Especial

Vida e ciência

Ailim Cabral
postado em 21/11/2021 00:01
 (crédito: Arquivo pessoal)
(crédito: Arquivo pessoal)

A história do pesquisador e neurocientista Renato Malcher Lopes com a cannabis começou no lado profissional, mas, hoje, tem reflexos na vida pessoal. O médico fez um doutorado, nos Estados Unidos, em que estudou o sistema endocanabinoide e os outros sistemas do organismo nos quais ele atua. "Comecei a me interessar pelo uso medicinal da cannabis antes de ter ideia do quanto seria importante na minha vida", conta.

Renato finalizou o doutorado e, em 2006, escreveu um livro em parceria com um amigo sobre o abuso e o uso medicinal da cannabis. "Fiquei chocado e surpreso com o volume e a antiguidade do conhecimento que já existia sobre o uso medicinal. E, do ponto de vista médico, não existia nada que justificasse essa proibição medicamentosa."

O processo de Renato também passou pela decepção em um pós-doutorado na Suíça, quando ele queria explorar os efeitos da cannabis em estudos com ratos, pesquisando a relação de defeitos no sistema endocanabinoide e sintomas do transtorno do espectro autista (TEA), mas não teve o apoio da chefia do projeto.

Na mesma época, o filho de Renato foi diagnosticado com autismo e ver a possibilidade de melhorias de vida não só para ele, mas para tantas outras pessoas que poderiam se beneficiar dos ativos da cannabis ser desperdiçado teve um grande impacto na vida do cientista.

"Eu estava em um laboratório cheio de possibilidades na Suíça, pesquisando, lendo a respeito, vendo possíveis soluções que não eram exploradas. Entrei em uma crise existencial. Voltei para o Brasil, surgiu a chance de escrever esse livro e me lancei na luta pela cannabis medicinal", lembra.

Em 2013, após outros estudos, veio a confirmação das suspeitas de Renato e a relação entre o TEA e defeitos no sistema endocanabinóoide foi comprovada. Em 2014, Renato escreveu um artigo defendendo o uso do CBD, com ou sem o THC, e viu as famílias e associações sendo os principais agentes de mudança.

Cauê Malcher começou a usar o CBD aos 12 anos. Depois de dois anos e meio vendo benefícios do tratamento, mas sabendo que o acréscimo do THC poderia aumentar a qualidade de vida do filho, Renato introduziu o segundo componente. Hoje, o médico vê o filho de 16 anos muito mais tranquilo, com menos crises e capaz de fazer conexões emocionais e de se comunicar por escrito.

"Eu vi um efeito mais contundente. Para as particularidades do meu filho, o CBD e o THC combinados trazem mais ganhos. É importante ressaltar que não é uma cura, mas é um ganho estável que atua na reconfiguração do cérebro", explica.

Novos estudos

A médica Maria Teresa Jacob, pós-graduanda em endocanabinologia, cannabis e cannabinoieds, menciona ainda o uso da cannabis para alívio dos efeitos adversos de tratamentos pesados, como a quimioterapia. Entre eles, náuseas, vômitos, mal-estar e até neuropatia periférica, quando os nervos perdem uma camada protetora e ficam mais sensíveis à dor. A médica menciona também os efeitos no humor, seja no tratamento de ansiedade e depressões, seja em síndromes de estresse pós-traumático.

Atualmente, um dos focos de Maria Teresa são os efeitos da cannabis em doenças do aparelho reprodutor feminino, como cólicas, endometriose e adenomiose.

Estudos preliminares mostram que os ativos da cannabis podem diminuir a migração de tecidos do útero para outros locais, além de auxiliar na diminuição dos tecidos já formados. As pesquisas se mostram promissoras e trazem uma alternativa de tratamento para a endometriose, além do alívio das fortes dores trazidas pela doença.

Outros estudos iniciais apontam ainda para efeitos antitumorais e anti-inflamatórios em doenças como artrites. Pesquisadores também avaliam o potencial da cannabis em tratamentos contra vícios. "São pesquisas muito importantes, pois trazem uma possibilidade para muitas doenças que não têm tratamentos eficazes atualmente. É muito importante insistir na desmistificação e acabar com esse preconceito e tabu", reforça.

 

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