Comportamento

Projetos ajudam mulheres com câncer a resgatar a autoestima

O tratamento do câncer traz efeitos colaterais que impactam a autoestima das pacientes. Conheça projetos que transformam a visão das mulheres sobre a própria imagem

Raquel Ribeiro*
postado em 21/11/2021 08:00
Parte das integrantes do grupo Rosas do cerrado: troca de experiências e fortalecimento da autoestima -  (crédito: Arquivo pessoal)
Parte das integrantes do grupo Rosas do cerrado: troca de experiências e fortalecimento da autoestima - (crédito: Arquivo pessoal)

Um cabelo bem arrumado e uma sobrancelha feita costumam ser requisitos básicos para que uma mulher se sinta bonita fisicamente. Por isso, quando a imagem dela sofre mudanças drásticas, a autoestima pode ser abalada. Esse é o caso das mulheres com câncer, que, muitas vezes, sentem que não é possível cultivar a beleza durante o tratamento. A quimioterapia gera, como consequência, a perda dos cabelos de todo o corpo, além de efeitos colaterais, como ganho de peso, inchaço e cicatrizes.

"A gente vive em uma cultura que valoriza sobremaneira a juventude, a beleza, o culto por um padrão estético, o que exerce uma pressão social grande para todas as mulheres e traz um impacto ainda maior para uma mulher que está em tratamento de câncer", ressalta a psicóloga especializada em psicologia da saúde Maria Rita Zoéga. Contudo, ela destaca que a preocupação não se resume a uma questão estética, envolve problemas de identidade, autoestima e reconhecimento da própria imagem.

"Nesse período, é esperada uma maior fragilidade emocional dessa mulher. E as maiores dificuldades estão relacionadas aos riscos da enfermidade, à capacidade de ela se adaptar ao tratamento, de levar uma rotina profissional, pessoal, a questões relacionadas à feminilidade, à sexualidade e aos relacionamentos", lista a psicóloga. Estudos demonstram que pacientes com melhor autoestima têm melhor adesão ao tratamento de câncer. Por isso, Maria Rita adverte que as mulheres precisam fortalecer a autoestima e a segurança, pois esses fatores fazem toda a diferença.

Pensando nessa relação entre uma boa percepção da própria imagem com o processo de recuperação do câncer, a Revista do Correio encontrou alguns projetos voltados para o resgate da autoestima e do propósito de vida das mulheres que lutam diariamente contra a doença.

Rosas do cerrado

Da união entre duas mulheres que passaram pela experiência do câncer nasceu o grupo Rosas do cerrado. A coordenadora do coletivo, Angela Ferreira, enxerga o grupo como um espaço onde as mulheres podem se apoiar e, principalmente, escutar o que querem ouvir. “Por mais que a gente tenha apoio e carinho da família, não é aquele olhar diferenciado, que entende com exatidão tudo o que sentimos. Achamos importante isso, porque só quem tem o câncer saber como é”, pontua.

Mais do que uma roda de conversa onde as mulheres podem bater papo e interagir, as Rosas do cerrado realizam desfiles para quebrar o estereótipo de que o câncer é “uma sentença de morte que deixa a mulher feia”. Na verdade, alegria e beleza são as palavras adequadas para definir o grupo formado por 47 mulheres com diagnósticos dos mais diversos tipos de tumor. Para Angela, a cura se baseia nos três pilares: Deus, entes queridos e um bom tratamento.

As Rosas se encontravam uma vez por mês antes da pandemia, em reuniões marcadas por sentimentos de fraternidade e leveza: “Nós, que temos o diagnóstico de câncer, falamos que somos irmãs de alma, que nos conhecemos pelo olhar e pelo gesto. No grupo, a gente tenta melhorar não só a questão de autoestima, mas também levar um sorriso. Os nosso encontros são terapêuticos. Depois de uma roda de conversa, saímos mais leves”.

Aos poucos elas estão retomando os desfiles presenciais. Os corredores da Câmara Legislativa, do Museu Nacional e do Pontão do Lago Sul já serviram de palcos para as Rosas do cerrado esbanjarem a imagem confiante que possuem.

Além do espelho

 A esteticista Priscila Vasconcelos criou o projeto Além do espelho, em que faz pigmentação na sobrancelha de mulheres que têm câncer
A esteticista Priscila Vasconcelos criou o projeto Além do espelho, em que faz pigmentação na sobrancelha de mulheres que têm câncer (foto: Arquivo pessoal)

Quando a esteticista Priscila Vasconcelos atendeu uma paciente oncológica que não tinha mais nenhum pelo na sobrancelha, ela soube que precisava usar o seu trabalho como ferramenta para ajudar mulheres com câncer a fortalecerem a autoestima. “Ela relatou que não sentiu tanto perder os cabelos quanto perder os pelos da sobrancelha. Para mim, foi muito impactante ouvir isso. Eu me senti muito honrada de estar tendo a oportunidade de devolver a ela um pouco da sua autoestima, e pensei que queria proporcionar isso a mulheres que não têm condições de arcar financeiramente com o procedimento”, conta.

Dessa forma, o projeto Além do espelho ganhou vida. Segundo Priscila, a micropigmentação da sobrancelha é oferecida de forma gratuita, mas são necessários alguns critérios. De preferência, as mulheres que entram em contato precisam participar de algum programa de assistência social do governo e trazer autorização médica, porque, dependendo do estágio da doença, o procedimento não é liberado. Como a pele fica mais sensível durante o tratamento, a esteticista se preocupa em usar produtos de qualidade e antialergênicos. Além disso, Priscila tem o cuidado de fazer uma avaliação prévia do tipo de pele da cliente.

Para a esteticista, o mais gratificante é ver a emoção e a alegria das mulheres ao se olharem no espelho com as “novas” sobrancelhas. “Isso traz uma esperança de que é apenas uma fase que elas estão passando. A sobrancelha traz de volta a vontade de se olharem no espelho, que é uma coisa que elas perdem. Eu entendo que cada mulher que chega é um presente para mim, pois posso contribuir para trazer a ela um pouco mais de autoestima.”

Moda cura

As consultoras Lilian Lemos e Valéria Lessa durante uma ação do projeto Moda cura
As consultoras Lilian Lemos e Valéria Lessa durante uma ação do projeto Moda cura (foto: Arquivo pessoal)

Acostumadas a transformar a aparência de muitas mulheres, as consultoras de imagem Valéria Lessa e Lilian Lemos enxergaram um propósito maior para as suas vidas profissionais quando realizaram uma oficina de lenços para mulheres que tinham vencido o câncer em um hospital. “Durante essa oficina, eu senti muito forte no meu coração o quanto esse projeto era incrível e percebi que tínhamos que continuar com isso”, conta Valéria.

Assim nasceu o Moda cura, projeto solidário e aberto à comunidade que visa elevar a autoestima de pacientes oncológicas por meio da moda e da beleza. Além de promover palestras sobre o tema e divulgar conteúdos nas redes sociais, realiza oficinas, nas quais ensinam as mulheres a incrementarem o visual com roupas e acessórios.

Valéria explica que, quando iniciaram o projeto, começaram a estudar as dores e as necessidades das mulheres que passam por esse tratamento e, assim, perceberam os impactos causados na autoestima delas. “O objetivo é mostrar que elas continuam vivas e que, mesmo em um processo difícil, tenham força de vontade para continuarem se arrumando, usando peças a seu favor, de forma a ir alimentando a autoestima, porque isso, sim, ajudar na cura.”

Na oficina de lenços, por exemplo, as consultoras dão várias dicas de como usar o acessório no cabelo e em outras partes do corpo. Valéria acredita que isso tem uma força maior. “Quando ela passar por esse processo, ela continuará usando aquele lenço na bolsa ou no cinto como uma forma muito simbólica de vitória.”

Além de ajudar as mulheres a realçarem a beleza delas, Valéria ressalta que o projeto transforma, a cada dia, a visão que ela tem sobre moda. Se, antes, a moda era vista como sinônimo de perfeição e glamour, agora ela adquiriu um novo sentido para a consultora: “Eu vejo como uma ferramenta de cura interior para nós mulheres, porque o autocuidado e autoconhecimento fazem muito bem. Eu sinto que a moda vai muito além de aparência, envolve o interior. Ao decorrer da minha carreira, percebi que não adianta nada se vestir bem por fora se não se está bem por dentro”.

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

 

  • As consultoras Lilian Lemos e Valéria Lessa durante uma ação do projeto Moda cura
    As consultoras Lilian Lemos e Valéria Lessa durante uma ação do projeto Moda cura Foto: Arquivo pessoal
  •  A esteticista Priscila Vasconcelos criou o projeto Além do espelho, em que faz pigmentação na sobrancelha de mulheres que têm câncer
    A esteticista Priscila Vasconcelos criou o projeto Além do espelho, em que faz pigmentação na sobrancelha de mulheres que têm câncer Foto: Arquivo pessoal
  • As consultoras Lilian Lemos e Valéria Lessa durante uma ação do projeto Moda cura
    As consultoras Lilian Lemos e Valéria Lessa durante uma ação do projeto Moda cura Foto: Arquivo pessoal
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