Especial

Dor crônica: um mal que afeta cerca de 60 milhões de brasileiros

Dados da OMS apontam que 30% da população mundial sofre com alguma dor crônica, que deixa de ser sintoma para ser a doença em si. Para especialistas, ela nunca pode ser negligenciada e, com tratamento, é possível reduzi-la

Renata Rusky
postado em 11/04/2021 08:00
Aos 24 anos, Maria Júlia Amorim vive constantemente com dores, que a afastaram das pessoas: poucos amigos entendem a condição dela -  (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A.Press   )
Aos 24 anos, Maria Júlia Amorim vive constantemente com dores, que a afastaram das pessoas: poucos amigos entendem a condição dela - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A.Press )

"É da idade”; “acostuma”; “é da sua cabeça”; “é psicológico”. Frases como essas são comumente ouvidas por pessoas que sofrem e reclamam de dores crônicas, sejam elas lombares, musculares, seja cefaleia. Além de nem sempre aparecem em exames, as dores deixam de ser sintomas que indicam alguma doença para serem o problema em si.

No caso das dores de cabeça, por exemplo, o fisioterapeuta Guido Fregapani, membro da Sociedade Brasileira de Cefaleia, explica que apenas 1% delas é sintoma de algo mais grave. O restante é, de fato, só uma dor, o que não a torna mais fraca.

De acordo com o médico Carlos Gropen, presidente da Sociedade para Estudo da Dor do Distrito Federal (SED/DF) e coordenador do Ambulatório de Dor do Hospital Universitário de Brasília (HUB), a dor como sintoma é um conceito antigo. “Hoje, a gente sabe que a dor também é um diagnóstico, é uma alteração no sistema de dor: ela é viva, independentemente de ter outra doença”, afirma.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), 30% da população mundial sofre com alguma dor crônica, o que pesa no bolso tanto dos pacientes quanto da sociedade como um todo. Além do aumento da quantidade de medicamentos ingeridos, são pessoas que usam mais serviços de saúde e que acabam ficando precocemente incapacitadas de trabalhar.

Gropen especifica que, no mundo, gasta-se mais com dores crônicas do que com câncer e doenças cardiovasculares. E alerta que dor nenhuma deve ser normalizada ou negligenciada. “Muita gente já ficou sem tratamento por causa de um conceito anacrônico de que dor é apanágio da idade. A gente nunca pode prometer cura, mas, com tratamento, pacientes melhoram muito e podem ter uma vida normal: depende da rapidez de procurar o tratamento e da adesão a ele”, explica.

A dor crônica, por definição, é aquela que persiste ou recorre por mais de três meses. O ortopedista Lúcio Gusmão, especialista em tratamento da dor, explica, no entanto, que uma dor aguda, ou seja, resultante de um trauma ou de um evento, que ele chama de nociceptivo, pode tornar-se crônica se negligenciada. “Uma dor crônica pode já ter sido aguda e, maltratada, ser cronifica”, explica.

Um problema que isola

A psicóloga Maria Júlia Amorim, 24 anos, conta que tem poucos amigos. A vida com dores ensinou que o melhor é manter só os bons, que entendem a condição frágil dela. Infelizmente, foram situações de desrespeito que a fizeram aprender isso. “Eu não conseguia ir a algum evento e a pessoa já achava que eu não queria, que era frescura”, relembra.

Com risco aumentado de hemorragia, acidente vascular cerebral, trombofilia e luxações, ela vive uma rotina cuidadosa. Não é qualquer carga horária de trabalho que pode encarar, ficar o dia inteiro em pé em uma festa está fora de questão. “Nunca consegui acompanhar muito os programas de pessoas da minha idade. É sempre uma questão de ir dosando. Eu não posso fazer um esforço que para outra pessoa é trivial. Ela vai se recuperar rápido, eu vou demorar”, explica.

Ela tem a Síndrome de Ehlers-Danlos, doença rara que afeta o tecido conjuntivo, em especial pele, articulações e paredes dos vasos sanguíneos. Embora na maioria das pessoas o diagnóstico seja tardio, confundido com síndrome fibromiálgica, dores difusas ou até psicossomáticas, o dela veio ainda na infância, por ter nascido com hipotonia muscular.

Teria sido uma sorte, se a condição fosse mais conhecida. Mas não havia muita orientação ou um protocolo de tratamento. Mesmo atualmente, ela passou por situações em que foi descredibilizada e até ofendida. “Em 2019, tive uma luxação e, como estou acostumada a reduzi-la (colocar o osso no lugar), fiz em casa, mas a dor não passou. No pronto-socorro, o médico não acreditou no que eu disse e me acusou de ser viciada em opioides.”

Maria Júlia ressalta que tem opioides em casa que chegam a perder a validade, pois evita ao máximo tomá-los. Depois disso, passou a andar com uma carta do geneticista em que explica a sua condição, para que a palavra dela não fosse mais colocada em dúvida. “Encontrei também médicos muito bons, mas a aceitação de plano de saúde é muito difícil, então, complica bastante”, conta.

Para se fortalecer, precisa de atividade física, mas até isso é perigoso para ela. “Eu já me machuquei muito tentando ficar mais forte em academia.” Atualmente, faz ioga remotamente com uma professora que tem a mesma síndrome e adaptou muitas posições. A alimentação dela é restrita e específica para não piorar os processos inflamatórios pelos quais passa. Terapia é uma constante na vida de Maria Júlia. E, dessa forma, ela modula a própria dor, que diariamente está entre o nível quatro e cinco, de um máximo de 10, ou seja, moderada.

O sistema da dor

O médico Carlos Gropen explica que as dores crônicas são uma doença no controle do sistema de dor. Ela dói, mesmo sem um estímulo, e há dificuldade na modulação desse desconforto. “Se ficarmos apertando durante 20 minutos uma campainha antiga, ela estraga e fica tocando para sempre. É como o sistema da dor. Em geral, o organismo veria que aquela dor não iria agredir e pararia, mas um paciente que tem dor crônica vai sentir aquela dor e ela ficará mais forte”, compara.

O especialista exemplifica que, se uma pessoa pisar em um prego, aquele “estímulo nociceptivo” vai passar pelo nervo, vai para a medula, para o cérebro, e sente-se a dor. Nesse percurso, ele explica que há vários mecanismos para inibi-la, modulá-la. “Se a dor é importante do ponto de vista evolutivo, você sente”, afirma. A psicóloga Virgínia Turra explica que foram os pesquisadores Melzack e Wall que identificaram que, quando o estímulo chega na coluna pela enervação, há fatores que ajudam o estímulo a subir e outros que a atrapalham o estímulo a subir. É a modulação da dor.

“Entre o estímulo nociceptivo, que provoca uma reação noxia, ou seja, estímulo de dor, e a dor, acontece muita coisa, é muito mais complexo. Uma agulha dói, mas e se for a agulha de vacina que você deseja? Até o século 17, a gente tinha uma concepção de dor linear: de que, se pega fogo no pé, um fio levava a dor ao cérebro. Hoje, a gente sabe que não é linear, é muito mais complexo e muitas coisas modulam isso”, explica. Virgínia salienta, no entanto, que fatores emocionais podem modular a dor, mas não causarem a dor. “A dor não é coisa da cabeça de ninguém, ela existe”, afirma.

Isso faz com que as dores sejam sempre subjetivas e nem sempre proporcionais aos estímulos. “Pode-se ter uma dor pequena em uma ferida grande, e uma dor grande em uma ferida pequena. Um bife da cutícula, um corte de papel dão uma dor forte. E pessoas podem ir ao médico sem dor e com uma lesão sólida de câncer enorme”, exemplifica a psicóloga. Ela conclui, portanto, que não se pode tratar a dor de uma maneira só. É preciso ficar atento e cuidar desses vários fatores. Por isso, o tratamento da dor é multiprofissional. “Tem como manejar a dor, tem como melhorar a qualidade de vida, mas precisa de esforço conjunto e continuado do paciente, dos familiares, da comunidade, dos colegas de trabalho e dos profissionais de saúde juntos”, afirma.

Além disso, por muitas vezes, trata-se de questões sistêmicas, que englobam o corpo todo. O médico dermatologista Erasmo Tokarski explica que é importante se ter uma visão global do problema. “Com as especialidades, muitas coisas ficaram segmentadas, as partes do corpo foram fragmentadas na medicina, mas o homem é um ser complexo e, muitas vezes, o problema está em outro lugar. A psoríase, por exemplo, é uma doença dermatológica, que pode atingir o corpo todo, é uma doença autoimune e não adianta pomada”, explica.

A covid-19 e a dor

Depois de curados da covid-19, Andrea e Patrick passaram a sentir muitas dores pelo corpo: dias melhores e dias piores
Depois de curados da covid-19, Andrea e Patrick passaram a sentir muitas dores pelo corpo: dias melhores e dias piores (foto: Arquivo pessoal)

Desde que tiveram covid-19, há cerca de três meses, o cabeleireiro Patrick Oliveira, 24, e a mãe dele, Andrea Marinho, confeiteira, 48, ainda sofrem alguns efeitos da doença. É a síndrome pós-covid-19, que pode demorar até 20 meses, em média, para melhorar. “A gente não tem informação suficiente, mas, na maioria das vezes, precisa de tratamento”, explica o médico Carlos Gropen, do Ambulatório da da Dor do HUB.

Nem Patrick nem Andrea precisaram ser hospitalizados. Passaram o período de isolamento em casa com sintomas gripais, sem paladar, com dores de cabeça e sentindo um “peso no corpo”. “O início, para mim, foi mais difícil. Já para a minha mãe, foram os últimos dias”, ele relembra.

Desde então, Patrick desperta quase diariamente com tontura, tem dores de cabeça ao longo do dia e, em algumas manhãs, já se levanta da cama cansado. “Tem dia que acordo superbem, tem dia que acordo muito cansado, com dores nas articulações, dores musculares. É bem estranho”, relata.

O cabeleireiro evita tomar remédios para melhorar os sintomas e chegou a voltar ao posto de saúde para avaliação. Os profissionais, então, pediram que ele repetisse o tratamento com antibiótico e corticoide, mas, por ter se sentido mal com o tratamento na primeira vez, preferiu evitar neste primeiro momento. Já a mãe dele decidiu repetir o protocolo, no entanto, não viu resultado.

Sofrimento real

Depois do sexto dia de infecção, Andrea sentiu muita fraqueza e dores no corpo, em especial na coluna, onde tem artrose. Ela perdeu o apetite, a gastrite atacou. Depois dos 14 dias de quarentena, teve uma melhora, mas, cerca de dois meses depois, as dores se potencializaram. “É uma coisa que vai e vem. Evito anti-inflamatório, tomo analgésico, dipirona. No fim de março, tive muito dor nas costas, nas articulações, na cabeça”, relembra.

Para ela, uma das dificuldades é ser desacreditada e ter que convencer as pessoas de que o que sente é real. “Teve gente que falou que eu estava ficando doida, traumatizada. É muito constrangedor. Acham que a gente está exagerando, mas só quem sente sabe.” A confeiteira admite que, de fato, tem medo da covid-19, que tmabém fica uma sequela emocional da doença, mas garante que tem a física.

Já descrita por pesquisadores, a síndrome pós-covid-19 é uma complicação considerada uma condição inflamatória difusa e multissistêmica. Ela está associada a problemas no sistema nervoso central e musculoesquelético. Alguns dos sintomas comuns são fadiga intensa, dor crônica, fraqueza muscular, dificuldade para respirar e deficit cognitivo, como alterações de memória e fadiga mental. Segundo Gropen, até 86% dos hospitalizados vão apresentar a síndrome. Entre os pacientes assintomáticos ou com sintomas menos graves, a porcentagem cai para 36%.

Formas de modular a dor crônica

- Evitar o excesso de peso, pois ele sobrecarrega as articulações e as células de gordura são inflamatórias.
- Dormir e acordar sempre no mesmo horário
- Evitar alimentação gordurosa, inflamatória.
- Fazer uma atividade física que dê prazer e seu corpo aguente;

Fonte: Lúcio Gusmão, ortopedista especializado em tratamento da dor

Um problema invisível

Depois de passar anos sofrendo com dores de cabeça, Odete Machado, finalmente, descobriu o que causava o problema, que tinha se tornado crônico
Depois de passar anos sofrendo com dores de cabeça, Odete Machado, finalmente, descobriu o que causava o problema, que tinha se tornado crônico (foto: Arquivo pessoal)

Como boa parte das dores crônicas, as de cabeça são invisíveis. Não há exames que a indiquem e, na maioria dos casos, não é sintoma de doença alguma. Portanto, o foco de tratamento deve ser os hábitos do paciente. “Uma grande questão da dor de cabeça é que tem vários tipos: cefaleia tensional, do pescoço, enxaqueca (migrania), existem centenas. As mais comuns são invisíveis também aos exames”, corrobora o fisioterapeuta Guido Fregapani, membro da Sociedade Brasileira de Cefaleia.

O diagnóstico é feito por meios de avaliação clínica e, para cada uma delas, há um tratamento específico. Mas ele ressalta que se deve buscar ajuda. “Negligencia-se a dor de cabeça em todos os sentidos. As pessoas acabam não procurando ajuda, abusam de remédio, que é também uma causa importante de dores de cabeça. Ela também é negligenciada pelos familiares, porque quem não sente, não vê. E isso causa sofrimento”, afirma Fregapani.

Um fator que faz com que as pessoas próximas descredibilizem a dor crônica do amigo ou familiar é que a dor aguda, de cólica menstrual, por exemplo, dá sinais visíveis. “A pessoa fica branca, com o olho arregalado. Você olha e vê que ela está passando mal, porque a dor aguda dispara o sistema nervoso parassimpático: acelera o coração, causa sudorese. Tem cara de dor. Já a crônica não gera aparência nenhuma, não tem cara de dor”, explica a psicóloga Virgínia Turra.

De acordo com Bruno Vilela, fisioterapeuta, membro da Sociedade Brasileira de Cefaleia, o foco do tratamento deve ser identificar os gatilhos para cada paciente. “Para alguns, pode ser bebida alcoólica, alguns alimentos. Quando já se está em crise, os medicamentos são importantes”, afirma.

Ele alerta, porém, para o uso indiscriminado de remédios para dores de cabeça, que pode piorar o quadro. “Os medicamentos analgésicos mais comuns para dor de cabeça, se tomados mais de três vezes por semana, já é considerado abuso. E o próprio remédio pode se tornar um gatilho”, explica.

A via-crúcis do diagnóstico

Odete Machado, 39 anos, publicitária, sempre teve dores de cabeça, associadas, especialmente, ao período pré-menstrual. Recomendaram antidepressivo que, após ler a bula, preferiu não tomar, ela fez diversos exames, foi ao oftalmologista, ao neurologista, ao ginecologista. E nada. Passou a conviver com o incômodo.

Mas, no ano passado, as dores ficaram mais fortes. “Eu imaginei que fosse estresse, por conta da pandemia. Perdi meu pai, estava trabalhando de casa, com duas crianças.” Foram cerca de três meses com dores diárias. Ao mesmo tempo, sentia uma tensão na região do trapézio. Decidiu ir a um osteopata, que fez um procedimento para relaxar, mas que desconfiou que o problema poderia ser o intestino dela.

Aproveitando o ensejo, também resolveu ir ao dermatologista, já que estava com queda de cabelo. O especialista também achou que poderia ser o caso de ela não estar absorvendo os nutrientes devidamente e orientou que diminuísse o consumo de alguns alimentos, até que fosse a um nutricionista para uma dieta adequada à situação dela.

“Eu descobri que alguns alimentos me inflamam, sobrecarregam meu fígado, o que acaba liberando toxinas no meu corpo”, explica. As dores de cabeça quase desapareceram e, de vez em quando, Odete chega a comer alguma coisa que sabe que vai fazer mal. Analisa o custo e o benefício. Dessa forma, maneja a enxaqueca para se manter funcional.

  • Depois de curados da covid-19, Andrea e Patrick passaram a sentir muitas dores pelo corpo: dias melhores e dias piores
    Depois de curados da covid-19, Andrea e Patrick passaram a sentir muitas dores pelo corpo: dias melhores e dias piores Foto: Arquivo pessoal
  • Depois de passar anos sofrendo com dores de cabeça, Odete Machado, finalmente, descobriu o que causava o problema, que tinha se tornado crônico
    Depois de passar anos sofrendo com dores de cabeça, Odete Machado, finalmente, descobriu o que causava o problema, que tinha se tornado crônico Foto: Arquivo pessoal
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