Saúde

Quando a emoção fala mais alto: saiba como funciona a amígdala cerebral

Uma estrutura chamada amígdala cerebral está relacionada a momentos de descontrole, como o que aconteceu na cerimônia do Oscar deste ano

Giovanna Fischborn
postado em 03/04/2022 08:00
 (crédito: Valdo Virgo/CB/D.A.Press)
(crédito: Valdo Virgo/CB/D.A.Press)

Uma emoção acontece em 0,25 segundos. Em 0,50, é possível reconhecer que emoção é essa e, em 1 segundo, tomar uma decisão a respeito. O cérebro todo age nesse processo, mas há um grupo de neurônios que está especialmente ligado ao assunto: as amígdalas cerebrais.

"Associada às formas mais arcaicas da existência, é como se fosse uma área primitiva do cérebro", explica o neurologista Ricardo Teixeira, diretor clínico do Instituto do Cérebro de Brasília. Elas não são exclusivas dos seres humanos — todos os vertebrados têm — e fazem parte do sistema límbico, que é, justamente, responsável pelas respostas emocionais.

Na premiação do Oscar 2022, ocorrida no domingo passado, o ator Will Smith não aceitou bem uma fala do comediante Chris Rock sobre a esposa dele, Jada Smith. A piada fazia referência a uma doença autoimune que Jada tem — a alopecia, que provoca calvície.

O clima esquentou e Will desferiu um golpe em Chris. O extremo do descontrole se revelou em forma de agressão: "Despertado o sentimento de raiva, em seguida, veio a reação. Will Smith percebeu que a esposa havia ficado chateada e aqueles pontos, nitidamente, mostraram-se doloridos para ela e para ele. Que tipo de gatilho foi acionado no ator? Só ele mesmo poderá identificar. Mas o tapa voou pelas redes sociais", avalia a psicóloga e especialista Shana Wajntraub.

Nesse caso, o lado mais instintivo prevaleceu. Mas segundo Ricardo, os lobos frontais, com o superego, estão aí para organizar informações e fazer o controle de pulsões. É aquele lado que indica que não é adequado brigar. Tanto é que Will, então, retoma a sanidade, faz uma autocrítica e pede desculpas à Academia.

"A reação agressiva não se explica somente pelo funcionamento das amígdalas cerebrais. O ator mostrou raiva e paixão, duas emoções ligadas a essas estruturas, mas há também o sentido do espírito social, que é a reação que a sociedade espera do macho quando se fala da mulher dele", acrescenta o médico.

As amígdalas cerebrais

São grupos de neurônios localizados nas profundidades do lobo temporal (lateral). São pequenas, têm forma de amêndoa e fazem parte do sistema límbico, processando as emoções.

Doenças relacionadas

- Epilepsia

- Um derrame ou lesão na área, como resultado de um outro problema, pode acabar modificando o comportamento do indivíduo

O sistema límbico

Conhecido como “cérebro emocional”, reúne estruturas reguladoras — entre elas, as amígdalas — da conduta e das emoções de um indivíduo. É o sistema relacionado a impulsos básicos, comportamentos emocionais e sexuais.

Resposta instintiva
Primeiro, nos ligamos à explosão que está dentro do sistema límbico e, só depois, partimos para o córtex pré-frontal, que é o lado racional, aquele que faz você repensar se deve mesmo agir como o lado mais instintivo sugeriu.

Estresse

O estresse cotidiano e a consequente produção do hormônio cortisol leva à ativação da amígdala. A depender dos fatores hormonais do dia a dia, como dormir mal ou comer mal, pode acabar em um problema crônico.

Raiva, medo, paixão, senso de autopreservação
Tudo isso está relacionado às amígdalas cerebrais. No caso da paixão, as amígdalas fazem as regiões críticas do cérebro ficarem mais apagadinhas (não se pensa racionalmente).

Memória
Quando o cansaço e o estresse reduzem a função das amígdalas, há efeito, inclusive, sobre a memória.

Palavra do especialista

As amígdalas cerebrais podem definir o comportamento social ou perfil de um indivíduo? Quer dizer, elas sozinhas são determinantes assim?

As amígdalas são, sim, uma das estruturas mais importantes nas respostas emocionais relativas ao comportamento social, tanto de humanos quanto de outros mamíferos. O que devemos ter em mente é que algumas pessoas terão menos freio do que outras e, portanto, vão apresentar personalidades mais explosivas e impulsivas. Ainda que algumas emoções sejam inatas e não consigamos eliminar de vez, o ideal é usar o lado racional e pensar antes de agir com raiva.

Will Smith agiu movido pela raiva. E como avaliar a reação (ou falta de reação) do comediante Chris Rock? O cérebro dele não "acionou" essa mesma emoção?

Will Smith, aparentemente, dá um sorriso social e, depois, reage com uma agressão física. Ou seja, a raiva foi para uma intensidade tão alta a ponto de ele não controlar a reação. Quando ele volta e se desculpa, sem justificar o ato ou diminuir a situação, mostra que tem um grau de inteligência emocional. Ele erra, pois é humano, mas volta assumindo o erro. Quanto a Chris Rock, é provável que ele tenha sentido a emoção da surpresa naquele momento, mas escolhido não revidar. Parece ter sido uma decisão consciente.

Do ponto de vista social, para o bom convívio, é como se fôssemos levados a controlar as emoções associadas às amígdalas cerebrais?

Sim. E esse processo de gestão das emoções dura a vida toda. Algumas estratégias são excelentes, como praticar mindfulness, fazer exercícios físicos regularmente, respirar em três segundos e soltar em sete segundos por três vezes (faz você pensar melhor!), cuidar do tripé sono-alimentação-hormônios, por aí vai.

Shana Wajntraub é psicóloga com MBA em Gestão de Pessoas pela Universidade Federal Fluminense, pós-graduada em neurociências pelo Mackenzie e mestranda em comunicação e análise de comportamento pela Manchester Metropolitan University- UK (Paul Ekman)

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