Especial

Fazendo uma poupança cognitiva

Correio Braziliense
postado em 28/11/2021 00:01
 (crédito: ED ALVES/CB/D.A.Press)
(crédito: ED ALVES/CB/D.A.Press)

Como forma de tornar a mente mais preparada para enfrentar possíveis dificuldades, ter uma boa reserva cognitiva é uma mão na roda. A pedagoga Laís Guedes, do Método SUPERA, compara a ideia da reserva cognitiva com a financeira: "Desde a juventude, é importante buscar adquirir conhecimento, experiência e recursos pensando na velhice. A reserva cognitiva funciona do mesmo jeito. Fazemos o mais cedo possível essa poupança de experiências e estímulos focados na ginástica cerebral para que, quando haja um declínio lá na frente, a gente utilize essa reserva de habilidades que foram potencializadas e armazenadas".

 

Enquanto as perdas cognitivas fazem com que "as luzes se apaguem", nas palavras de Laís, o desenvolvimento de habilidades "deixa o cérebro mais iluminado". "É importante criar uma reserva cognitiva para que o nosso cérebro não escureça. Ao criar novas conexões, outras luzes se acendem e, como resultado, o cérebro não vai perdendo essa química de processamento. A gente pode até perder algumas habilidades, mas, como outras estão fortalecidas, elas serão supridas. Portanto, não vai ter uma queda drástica, mas, sim, uma queda menos acentuada", pondera a educadora.

 

Em qualquer idade, a ginástica mental pode ter um caráter preventivo, como é o caso de Marlene Ribeiro, 72 anos. Ela deseja chegar aos 100 lúcida e com independência. "Quero poder lembrar o nome das minhas amigas, poder sair, dirigir, me divertir e, claro, tomar uma cervejinha", brinca a aposentada. Ela conheceu os exercícios para o cérebro em um programa televisivo e, como estava tendo problemas de memória, interessou-se. Há cerca de três meses começou a praticar os exercícios e já percebe uma mudança profunda na rotina.

Ela conta que, antes das aulas, sempre precisava realizar anotações para não esquecer demandas ou coisas simples, como itens do mercado. Agora, memoriza os itens e pega tudo o que precisa sem auxílio do papel. Percebe, também, que consegue recordar com mais clareza horários e outras informações. Os exercícios fazem parte dos cuidados que Marlene tem com a saúde. No entanto, eles não são restritos ao cérebro. "Não adianta ficar mentalmente bem e fisicamente, não." 

A socialização e o bem-estar físico também são vitais para o equilíbrio e a plena função cognitiva. Sabendo disso, caminhadas, aulas de dança, pilates e ioga fazem parte da rotina da aposentada que procura manter ainda os cuidados médicos e as vacinas em dia.

Marlene  procura tirar o máximo de proveito de todas as atividades, em especial da ginástica do cérebro, que tem um potencial de trazer qualidade de vida e é recomendada para todas as idades. Na unidade do SUPERA, uma vez por sema, ela realiza exercícios e convive com jovens e adultos. Além das aulas presenciais, tem uma apostila e atividades que faz em casa, complementando o trabalho realizado nas aulas.

No último mês, contaminou-se com o novo coronavírus após e precisou ficar completamente isolada por duas semanas. Teve apenas reações leves e continuou realizando os exercícios a distância, adaptados para o momento. As atividades são estimulantes e ajudam a manter a mente ativa, além de ocupar o tempo e fortalecer a atividade cerebral.

O poder da experimentação

É importante existir um acompanhamento profissional com técnicas voltadas para a reabilitação e a estimulação cognitiva, principalmente para otimizar os resultados e traçar objetivos individuais. Em complemento, a neuropsicóloga Julliana Regina recomenda a realização de diversas atividades em casa, como a leitura. A especialista recomenda a experimentação. "O principal é achar atividades que você goste, que se sinta confortável. E, por meio disso, sair do automático, porque é no automático que mora o perigo."

Devido à estratégia natural do cérebro de economizar energia, tendemos a querer fazer somente o mais fácil, o que demanda menos estímulos. No entanto, quando levamos em consideração o envelhecimento saudável, isso não é interessante. É importante, portanto, que as atividades estimulantes sejam incluídas na rotina desde cedo, para, assim, existir constantes novidades e atividade mental.

Até mesmo atividades simples podem ser adaptadas para melhorar a compreensão e o constante aprendizado Na hora da leitura, por exemplo, em vez de ler o livro diretamente, uma tática interessante é fazer pausas, refletir sobre o que foi percebido, recontar a história e até tentar adivinhar o que ocorrerá a seguir.

Aprender novas línguas e instrumentos musicais também são formas interessantes de sair da zona de conforto. "Música é um recurso ótimo, inclusive, é o único, que já foi comprovado, que trabalha o cérebro inteiro, tanto cognitivo, quanto emocionalmente", explica a neuropsicóloga. Palavra-cruzada e caças-palavras podem ter resultados interessantes, desde que não tenham sido realizados durante toda a vida, pois se é algo no qual o indivíduo já é habituado, não estimulará os sentidos de forma diferente.

Atenção às atividades do cotidiano também é um modo de fortalecer a memória, pois, com a atual cobrança de atividades na qual nos submetemos, é normal que diversas atividades sejam realizadas simultaneamente, o que faz com que a atenção seja dividida. Com essa falta de foco, acabamos esquecendo de diversas coisas, como onde algum objeto estava localizado ou se realizamos ou não alguma demanda. Por isso, até mesmo pessoas sem qualquer transtorno diagnosticado podem reclamar de problemas de memória, quando, na realidade, são falhas de atenção.


Conhecimento oriental

A pedagoga Laís Guedes afirma que existe um leque amplo de exercícios cognitivos que vêm principalmente do Oriente, como o sudoku, que é um dos mais famosos e está tradicionalmente presente em jornais. Semelhantes, mas com desafios diferentes, existem o hitori e kakuro. Estes têm desenhos diferentes e variam na percepção visual, além de apresentar novas regras e graus de dificuldade. Outra possibilidade é o tangram, um quebra-cabeça que surgiu na China. São peças com figuras geométricas em geral que formam casas, pássaros e pessoas, e auxiliam a desenvolver a habilidade visual espacial e a trabalhar a atenção e o raciocínio lógico.

Laís afirma que o carro-chefe do método SUPERA é o soroban, o ábaco japonês, que é uma calculadora milenar. "A neurociência descobriu que a realização de contas no ábaco fortalece, cria novas conexões neuronais nas partes do cérebro responsáveis pela atenção. Então, há uma grande movimentação, ativação da região do córtex frontal e, diante disso, essas conexões são utilizadas em outros momentos da vida", explica.

Como as funções cerebrais estão diretamente conectadas, trabalhar uma parte com a ginástica mental é contribuir com o cuidado com o todo, principalmente em uma época tão automatizada e acelerada. Os trabalhos que envolvem o aprendizado e estímulos mentais são um modo de ter uma sociedade "mais viva, bem cuidada, com mais qualidade de vida", segundo a pedagoga.

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