Cidade nossa

De pioneiros e piotários

Paulo Pestana - Especial para o Correio
postado em 24/04/2022 00:01
 (crédito: Maurenilson Freire)
(crédito: Maurenilson Freire)

Os muitos amigos que chegaram a Brasília ainda na fase que Vinicius de Moraes chamou de ermo guardam na memória a imensidão. Não era só o céu infinito; era a terra ampla, a perder de vista.

Parecia haver espaço para tudo, para todos. Mas o plano dos engravatados não era este; assim que terminassem a construção da nova capital, os candangos deveriam voltar para sua origem, a então Cidade Livre seria desmontada e os barnabés tomariam as repartições.

Os operários, no entanto, enxergaram um futuro diferente; assim como comerciantes e empreendedores que venderam tudo para apostar numa capital que integraria o Brasil.

E uma outra Brasília — sem gravata — surgiria a partir de uma insurreição popular. Centenas de pessoas ocuparam uma faixa de terra bem na frente da Cidade Livre, mais ou menos onde estão hoje os postos de combustível e os motéis.

Uma faixa anunciava que ali ficaria a Vila Sarah Kubistchek — o nome da primeira-dama, imaginavam, serviria de proteção. As autoridades foram ao local para tentar dispersar a multidão que procurava um local para erguer seus barracos, mas foram recebidas com protestos e uma artilharia — à falta de pedras — de torrões de terra ressecada.

Depois de muita conversa, os invasores aceitaram ocupar um loteamento piquetado mais distante dali. Com as 500 primeiras famílias do que seria a Vila, nascia Taguatinga, com nome herdado da fazenda que ficava no local. Transformaria-se na primeira e mais importante das antigas cidades-satélites — o adjetivo foi abandonado, substituído desde 1998 por denominação sem criatividade: regiões administrativas.

A criação das cidades que girariam em torno do Plano Piloto constava dos planos de Lucio Costa, mas seriam construídas apenas 10 anos depois da inauguração da capital. Mas o povo tinha pressa. E Taguatinga acabou inaugurada antes da nova capital.

Outras ocupações foram transferidas e a cidade cresceu. A organização inicial esbarrou no voluntarismo de muitos e na picaretagem de alguns. O mais notório 171 da época era um certo Dimas, que inaugurou a longa tradição de grileiros do Distrito Federal ao vender terrenos que nunca pertenceram a ele, fundando a Vila Dimas, na área sul da cidade.

Dimas Leopoldino da Silva foi preso várias vezes, mas sempre escapulia, graças a algum artifício — desde esse tempo, era difícil manter criminoso na cadeia. Não se soube mais dele, exceto pelo relato dos primeiros dias da capital que acaba de completar 62 anos.

Foi ele a inspiração para um grupo de espertalhões que falsifica documentos, usa força e trator e se aproveita da leniência de muitos governantes para enriquecer criando áreas habitacionais que, consolidadas e irreversíveis, são legalizadas. É um dos motivos que separam os dois primeiros grupos sociais de Brasília: os pioneiros e os piotários.

Os pioneiros, dizia-se, enriqueceram; os piotários cumpriram a lei. Pode nem ser assim, mas é fato que Taguatinga abrigou e desenvolveu os primeiros empreendedores, gente que contribuiu para transformar a capital administrativa numa cidade de verdade. Não seria exagero dizer que Taguatinga é a mãe de Brasília — só não sei dizer se isso é bom.

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