Especial

Pais da nova geração assumem protagonismo na criação dos filhos

Homens compartilham suas experiências como pais, revendo conceitos para, assim, adotar uma paternidade mais saudável, eternizando nos filhos o que carregam de herança afetiva

O conceito de paternidade vem mudando ao longo dos séculos, assim como o que é considerado uma masculinidade saudável. E as duas coisas estão intimamente ligadas. Uma vez que homens lutam para vencer o machismo e a masculinidade tóxica estruturais em si mesmos, tornam-se indivíduos e, consequentemente, pais melhores. Demonstrações de carinho, como beijos e abraços, diálogo aberto e a iniciativa de assumir papéis familiares normalmente atribuídos às mulheres e às mães são alguns dos aspectos positivos da chamada “nova paternidade”.

A psicóloga Ana Verônica Pires de Azevedo explica que, há 50 anos, o ser pai se concentrava em três pilares: ser provedor, cobrar os filhos e ser obedecido. Ela explica que as mudanças da sociedade, assim como o crescimento e aumento da emancipação feminina, a luta contra a masculinidade tóxica e as novas configurações familiares, envolvendo também casais homoafetivos, fizeram parte dessa revisão do que é paternar.

Os homens da nova geração vivem o processo de desconstrução de conceitos limitantes e nocivos da paternidade antiga, ao mesmo tempo em que se esforçam para trazer aos filhos as heranças positivas deixadas por seus próprios pais e avôs.

A pandemia e o home office aceleraram alguns desses processos. A convivência entre pais e filhos se intensificou e permitiu que muitos homens vivenciassem situações que desejavam e não conseguiam, enquanto outros passaram a enxergar a importância de estarem presentes para os filhos.

O bancário Eduardo Benon, 34 anos, está no primeiro grupo. Durante muito tempo, ele trabalhava pela manhã e passava a tarde com os filhos, enquanto a esposa fazia o horário oposto. De noite, a família ficava junta. Porém, há três anos, Eduardo passou a trabalhar fora o dia inteiro.

“Fiquei muito ausente do dia a dia deles, chegava à noite e assumia os cuidados com as crianças e a casa, mas era muito pouco comparado ao que tínhamos antes, e toda aquela carga mental acabava ficando com a Débora, minha esposa. A pandemia permitiu que eu me reintegrasse à rotina das crianças e assumisse de novo funções que eu sabia que estava devendo, para eles e para minha esposa”, conta.

Os três filhos do casal, Marina, 12, Théo, 8, e Estela Benon, 6, ainda estão no esquema de aulas on-line e o casal segue em home office, o que permitiu que o pai retomasse à convivência diária com a garotada. “Mesmo trabalhando, fico mais acessível no dia a dia. Eu e a minha esposa voltamos a dividir essa carga mental e a organização da vida das crianças”, comenta.

A presença diária também permite não só os cuidados com a educação e a criação dos filhos, mas também a aproximação, o diálogo e a amizade. Para Eduardo, ser pai é a melhor forma de reviver a infância e imortalizar a vivência que teve com o próprio pai.

O bancário se esforça para fazer com os filhos atividades que compartilhava com o pai. Quando era pequeno, Eduardo costumava ir com os pais para os cartões-postais de Brasília, além de sempre fazer pequenas viagens pelos arredores, como cachoeiras e cidades históricas.

Revivendo momentos

Andar de bicicleta no Parque da Cidade, soltar pipa e jogar bola são algumas das atividades que eles fazem juntos, além de conhecer lugares novos por todo o país — atividade pausada no momento, mas que atravessaram gerações. “Os mesmos lugares e programas ainda existem, então, é muito legal ir com eles ao Parque da Cidade, à Ermida, à Água Mineral e lembrar de tudo de bom que eu vivi nesses lugares, proporcionando lembranças semelhantes a eles. Lá na frente, eles vão pensar nesses momentos com carinho, como eu faço”, deseja.

Entre jogos e brincadeiras, Eduardo confessa que há atividades de sua época que as crianças acham sem graça, mas se esforça para apresentá-las a brincadeiras antigas, ao mesmo tempo em que se insere nos gostos dos filhos, compartilhando o que eles gostam.

O videogame está entre os pontos comuns entre Eduardo e as crianças, apesar de a família não ter um console em casa. De vez em quando, eles alugam o brinquedo e se divertem juntos. A habilidade do pai e da mãe surpreende os filhos. “Eles acham que a gente não sabe jogar. Até alugamos alguns jogos que são da nossa época e que eles curtiram muito. Apesar de terem perdido para mim algumas vezes”, ri.

O bancário acredita que encontrar interesses em comum facilita a relação e reforça o vínculo afetivo, uma das coisas que ele se orgulha de ter com o próprio pai. Comerciante, o patriarca passou a infância de Eduardo sendo o provedor financeiro da família e trabalhando na maior parte do tempo, mas, ainda assim, no tempo livre, esforçava-se para passar tempo com o filho.

Aos 12 anos, Eduardo deixou de ser filho único e o pai passou a ficar mais tempo em casa, enquanto a mãe lecionava. Ver o pai e a mãe dividindo as funções igualitariamente foi fundamental na sua noção de mundo. Homem e mulher podiam assumir qualquer papel na criação dos filhos. “Aprendi muito nesse período, vi uma paternidade referência de amor, carinho, além de intimidade e diálogo aberto.”

Além da parceria democrática entre os pais, enxergar a casa como um ambiente seguro, onde encontrava apoio, independentemente de discordâncias, é algo que ele se esforça para reproduzir como pai. Para Eduardo, o processo de se tornar pai passa, necessariamente, por uma revisão da masculinidade e do papel do homem na sociedade. A principal motivação para ele é contribuir para o tipo de figura masculina que o filho e as filhas terão como referência, que será determinante na forma como agirão e se relacionarão no futuro.

Churrasco em família e possantes antigos

Arquivo Pessoal - Wanderson Martins não abre mão dos churrascos de fim de semana com Igor, Yasmin e Luiza

Pai de três, o comerciante Wanderson Sérgio Cardoso Martins, 38, garante que entre as maiores heranças deixadas pelo pai e que ele deseja repassar para os filhos é a estrutura emocional. Apesar de não morar na mesma cidade que o pai desde pequeno, Wanderson ressalta a importância da presença paterna em sua vida. Passando todas as férias juntos e se falando por telefone pelo menos uma vez por semana, o comerciante guarda as lições aprendidas e enxerga o valor da relação carinhosa.

“Para a criança, ter a referência do pai, seja impondo limites e educando, seja oferecendo amor e carinho, é muito importante na formação. Mesmo longe, sempre senti meu pai presente, e isso é positivo em quem sou hoje”, afirma.

A programação que ele mais curtia com o pai eram os churrascos de fim de semana com a família toda reunida — prática que não abre mão de compartilhar hoje com os três filhos, Igor, 18, Yasmin, 13, e Luiza, 6.

Aficionado por carros antigos, Wanderson transmitiu a paixão para os filhos e até para a esposa. Além dos churrascos, a família inteira se reúne para dar voltas nos possantes de Wanderson. Ele e a mulher dividem a direção, mas Igor, empolgado, espera sua vez de assumir o volante dos tesouros do pai. “Ele está aprendendo a dirigir agora e gosta muito. Mas é uma coisa mais para fim de semana e passeio, não no dia a dia.”

O diálogo também está entre as prioridades para Wanderson. Os filhos têm mais acesso ao mundo e a todo tipo de informação. O comerciante garante que estar presente, saber os interesses dos filhos e o que eles fazem no dia a dia é importante até mesmo em termos de segurança, além de permitir que eles sejam orientados e educados de forma mais eficaz.

O respeito ao próximo também está ali no topo dos ensinamentos que Wanderson aprendeu com o pai e transmite hoje para sua prole. “O legado que quero deixar é este, de respeito. Formar adultos que sabem os seus limites e os dos outros. Pessoas honestas, que cultivam a união familiar e sempre antes de agir com alguém pensem se eles gostariam de ser tratados da mesma forma, se colocando no lugar do próximo”, completa.

A palavra compartilhada

Arquivo Pessoal - Luiz Ricarte adora brincar de "lutinha" com o pequeno Rafael: contação de histórias todas as noites, antes de dormir  

O psicólogo Luiz Ricarte Serra Filho, 38 anos, revive com Rafael Hideki Tazima Ricarte, 3, o hábito de contação de histórias que adquiriu com o pai. E encontra na palavra contada um elo não só com o pai, já falecido, mas também com o avô, que não conheceu pessoalmente, e com o próprio filho.

Na infância, Luiz não tinha muito tempo com o pai, que era médico e trabalhava longas horas. O psicólogo ficava acordado até tarde, esperando que ele chegasse para aproveitava cada momento. Na adolescência, o médico se aposentou e todas as manhãs fazia vitamina para Luiz.

Eles faziam questão de assistir aos jogos de futebol juntos, tanto os do São Paulo, time do Luiz Filho, quanto do Fluminense, clube do coração de Luiz Ricarte Serra. Os dois viajaram juntos para assistir a algumas partidas e até curtiram uma final da Libertadores.

Na memória do filho, ficam marcadas as conversas e histórias que Luiz sempre contava sobre o avô do psicólogo. “Eu não o conheci, mas meu pai falava tanto dele, das histórias quase heroicas do meu avô como delegado de uma cidade no interior do Norte, que eu pude ter uma relação próxima com ele. O amor e a admiração que meu pai tinha por ele eram tão grandes, que passaram para mim.”

E Luiz se esforça para garantir o mesmo privilégio para Rafa. Além de ler para o filho dormir, gosta de conversar e relembrar as histórias que ouviu do pai, aproximando avô e neto. Ele mistura as vivências reais com fantasia e cria todo um universo para garantir memórias afetivas tão poderosas quanto as suas para o herdeiro.

O pai de Luiz morreu um mês depois que Rafael nasceu. Hospitalizado, ele quase partiu anos antes, mas disse que ainda precisava se despedir, e Luiz entende que o pai desejava encontrar Rafael. “Foi muito marcante sentir que ele estava esperando meu filho. Ao mesmo tempo em que me tornei pai, eu perdi o meu. Foi difícil, mas especial saber que ele me preparou para assumir esse papel. É como se eu desse continuidade à existência do meu pai através de mim e do meu filho”, emociona-se.

Luiz coloca o filho para dormir todas as noites e, mesmo nos dias mais corridos, encontra uma forma de estar presente. Ele acredita que ainda estamos muito atrasados no que se refere à divisão igualitária na criação dos filhos. “Muitas pessoas usam a palavra ajudar, mas não é isso. São os homens assumindo a responsabilidade que é deles nessa divisão e diminuindo a sobrecarga, que é muito prejudicial às mães”, ressalta.

O psicólogo acrescenta que a construção do vínculo emocional com os filhos depende dessa presença, não só financeira ou física, mas também emocional e afetiva. Para ele, as mudanças começam de dentro e cada pai deve fazer sua parte para garantir um futuro mais saudável para filhos, netos e bisnetos, incluindo a transformação dos papéis e das representações sociais da figura do pai.

Além das histórias, Luiz e Rafael curtem assistir aos programas de tevê juntinhos. Algumas vezes, é futebol; outras, desenhos. Mas o que vale é o abraço que os dois compartilham no sofá enquanto olham para a tela.

Enquanto vê o filho crescer, Luiz segura a ansiedade de assistir ao anime Naruto com o pequeno. “A classificação etária é de 10 anos, mas não sei se vou aguentar esperar tudo isso”, ri. Brincar de lutinha também está entre as atividades preferidas da dupla, que adora a música do filme de ação Mortal Kombat.

Uma herança social

A psicóloga Ana Verônica Pires de Azevedo ressalta a importância da nova paternidade não só para as crianças que convivem com esses pais, mas, também, para a sociedade como um todo. “A sociedade ganha muito, temos crianças que se tornarão adultos mais saudáveis emocional e socialmente. Os pais precisam ficar mais atuantes, até porque a motivação deles em tentar passar essa forma de educação para os filhos afetará diretamente as próximas gerações”, ressalta.

Ela explica que, aos poucos, estamos substituindo um formato de educação punitiva e autoritária, por uma em que a criança passa a ser responsabilizada por suas ações. O castigo, por exemplo, deixa de ser uma imposição dos pais contrariados e passa a ser visto como a consequência de uma atitude negativa.

O diálogo e a afetividade, mesmo nos momentos de imposição de limites e disciplina, são importantes no aprendizado de crianças e jovens sobre como lidar com os “nãos” e frustrações da vida. “Não se trata de ser totalmente permissivo ou jamais contrariar os filhos, mas, sim, de fazer isso de forma respeitosa com a criança e com o adolescente, sem deixar de lado o acolhimento que precisa marcar o ambiente familiar. É um equilíbrio”, completa.

O psicólogo Rafael Gonçalves, idealizador e fundador do grupo Masculinities, um coletivo que busca refletir e reconstruir a masculinidade, explica que o principal desafio dos pais é ir além do prover e se aproximar cada vez mais na dimensão do cuidado e tudo o que isso inclui.

O cuidado no dia a dia, assumindo funções da educação que, historicamente, são delegadas de forma sobrecarregada às mães e mulheres, e o cuidado relacionado ao afeto, de construir uma relação carinhosa e de cumplicidade com os filhos, são fundamentais para a evolução da nossa sociedade.

Na profissão e na vida

Pai de três filhos, Rafael não só trabalha esses conceitos no âmbito profissional, mas também na vida pessoal, esforçando-se para ser presente para os filhos — mesmo para os dois que moram em outras cidades. A distância física ensinou Rafael a valorizar cada minuto. “Quando estou com eles, é só com eles. Não tem celular, ligação ou mensagem que roube meu foco. E eu sugiro isso a todos os pais, que reservem pelo menos alguns minutos em seus dias apenas para estar com os filhos, se curtindo”, comenta.

O psicólogo fala também sobre a referência da figura masculina e seu valor. Enquanto muitos filhos enxergam os pais como heróis, é válido também que vejam o ser humano nessa figura. Sendo de carne e osso e tendo também seus defeitos, aquele pai se aproxima do filho lidando com os desafios da vida e ensinando por meio do exemplo.

Rafael ressalta que ainda existem milhões de crianças que sequer tem o registro do pai na certidão de nascimento e que, apesar de muito positivo, o processo de evolução da nova paternidade ainda segue em ritmo lento. “O pai não tem que ajudar, ele tem que assumir a responsabilidade sobre aquele ser que ele criou junto. E, assim, essa família faz parte da transformação da cultura.”

O psicólogo ressalta que o indivíduo que cresce enxergando o homem como uma figura de cuidado passa a ser mais consciente de seu próprio autocuidado. Na nossa sociedade, a função de cuidar, inclusive da saúde, recai sobre a mulher, a mãe, a namorada e a esposa.

Ver o pai na função de cuidador faz com que o menino ou homem compreenda que ele também deve assumir esse papel consigo mesmo. Para as meninas ou mulheres, isso mostra que essa responsabilidade não é somente delas. “A dinâmica que vemos na nossa família, tenha ela a configuração que for, influencia a forma como vamos nos relacionar. Se os filhos veem um casal parceiro, companheiro e que divide as funções de forma igualitária, independentemente de gênero, a tendência é que busque uma relação nos mesmos moldes”.

Merecida homenagem

Para o Dia dos Pais, a palavra do especialista se torna a palavra dos filhos! Pedimos que os filhos dos nossos entrevistados falassem um pouquinho sobre a convivência com os pais.

“Eu gosto de umas coisas surpresas, tipo brincar de lutinha no meio da casa e de forma aleatória, e eu adorei ter ido com ele para o Rock in Rio. Um dos meus dias preferidos foi quando ele pintou nosso cabelo colorido”
Marina Benon, 12, filha do Eduardo Benon

“O que mais gosto de fazer com meu pai são as coisas divertidas: passear, viajar, jogar bola, andar de bicicleta, tudo! Menos as coisas chatas! O meu dia preferido com ele eu não sei dizer. Tenho mais de 2 mil dias com meu pai, como vou escolher um?”
Théo Benon, 8, filho do Eduardo Benon

“Meu pai tem tanta coisa legal que eu nem sei o que eu mais gosto. Ele faz várias coisas com a gente e está sempre junto, e eu adoro isso. O dia em que ele pegou videogames nas férias para a gente jogar foi muito legal, e meu dia mais especial com ele foi quando me ajudou a andar de bicicleta sem rodinha”
Estela Benon, 6, filha do Eduardo Benon

“Gosto de lutar com o meu pai, brincar de carrinho, de correr de polícia e ladrão”
Rafael Hideki Tazima Ricarte, 3, filho do Luiz Ricarte Serra Filho

“Gosto de brincar com ele e adoro que meu pai brinca junto, a gente se diverte muito. Quando viajamos é muito bom”
Luísa Ribeiro de Lima Martins, 6, filha de Wanderson Sérgio Cardoso Martins

“Também adoro o jeito que ele brinca com a gente e as nossas viagens, principalmente a que fomos para o Beto Carrero. Minha coisa preferida de fazer com ele é andar de carro antigo”
Yasmin Ribeiro de Lima Martins, 13, filha do Wanderson Sérgio Cardoso Martins

“Gosto de curtir momentos felizes com ele e andar de carros antigos. A vez em que fomos a um encontro de carros antigos, só nós dois, também foi marcante para mim. A personalidade única do meu pai é uma das coisas de que mais gosto nele”.
Igor Ribeiro de Lima Martins, 18, filho do Wanderson Sérgio Cardoso Martins

 

Arquivo Pessoal - Wanderson Martins não abre mão dos churrascos de fim de semana com Igor, Yasmin e Luiza
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