Saúde

'Alergia' a tudo? Pode ser sinal de uma síndrome rara

Com vermelhidão e bolhas sobre a pele, a síndrome de Stevens-Johnson exige uma rotina de cuidados que salvam vidas. Especialistas explicam como surge e como funciona o tratamento da doença rara

A síndrome de Stevens-Johnson é uma doença rara causada por reações de hipersensibilidade da pele. É uma condição que afeta 15 mil pessoas por ano no Brasil e não tem cura, apenas tratamento. Os pacientes que convivem com a enfermidade precisam estar atentos a possíveis reações na pele ou nos órgãos internos após a ingestão de algum medicamento.

Isso acontece porque o remédio induz uma resposta exacerbada da própria imunidade, que provoca destruição das células epiteliais da pele e das mucosas, afetando grande parte da superfície corporal.

De acordo com a dermatologista Fernanda Margonari, da Clínica Supreme, a reação na pele pode surgir em até 45 dias após ingestão ou uso de algum medicamento. “A síndrome caracteriza-se por uma erupção vermelha na pele, com formação de bolhas ou consequente descolamento da pele, da epiderme da camada mais superficial”, explica.

De 20% a 30% do corpo de um paciente pode ser afetado pela condição. Nesses casos, os profissionais caracterizam esses quadros como sendo de necrólise epidérmica. Esses são tipos mais graves e mais extensos de acometimento cutâneo. Em algumas situações, podem comprometer órgãos internos importantes. “Em geral, os pacientes necessitam de internação hospitalar em unidade de terapia intensiva, até mesmo na ala de queimados”, comenta Fernanda.

A síndrome de Stevens-Johnson precisa de cuidados urgentes e intensivos. De acordo com a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), estima-se que 5% dos portadores da doença rara morrem por complicações. A taxa de mortalidade entre crianças e adultos, porém, pode ser maior — 7,5% na infância e entre 20% e 25% na fase adulta. Quando bem-feito e de forma precoce, o tratamento diminui a taxa de mortalidade e eleva a qualidade de vida do paciente.

Sintomas

Febre
Dor de cabeça
Alterações hepáticas e laboratoriais.
Também há o acometimento de mucosas, tanto a ocular quanto a do trato gastrointestinal ou a genital
Os pacientes também se queixam de inchaços no rosto, dificuldade para respirar, sensação de queimação na pele e nos olhos, feridas nos lábios ou na boca
Vermelhidão e formação de bolhas sobre a pele

Tratamentos

Esses quadros são graves e requerem terapia realizada em regime de internação hospitalar. O tratamento é muito parecido com o de grandes queimados. Além disso, se o paciente estiver tomando qualquer medicamento, é interrompido na mesma hora.
A equipe assistencial deve redobrar a execução dos protocolos de controle de infecção associado à assistência. Isto é, manipulação de instrumentos, colocação de sonda, cuidado com os cateteres venosos, a aplicação de medicação e tudo o que necessite de contato com o paciente devem ter cuidados intensificados.
Os profissionais recomendam o uso de cremes, compressas de água fria e a tomar medicamento apenas prescritos pelos médicos.

Diagnóstico

O diagnóstico é clínico, ainda não existe exame laboratorial para descobrir a doença. Durante a consulta, ao observar as lesões no paciente, o médico questionará sobre a medicação que ele está usando.
Também pode ser feito por meio da análise das lesões, bolhas e vermelhidão do corpo.
A primeira medida é suspender o uso dos medicamentos. Todavia, como muitas vezes a pessoa não pode parar o remédio, o especialista terá que substituir rapidamente por outro.

Palavra do especialista

A síndrome de Stevens-Johnson é uma alergia a medicamentos?
É importante ressaltar que não é alergia a medicamentos. A alergia é imediata ou pode levar de 30 a 60 minutos após a ingestão do remédio. A síndrome é uma hipersensibilidade tardia, na qual os anticorpos se voltam contra o organismo. São adotadas algumas medidas para evitar ao máximo o desenvolvimento de infecções bacterianas. Entretanto, devido à exposição, é quase impossível evitar esse tipo de problema. Cerca de 99% dos casos evoluem para a infecção.

É possível prevenir o surgimento desta síndrome?
Não há como prevenir a Síndrome de Stevens-Johnson. Não temos como saber quem vai desenvolver, ou não, o problema. Porém, não é um quadro muito frequente atualmente.

Existe algum medicamento que cause mais reações?
Qualquer medicação pode levar à síndrome, contudo, os medicamentos anticonvulsivantes e com sulfonamidas são mais conhecidos por essas reações.

David Urbaez é infectologista e presidente da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte