Saúde

Na dose certa: os perigos do uso indiscriminado de suplementos

O uso de suplementos alimentares sem orientação profissional e personalizada pode trazer sérios prejuízos ao organismo, como intoxicação e sobrecarga de alguns órgãos

Carolina Marcusse*
postado em 07/11/2021 08:00 / atualizado em 07/11/2021 23:45
 (crédito: Valdo Virgo/CB/D.A.Press)
(crédito: Valdo Virgo/CB/D.A.Press)

O consumo de alimentos naturais integrais é a recomendação de especialistas para atingir a quantidade correta de macro e micronutrientes. No entanto, com o estilo de vida cada vez mais corrido e o alto consumo de produtos processados, algumas pessoas têm problemas para atingir os níveis ideais de nutrientes somente com a alimentação. Nesses casos a suplementação é importante para garantir o funcionamento adequado do organismo. O problema surge quando a ingestão desses suplementos ocorre sem a devida prescrição profissional, o que pode causar mais problemas do que benefícios.

A nutricionista Amanda Bienna explica que, nesse contexto, a avaliação nutricional se faz "extremamente necessária", pois o corpo humano não é uma máquina que metabolizará todos os nutrientes instantaneamente. O trabalho do nutricionista não é apenas indicar quais cápsulas devem ser inseridas na dieta, mas também os horários, as quantidades e as combinações a serem feitas, pois alguns nutrientes são melhor absorvidos em jejum e outros associados com alimentos específicos.

Muitos equívocos podem ser evitados com o devido acompanhamento profissional, que compreenderá o quadro clínico particular, diferentemente do que pode ocorrer quando a dieta e suas adaptações são feitas de forma desamparada, como adicionar grupos alimentares em grandes quantidades apenas por achar necessário. É o caso de praticantes de atividades físicas que consomem altos níveis de proteínas diárias para ter músculos e resultados sonhados. Amanda explica que a proteína, apesar de ser insubstituível em todas as dietas, não deve ser consumida em excesso, pois pode sobrecarregar o rim, facilitar a formação de gordura e gerar inchaço.

A proteína não é o único componente com o qual se deve ter atenção — todos os nutrientes têm um valor mínimo e máximo para executar suas funções essenciais corretamente no corpo. A vitamina C, que é vendida e muito consumida para "prevenir resfriados", deve ser ingerida com moderação por aqueles que têm problemas renais e por quem a consome constantemente sem prescrição. Outra suplementação que deve ser dosada com cuidado é a vitamina D3, que foi alvo de desinformação durante a pandemia e oferece riscos graves em altas quantidades e sem indicação.

A SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e a Abrasso (Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteometabolismo) elaboraram uma nota sobre o assunto para alertar a população e repudiar outras associações que recomendaram o uso desacompanhado. Nela, afirmam que as altas doses de colecalciferol (vitamina D3) são "sabidamente deletérias ao esqueleto, promovendo aumento da reabsorção óssea e do risco de quedas e fraturas" e que podem "desencadear hipercalcemia e hipercalciúria, com consequentes riscos de insuficiência renal, crises convulsivas e morte".

O que é

De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), suplementos alimentares são produtos que têm a finalidade de fornecer nutrientes, substâncias bioativas, enzimas ou probióticos em complemento à alimentação.

Prescrição

O uso e todo e qualquer suplemento só pode ser feito com orientação de um profissional de saúde.

Riscos

A ingestão de suplementos em quantidade maior do que o corpo necessita pode acarretar sérios problemas de saúde, como sobrecarga hepática e renal.

Esportes de alto gasto energético

O hábito de ingerir suplementos é muito comum entre os praticantes de fisiculturismo e frequentadores assíduos de academias de musculação. Eles podem trazer uma série de benefícios, como a melhora da performance esportiva e atender as necessidades induzidas pelos treinos. Para esse grupo, o cuidado e a personalização são essenciais a fim de atingir os melhores efeitos possíveis. Um erro comum é o da diminuição do consumo de proteínas vindas dos alimentos naturalmente para consumir as versões sintéticas, afinal, o ideal é que os aditivos não se tornem a principal fonte de nutrientes e, sim, o complemento da dieta.

Jefferson Monteiro, educador físico e personal trainer, afirma que a maior parcela dos alunos com quem ele trabalha faz uso de suplementos sem orientação profissional, principalmente do whey protein, composto feito a partir da proteína extraída do soro do leite. Ele também relata que nem todos os resultados são positivos, como um caso que presenciou de um desmaio causado pelo uso indiscriminado de um suplemento à base de cafeína que tinha sido utilizado como pré-treino e consumido em uma dosagem alta e perigosa. Nesse sentido, o trabalho do profissional de educação física e do nutricionista se complementam, aliados em busca da saúde e da obtenção dos objetivos dos pacientes.

Influência virtual

Existe uma indústria que lucra com a venda de multivitamínicos e colágenos, atualmente potencializada por blogueiros e influenciadores digitais, que afirmam existir uma série de benefícios em um coquetel de vitaminas que seriam facilmente encontradas em frutas e vegetais, por exemplo. De acordo com levantamento encomendado pela ABIAD (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres), quase metade dos consumidores de suplementos aumentaram, em 2020, a ingestão dos produtos em meio a incertezas geradas pela pandemia da covid-19. No entanto, não necessariamente terão como reflexo imediato impactos no corpo.

Estética

Uma das principais preocupações dos consumidores de suplementos é com a estética. De fato, o aspecto saudável de pele, cabelo e unhas está relacionado com níveis nutricionais em equilíbrio no corpo, mas pode não ser resolvido somente com uma simples compra de um produto pronto na farmácia. Como cada pessoa possui demandas únicas, as cápsulas que contêm quantidades gerais de nutrientes podem ser ineficazes. Por isso, o exame sanguíneo associado a uma avaliação profissional séria pode ter um êxito real, diferentemente dos polivitamínicos sem prescrição, que ainda podem representar um prejuízo financeiro.

Palavra do especialista

Como sabemos que a suplementação é necessária?

A maioria das pessoas não precisa de suplementação porque se alimentam de forma correta com proteínas, vitaminas, sais minerais e gorduras boas no dia a dia. No entanto, em determinados casos, como dietas muito restritivas, organismos que têm dificuldade de absorver nutrientes e no pós-operatório da cirurgia bariátrica, há necessidade de suplementação. Na consulta médica, pedimos exames para rastrear possíveis deficiências e, assim, poder orientar adequadamente o paciente, de acordo com o quadro.

Quais são os riscos ligados à suplementação desacompanhada?

Qualquer tipo de suplementação, tanto de proteínas quanto de vitaminas, sem uma orientação profissional pode levar a uma sobrecarga renal e hepática, além de algumas reações particulares de alguns componentes, como vitaminas que podem gerar intoxicação, a exemplo das causadas pelas vitaminas A e D. Assim como a falta, os excessos não são bem-vindos, não é todo mundo que pode tomar suplementação. Em algumas crianças, pode prejudicar as atividades rotineiras e levar à sonolência, que é um dos sinais dessa intoxicação. Outro excesso conhecido é o do betacaroteno, que deixa o indivíduo com a cor alaranjada em alguns pontos da pele.

Os preparos fortificados com nutrientes para atletas são indispensáveis?

Em alguns casos, sim. A suplementação no contexto do atleta é diferente, pois pessoas que realizam treinos de alta performance têm um gasto energético muito elevado, que pode não ser completamente suprido somente com a alimentação. Isso faz com que ele precise repor alguns nutrientes. No entanto, o cuidado é diferenciado. É interessante que ocorra um estudo da rotina e das demandas individuais do praticante de atividades físicas de alto desempenho.

Jamilly Drago é médica endocrinologista do Hospital Brasília

* Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

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