente das quebradas da 7 e da 13, na mesma região.

É o caminho que os três amigos errantes percorrem, algo em torno de seis, sete quilômetros de marcha lenta, colocando os assuntos em dia enquanto apreciam a paisagem e a fauna, crentes que estão fazendo algum exercício. Uma parada pelo menos é obrigatória, para um mergulho nas águas frias do lago e eventuais braçadas.

As demais são causadas pela natureza, que determina o tempo de colheita. Há pouco, era época de catar jabuticabas nos pés que faziam parte dos pomares privados; havia cajueiros carregados; amoras ainda verdes, assim como as mangas, quando os andarilhos passaram pelo local.

Mas a flora pode ser traiçoeira. Parados diante de algumas pitangueiras, os três puseram-se a catar as frutinhas, que podem ser deliciosas, mas dão muito trabalho, já que nem um punhado satisfaz a gula.

Os mais altos puxavam os galhos para que o mais baixo pudesse também aproveitar a oferta da natureza, quando um galho escapuliu e deu-se a chicotada. O espinho passou rente ao olho esquerdo e, soubemos no dia seguinte, arranhou a retina, obrigando o uso de um tapa-olho.

No dia seguinte, o amigo passou a desfilar de máscara contra o vírus e tapa-olho. Quase uma múmia. Mas feliz. Sabia que podia ser pior, se estivessem jogando pedra para derrubar manga.

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