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Trajetória de talento e persistência

Claudia Raia celebra os 35 anos de carreira com biografia, em que relembra momentos marcantes e inusitados das vidas pessoal e profissional

Adriana Izel
postado em 26/11/2020 18:19
 (crédito: Vinícius Mochizuki/Divulgação)
(crédito: Vinícius Mochizuki/Divulgação)

Atriz, bailarina, cantora e produtora. Claudia Raia, 53 anos, é o tipo de pessoa que sempre tem uma história para contar. Desde a infância vivenciou situações inusitadas, engraçadas e de muita personalidade. Também foi muito cedo que deu os primeiros passos na carreira artística. Aos 13 anos estava em Nova York, estudando balé. Aos 15 esteve no musical A Chrorus Line no Brasil dando vida a uma personagem 18 anos mais velha. Apenas dois anos depois, foi convidada por Jô Soares para participar da esquete Vamos malhar no Viva o Gordo. A partir daí, não parou. Estreou num papel pequeno em Roque Santeiro até acumular papéis de destaque (mesmo quando coadjuvante) e protagonistas. O mais recente trabalho foi em Verão 90. Está escalada para a próxima novela das 18h da Globo, Além da ilusão, de Alessandra Poggi e direção de Pedro Vasconcellos.

Boa parte dessa trajetória, que completou 35 anos, está revisitada em Sempre Raia um novo dia, um livro de memórias escrito por Claudia Raia em parceria com Rosana Hermann. Na obra, desde situações íntimas, como os relacionamentos com Jô Soares, Alexandre Frota, Raul Gazolla, Edson Celulari e Jarbas Homem de Mello, atual marido, até momentos mais polêmicos, como o apoio que deu a Fernando Collor de Mello durante a campanha política no fim dos anos 1980 e início dos 1990, situação que ela diz se arrepender. Ainda há espaço para a trajetória de sucesso na telinha e nos palcos, mostrando que a insistência e a persistência de uma boa capricorniana foram fundamentais numa carreira vitoriosa.

Ao Correio, Claudia Raia fala sobre o livro de memórias, aponta os momentos mais marcantes da carreira e anuncia quais são seus sonhos. Confira!

Entrevista // Claudia Raia

Qual foi o impulso para transformar a história da sua vida em uma biografia em livro?
Foram os convites, como eles foram feitos. Sempre acho que isso de se celebrar pode parecer uma coisa egomaníaca (risos). Nenhuma das ideias foi minha. A fotobiografia, Raia, surgiu de uma ideia do Gringo Cardia, curador do livro, quando ele trabalhou comigo no espetáculo Raia 30. Ele fazia cenário e figurino do espetáculo e junto com Marcus Montenegro, um dos meus empresários, pensaram que, desse espetáculo, poderia sair um livro dos meus 30 anos de carreira e como uma homenagem aos profissionais de styling e beleza que trabalham comigo. Mas, a história foi crescendo, crescendo, e estamos lançando agora, como uma celebração aos 35 anos de carreira. Já o livro de memórias foi uma ideia do Montenegro. Eu relutei, amor. Me acho muito nova para escrever uma biografia. Mas ele me convenceu, falou de ser um livro de memórias. E aí eu embarquei na ideia. Foi um processo divertidíssimo ao lado da Rosana Hermann, que o escreveu comigo. O resultado foi o livro e uma amiga maravilhosa.

No livro, você traz relatos bastante pessoais e também detalhes profissionais. Como foi olhar para trás e revisitar tudo isso?
Foi um processo muito divertido porque Rosana é hilária. Dividir este momento com ela foi muito especial. Olhar para trás e pensar por onde passei, os caminhos que trilhei me deixam muito em paz, orgulhosa de tudo que vivi. Tenho um orgulho imenso da minha trajetória. Se estou onde estou, hoje, é porque passei por tudo isso. Foi muito especial esse mergulho em mim mesma, tanto para o livro de memórias quanto para a fotobiografia.

Você começou muito nova na carreira. Quais foram as maiores dificuldades e o que a inocência da idade pode ter ajudado?
De cara, eu já quis uma personagem que era muito mais velha do que eu, a Sheila Bryant, de A Chorus Line. Eu lutei por ela e consegui o papel. Acho que isso mostra que eu tinha muita disposição para correr atrás. Não perdi isso com o passar do tempo. Foi desse jeito que consegui interpretar o Tonhão, da TV Pirata, a Engraçadinha de Engraçadinha, seus amores e seus pecados. Eu ia, insistia. Acho que vencia as pessoas pelo cansaço (risos). Não era bem uma dificuldade, mas um desafio para mim: mostrar que eu poderia ser mais que a gostosona, que tinha muito mais em mim do que o símbolo sexual. Eu usei isso a meu favor e mostrei que era boa. Nunca me acomodei.

Você cita, no livro, alguns momentos de virada na carreira, na profissão. Para você, quais são os marcos?
Todos os personagens são importantes, é muito difícil fazer essa seleção. Mas eu diria esses. Tancinha, de Sassaricando: foi com ela que o Brasil me conheceu. É uma personagem tão marcante que até hoje as pessoas falam dela, imitam o jeito de ela falar. Tonhão, do TV Pirata: mostrou que eu poderia fazer outros personagens além da mulher bonita. Eu era um símbolo sexual na época e queria porque queria interpretá-la. Insisti com o Guel Arraes e acho que o venci pelo cansaço (risos). Foi um grande sucesso. Engraçadinha, de Engraçadinha, seus amores e seus pecados: pude mostrar um lado dramático, trouxe um outro registro. O Carlos Manga não me queria no papel, mas recebi uma ajudinha de Denise Saraceni, que me infiltrou no Projac para que eu fizesse o teste escondida. Ângela Vidal, de Torre de Babel: ela era uma psicopata completamente maluca, uma mulher fria. E na vida real as pessoas tinham medo de mim. Um dia, fui levar Enzo, pequeno, na aula de natação e todas as mães saíram da piscina (risos). Todo mundo estava com medo de mim. Donatela, de A favorita: gente, já pensou o que é fazer uma personagem que tem que ser mocinha e vilã ao mesmo tempo? Uma loucura. Um grande personagem, escrito brilhantemente pelo João Emanuel Carneiro. Um trabalho que trouxe mais uma filhota do coração, a Mariana Ximenes.

No livro, você fala da brincadeira no Projac, de que você e Tony Ramos são os prefeitos, e também reserva um espaço ao final da obra só para celebrar os amigos. O que acha que te faz ser uma pessoa de tantos amigos e de fácil relação?
Sou uma pessoa que quero sempre ajudar, que pensa muito no bem-estar no outro, gosta de trocar com as pessoas, gosta de gente, sou comunicativa. Nunca fui uma pessoa de fazer inimigos. E, que bom! Sempre foquei mais em cultivar relações positivas. Todos nós precisamos nos ajudar. O trabalho é feito por todos. Nunca levei a sério também essa coisa da diva, brinco com isso na hora de me montar para um programa, para um evento. Não levo isso a sério. Quando você tem muita gente ao lado falando que você é incrível, que está sempre certa, é maravilhosa sempre, é preciso ter cuidados redobrados para isso não subir à cabeça. Não dá para acreditar nessas coisas. Sempre penso em mim como uma operária da arte, uma peça da engrenagem.

Quais são seus projetos futuros?
O que já está certo é a novela das seis que vou gravar no ano que vem, a princípio. Vai ser uma história de época, vou ser a mãe da Larissa Manoela. Acho que a família vai aumentar porque já vou ganhar mais uma filhota maravilhosa.

Ainda tem desejos que gostaria de realizar profissionalmente?
Muitos. Um deles é produzir cinema. Tenho essa vontade, já estava com alguns projetos. Mas, com a pandemia, tudo meio que ficou paralisado. Vamos ver quando as coisas se acalmarem, como fica isso.

Relação com Brasília


Em alguns momentos do livro, Claudia Raia lembra de situações vividas no quadradinho. A primeira delas num evento realizado no Estádio Mané Garrincha três meses após o fim de Sassaricando, em 1988, quando se deu conta, de fato, do sucesso. “Quando entrei no palco, 80 mil pessoas me ovacionaram, ou melhor, ovacionaram a Tancinha, de Sassaricando”, diz, em trecho da obra. Claudia também menciona vaia recebida durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro na divulgação do longa-metragem Matou a família e foi ao cinema. “Foi horrível. [...] Tinha feito campanha para o Collor, que tinha extinguido a Embrafilme. Não deu outra: fui vaiada por 3 mil pessoas. Não tinha o que fazer. Pela primeira vez, senti minhas pernas tremerem. Foi bem difícil, mas isso nem foi o pior que me aconteceu. Nada foi pior do que a mentira, a calúnia, que aquele médico irresponsável inventou sobre mim”, citando a informação que foi veiculada de que ela tinha Aids e seria amante de Collor. Apesar disso, ela afirma ao Correio: “Foram momentos muito importantes para minha carreira, emocionantes. Sempre sou muito bem recebida pelo público de Brasília”.

Sempre Raia um novo dia
De Claudia Raia e Rosana Hermann. Editora Harper
Collins, 256 páginas.
Preço: R$ 39,90.

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