Crônica da Revista

A arte que ensina a acolher

Maria Paula
postado em 26/11/2020 18:47
 (crédito: Editoria de arte)
(crédito: Editoria de arte)

Nestes tempos de reclusão, a arte tem sido forte aliada e companheira. Por meio dela, podemos nos deixar levar por imagens, sons, cores e sensações, encontrar novos caminhos, revisitar memórias e experiências.

Rir, chorar, silenciar.

Histórias de pessoas de todos os tipos têm o poder de ampliar nossos horizontes. Maria Luiza é uma dessas. Sua história como a primeira mulher trans das Forças Armadas brasileiras é comovente. Seus conflitos, desilusões e conquistas ao longo do processo por afirmar sua identidade são matéria-prima para o filme Maria Luiza, que estreou na semana passada em Brasília.

Dirigido por Marcelo Díaz, com produção da Diazul de Cinema, o longa-metragem participou de diversos festivais nacionais e internacionais, com prêmios, e, agora, chega ao grande público nos cinemas e em seguida nas plataformas. Maria Luiza atuou orgulhosamente como cabo da Força Aérea Brasileira durante 22 anos, com medalhas, diplomas, elogios e permanente reconhecimento. Entretanto, ao assumir sua condição de transgênero foi aposentada como “inapta para o serviço militar”.

O diretor Marcelo Díaz conheceu a situação de Maria Luiza, inicialmente, por meio de uma reportagem aqui mesmo no Correio Braziliense. Há quase 10 anos, Maria Luiza o recebeu em seu apartamento, no Cruzeiro, de forma muito afetuosa.

Ao entrar no apartamento de Maria Luiza, com paredes cobertas por diplomas, medalhas, fotos de flores e pinturas, iniciava-se ali a experiência que daria origem ao filme. Após uma longa tarde de conversa, na qual Maria Luiza detalhou parte de sua jornada, Marcelo sentiu-se extremamente impactado pela guerreira que se encontrava à sua frente. Ela contou de sua infância e adolescência em Ceres, interior de Goiás, de seu sonho em trabalhar com aviação na Força Aérea Brasileira (FAB), de sua luta por continuar na Aeronáutica como mulher trans, e sua experiência durante o processo de afirmar-se como mulher.

Pediu ajuda ao Ministério Público e deu início a um longo processo pelo reconhecimento de sua identidade como mulher trans. Em 2005, fez a cirurgia de transgenitalização e, em 2007, corrigiu gênero e nome nos documentos civis. Apenas um ano depois, foi emitida sua nova identidade militar como cabo Maria Luiza, fato sem precedentes no país.

As filmagens duraram dois anos e mostram a força de uma pessoa de uma simplicidade e profundidade inspiradoras, que estimula a vontade de estar por perto, independentemente de seu gênero. A produção cinematográfica encontrou diversas dificuldades para levantar recursos e produzir o filme. Sua exibição, neste momento nos cinemas, representa uma bela conquista.

Um grande sonho dela era vestir a farda feminina, o que nunca aconteceu. O preconceito e a discriminação sofridos por ela foram reconhecidos pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) que, em recente decisão do ministro Herman Benjamin, assegurou direito à aposentadoria como suboficial, a mais alta patente a que poderia chegar caso tivesse continuado na ativa. O debate gerado pelo filme, com suas exibições em diversos festivais nacionais e internacionais, contribuiu diretamente para a visibilidade do caso, tendo sido, inclusive, mencionado na decisão do STJ. É uma vitória, mas não definitiva, pois ainda cabe um último recurso à Corte.

Enquanto isso, o filme Maria Luiza entrou em cartaz nos cinemas nesta semana e, em 3 de dezembro, chegará às plataformas sob demanda.

Que mais Marias Luizas vitoriosas inspirem nossas jornadas em busca de um planeta mais amoroso e fraterno. Que nessa caminhada, saibamos acolher e nos permitamos ser acolhidos. Que compreendamos que a mais colorida diversidade é o que faz nossa vida mais plena.

Meu parceiro na série jovens pensadores desta semana é o cineasta Marcelo Díaz, autor do filme Maria Luiza.

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