Beleza

Influencers "fora do padrão" inspiram outras mulheres a se amarem

Blogueiras que fogem do padrão estético imposto pela sociedade ajudam seguidoras a se aceitarem, lindas do jeito que são

Bruna Yamaguti*
postado em 11/04/2021 08:00
Kamille Ramos Rocha sofreu bullying na infância e hoje conta com mais de um milhão de inscritos em seu canal no YouTube -  (crédito:  Arquivo Pessoal)
Kamille Ramos Rocha sofreu bullying na infância e hoje conta com mais de um milhão de inscritos em seu canal no YouTube - (crédito: Arquivo Pessoal)

Numa era em que rostos impecáveis e corpos inatingíveis são cultuados, a autoaceitação torna-se um desafio. Historicamente, padrões foram criados e recriados, mas é normal ainda se deparar com um cenário que favorece e exalta a estética branca, magra e “perfeita”. O Instagram é a plataforma que mais propaga esse clichê que estamos cansados de reproduzir. Motivadas a inspirar outras mulheres a se aceitarem como são, algumas blogueiras da vida real se destacam por irem na contramão desses padrões, e mostram que moda e beleza podem, e devem, ser singularmente plurais.

“Fico muito feliz de abraçar essas pessoas que querem se desapegar de mentiras. Isso me marca muito, porque eu já fui essa menina que tenta se esconder da própria realidade para agradar as pessoas. Hoje eu me coloco acima, eu me dou prioridade e tento agradar a mim mesma”, conta a youtuber Kamille Ramos Rocha, 18 anos. “Fico emocionada demais quando olho para trás e penso que eu só precisava de uma pessoa como eu para me contar algumas coisas, ouvir e dar alguns conselhos. Muitas vezes, as meninas não são acolhidas e a gente quase não vê representatividade na mídia.”

Após conviver com o bullying na infância e na adolescência, Kamille decidiu que se amar era o melhor caminho para combater as inseguranças e os comentários maldosos que a atormentavam. Hoje, a jovem exala autoconfiança nas redes sociais e conta com mais de um milhão de seguidores em seu canal do YouTube. No Instagram (@kamilleramos), ela compartilha seu dia a dia, dá dicas de maquiagem e interage com os seguidores, sempre com muito bom humor.

“Às vezes, ainda recebo algumas críticas falando do meu cabelo, da minha sobrancelha, da minha cor, do meu nariz, do meu corpo… No começo, isso me machucava muito, e até hoje, afinal, não sou de ferro, né?”, desabafa. “Palavras podem ferir e são difíceis de cicatrizar, mas eu comecei a fazer diferente. A gente se sabota escutando quem não deveria ser ouvido, então comecei a ouvir só o que me agrega, o que não me fere e o que me abraça.”

Fonte de inspiração para milhares de outras meninas, Kamille se orgulha de poder contar a sua história e de ouvir, também, relatos de pessoas que se tornaram livres ao se desprenderem de comparações. “A vida fica muito mais gostosa de viver quando você se dá prioridade. Parece até um portal que você entra e percebe nas pequenas atitudes, como quando elogia uma pessoa sem se comparar ou quando percebe que não precisa da aprovação de ninguém. A partir daí, é só felicidade e liberdade”, completa a jovem.

Body positive

Por muito tempo, Nanna Fernandes "não se sentia encaixada em lugar nenhum": autoaceitação e ajuda a outras meninas
Por muito tempo, Nanna Fernandes "não se sentia encaixada em lugar nenhum": autoaceitação e ajuda a outras meninas (foto: Arquivo Pessoal)

Aceitar e amar o próprio corpo pode ser uma tarefa difícil quando o que vemos representadas na televisão, nas revistas e na web são, predominantemente, modelos magras. Quem não possui esse tipo de modelagem pode se sentir acanhado de mostrar o próprio corpo, por achar que não é o “correto”. Algumas influenciadoras, no entanto, vieram para quebrar essa ideia de que beleza e saúde são sinônimos de emagrecimento. A brasiliense Nanna Fernandes, de 27 anos, é uma delas.

“É uma honra saber que mulheres se inspiram em mim e se sentem representadas. Sei o quanto é importante e o quanto isso muda nosso olhar sobre nós mesmas”, comenta. “Quero que cada vez mais elas consigam sentir a liberdade de ser quem são, e estarei firme e forte mostrando que todas nós podemos”, afirma a blogueira, que alcançou mais de 34 mil seguidores no Instagram (@nannoca) nesta quarentena.

A digital influencer conta que, desde criança, tem um corpo considerado fora do padrão e que isso sempre afetou negativamente a sua autoestima. “Na adolescência, foi a mesma coisa, só que pior, pois, nessa época, a gente é bombardeada de informações sobre o padrão de beleza e o quanto estamos fora daquilo. Não me sentia encaixada em lugar nenhum”, lembra Nanna. “Foi a partir do conhecimento que minha mente se libertou. Obviamente, não foi da noite pro dia, são passos de formiga que fui dando em direção a uma autoaceitação saudável, que respeita os altos e baixos, porque eles sempre vão existir”, pontua.

Ao investir no seu perfil e na criação de conteúdo, a jovem pôde alcançar e acolher outras mulheres que também passavam pelos mesmos problemas e inseguranças que ela. Nanna explica ainda que tem um projeto de criar uma marca de roupa que abrace todos os tipos de corpos e curvas. “Agora, percebo que meu corpo é o que ele é, que eu posso viver e experimentar coisas, mesmo não estando no padrão corporal e de beleza imposto. Que eu tenho um lugar, um espaço, e que mais mulheres estão comigo nessa caminhada.”

Mulan de hoje

Camila Sawamura cresceu sem referências estéticas asiáticas na mídia: "Hoje, entendo melhor que temos falta de representatividade amarela"
Camila Sawamura cresceu sem referências estéticas asiáticas na mídia: "Hoje, entendo melhor que temos falta de representatividade amarela" (foto: Arquivo Pessoal)

A produtora de conteúdo digital Camila Sawamura, 28 anos, explica que as situações de preconceito e estereótipos que viveu por conta de sua ascendência asiática fizeram com que ela encontrasse na maquiagem uma forma de expressão, construção de identidade e amor-próprio. “Gosto de beleza desde criança. Lembro de colecionar maquiagens e folhear revistas e catálogos, mas como muitas brasileiras-asiáticas, cresci sem referências na mídia. Também escutava que maquiar olhos tidos como orientais era difícil, e isso me frustrava. Hoje, entendo melhor que temos falta de representatividade amarela”, explica Camila.

Para ela, essa defasagem acaba aumentando os estereótipos sobre quem tem ascendência leste-asiática e fortalecendo padrões estéticos brancos. Nesse contexto, os traços da etnia são considerados como exóticos ou, até mesmo, errados.

Em seu perfil no Instagram (@camilasawamura), a moça procura, além de gerar conteúdo de moda e beleza, levantar debates raciais. Com a pandemia da covid-19, por exemplo, pessoas com ascendência asiática foram alvo de diversos ataques preconceituosos, algo que Camila vivenciou na pele. “No começo do ano passado, me mandaram mensagens extremamente xenofóbicas e violentas. Nesses casos, eu tento trazer isso à tona de uma forma leve e politizada para educar o próximo e fazê-lo sair da sua bolha social”, pontua.

“Espero continuar recebendo oportunidades que expliquem não apenas minha herança nipo-brasileira, mas meu trabalho e o que represento como criativa”, completa a influenciadora, que afirma receber diversos depoimentos de mulheres e meninas asiáticas-brasileiras que se sentem representadas por ela. “O que mais me marcou foi o de uma menina que disse que eu era a Mulan dela”.

Do preconceito à liberdade

Larissa Sampaio passou 13 anos escondendo o vitiligo: feliz no papel de inspiradora de outras pessoas
Larissa Sampaio passou 13 anos escondendo o vitiligo: feliz no papel de inspiradora de outras pessoas (foto: Estéfane Abrantes/Divulgação)

A brasiliense Larissa Sampaio Lima, 19, escondeu o vitiligo por 13 anos antes de se tornar uma modelo nacionalmente conhecida. A jovem, que já participou de programas de tevê, não imaginava que chegaria tão longe, por acreditar que a doença de pele a limitaria de alguma forma.

Ainda que sua autoestima não fosse alta, por causa das manchinhas, Larissa aceitou o convite para posar em um ensaio fotográfico e o resultado fez com que ela se enxergasse de outra forma. “Quando recebi as fotos, fiquei completamente apaixonada, nunca tinha visto essa beleza que eu consegui ver em mim nesse dia. A partir daí, nasceu a Larissa que queria ajudar outras pessoas com aceitação”, lembra.

No Instagram (@sampaiolariissa), a modelo compartilha fotos mostrando o corpo e revela que, após sofrer preconceito, até mesmo dentro da própria família, hoje se orgulha de sua trajetória ao perceber que pode auxiliar outras pessoas com a mesma condição no processo de autoamor. “Eu recebo textos dos meus seguidores me motivando e dizendo que se inspiram em mim, que começaram a se aceitar, e é isso que me fortalece a cada dia”, explica.

Larissa conta ainda que, durante muito tempo, ela se desesperava para buscar algo que pudesse curar o vitiligo. Hoje, alegra-se ao dizer que o que a curou, na verdade, foi o amor-próprio: “Dizem que a gente é fora do padrão porque, infelizmente, a sociedade impõe um padrão de beleza para as pessoas seguirem, mas isso ainda vai acabar. Eu gosto muito de mostrar quem eu sou de verdade e gosto muito que as pessoas mostrem quem elas são de verdade.”

Sob constante julgamento da sociedade

A psicóloga Jéssica Helena Xavier, especialista em autoestima, explica que a avaliação subjetiva do indivíduo consigo mesmo está muito ligada, também, à relação dele com o mundo. “Nós, mulheres, sempre estivemos em um lugar na sociedade de muito julgamento, de grande pressão cultural, e isso gera grande sofrimento. A imposição desses padrões pode desencadear depressão, abuso de bebidas alcoólicas, ansiedade ou distúrbios de imagem. O fator ambiental exerce bastante influência no desenvolvimento desses transtornos, principalmente na fase da adolescência.”

Segundo Jéssica, a comparação é o maior inimigo da autoestima e pode trazer consequências em todos os aspectos da vida. No início, ela pode estar disfarçada de motivação, mas, com o tempo, acaba gerando insegurança e autodepreciação, que seria a pessoa nunca reconhecer suas qualidades ou valorizar suas conquistas. “Comparar-se com o outro é ser carrasco consigo mesmo. Além de tornar a nossa visão distorcida de quem somos, gera uma vergonha sobre quem você é ou gostaria de ser. Quando você se compara, alimenta o estímulo de inferioridade”, pontua.

Para a psicóloga, essas blogueiras “fora do padrão”, que ela chama de realistas, passam a mostrar como é importante ser você mesmo e aceitar suas particularidades, pois a autoestima vai além da aparência física. “É muito importante mostrar que, apesar de você ser diferente, é isso que importa. Nós somos seres totalmente diferentes um do outro, com histórias diferentes, dificuldades diferentes, e é isso que nos torna únicos”, acredita.

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

  • Por muito tempo, Nanna Fernandes
    Por muito tempo, Nanna Fernandes "não se sentia encaixada em lugar nenhum": autoaceitação e ajuda a outras meninas Foto: Arquivo Pessoal
  • Camila Sawamura cresceu sem referências estéticas asiáticas na mídia:
    Camila Sawamura cresceu sem referências estéticas asiáticas na mídia: "Hoje, entendo melhor que temos falta de representatividade amarela" Foto: Arquivo Pessoal
  • Larissa Sampaio passou 13 anos escondendo o vitiligo: feliz no papel de inspiradora de outras pessoas
    Larissa Sampaio passou 13 anos escondendo o vitiligo: feliz no papel de inspiradora de outras pessoas Foto: Estéfane Abrantes/Divulgação
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