Especial

A potência do parto: Ryani Queiroz e Luiza Saldanha compartilham sua força

Neste Dia das Mães, conheça histórias de mulheres que, entre dores e alegrias, têm em comum a força para gerar, dar à luz e maternar, cada uma ao seu modo

Carolina Marcusse* e Letícia Mouhamad*
postado em 08/05/2022 09:54 / atualizado em 08/05/2022 10:02
 (crédito: Arquivo pessoal )
(crédito: Arquivo pessoal )

"Não fui protagonista do meu parto"


A bancária Ryani Queiroz, 31, foi mãe pela primeira vez aos 17 anos, quando passou por uma cesárea com indicações médicas concretas, devido a bradicardia fetal. Foi um período de susto e redescobertas. Ela relata que a chegada e a criação de Mateus foi feita da melhor forma possível no momento. Anos depois do nascimento do primogênito e em um casamento com amor e parceria, Ryani e o marido decidiram ampliar a família.

A descoberta da gravidez "foi uma alegria sem tamanho, trouxe um sopro de leveza e renovação para a nossa família", relembra a mãe. Com uma gestação tranquila, ela fez fisioterapia pélvica, manteve-se ativa e escolheu uma doula para acompanhá-la durante o processo. Não descartava a possibilidade de ter que realizar uma cesárea, se houvesse a indicação, pois desejava que sua filha nascesse bem, independentemente da forma.

Após a escolha de um hospital com boa fama de realização de partos normais, sentia-se tranquila e estava no estágio de preparação para o nascimento. No entanto, foi durante a festa de Natal, um pouco mais de um mês antes do previsto, que a grávida começou a perder líquido. Por via das dúvidas, decidiu ir para o hospital e, como a obstetra que a acompanhou durante o pré-natal estava viajando no período de festas, foi atendida pela plantonista.

Com a realização de alguns exames, foi identificada a bolsa rota, condição em que ocorre o rompimento da membrana amniótica antes de a gestante entrar em trabalho de parto. Para o caso, foi recomendada a internação. "A partir daí começou uma das piores experiências da minha vida. Hoje, depois de algum tempo, eu consigo digerir e entender o quanto a cultura cesarista fere tantas mulheres pelo Brasil e o quanto é difícil falar sobre isso e até buscar justiça pelos danos sofridos, porque eu mesma, até essa entrevista, me calei", afirma Ryani.

 

Ryani no  momento do  parto de Olívia
Ryani no momento do parto de Olívia (foto: AMANDA S SKEFF @amandaskeff)

A médica que a acompanhava desde o pré-natal sugeriu que ocorresse uma internação até pelo menos a 35ª semana, que seria mais segura para o parto normal. Apesar disso, a bancária descreve a postura da médica plantonista como "irredutível", que a conduziu para utilização de ocitocina sintética por 12 horas, o que poderia ter levado a graves consequências, como ruptura uterina, por exemplo.

A intervenção visando acelerar e acabar logo com o parto não levou em conta a vida da Olivia, filha de Ryani. "Se fosse tratada com o mínimo de humanidade, talvez teria sido possível evitar que minha filha nascesse precisando ser reanimada, dias de internação na UTI neonatal e todos os cuidados que um recém-nascido prematuro precisa", acredita.

"Não posso ser injusta em não relatar que o atendimento a minha filha foi impecável. A equipe de pediatria da UTI, dos médicos aos serviços gerais, foi perfeita no atendimento ao paciente e no acolhimento à família. Também tive apoio da Amanda, doula e fotógrafa, que conseguiu extrair daquele momento as poucas imagens que me trazem boas sensações", conta a bancária.

Hoje, avalia que foi exposta a uma conduta médica que a feriu física e psicologicamente, desde as falas desestimuladoras durante a madrugada, que afirmavam que ela não conseguiria ter o parto normal desejado até toques excessivos que a feriram. Além disso, não teve um acompanhamento adequado, como outras tentativas de induzir o parto, apenas a indução mecânica e a insistência de que a cesárea era o mais simples. "Não fui protagonista do meu parto", lamenta.

Apesar do momento triste, Ryani acredita que não deveria ter sido assim e recomenda às mulheres: "Não se calem. Busquem forças no seu parceiro, na sua família, na sua fé, mas não deixem que te tratem como só mais um número, que tratem o dom de trazer vida ao mundo como a montagem de um sanduíche fast food. A cesariana pode, sim, ser humanizada".

"Meu filho me dá forças"


O teste positivo trouxe para a sous chef Luiza Saldanha, 26, o diagnóstico de desespero. Sem estar em um relacionamento e sem contar com o apoio da família, a jovem soube desde o início que a gravidez seria uma caminhada de desafios. Como não tinha uma boa convivência com o pai do bebê, optou pela maternidade solo, o que alongou os conflitos, inclusive judicialmente, até depois do nascimento de Raví Saldanha, atualmente com 1 ano e 7 meses.

Luiza e Raví: dificuldades e alegrias de ser mãe solo
Luiza e Raví: dificuldades e alegrias de ser mãe solo (foto: Arquivo pessoal )

Além disso, a gestação foi difícil, cercada de dor e ansiedade, fatos que tornaram a aceitação da maternidade mais demorada, tanto que o vínculo com seu bebê só se intensificou, de verdade, a partir dos seis meses de vida dele. Com a rede de apoio enfraquecida, Luiza só não se sentiu mais solitária porque teve, desde o início, o apoio da doula Indira Santos, que fez todo o seu plano de parição e tornou-se amiga.

Foi no terreiro, depois de tomar as bênçãos dos Erês, que a bolsa rompeu. Lá, recebeu banhos, massagens e foi levada para casa. A doula ficou por conta dos chás e exercícios na bola, para auxiliarem nas contrações. A ida para o hospital só ocorreu quando as dores tornaram-se insuportáveis, mas, até lá, a chef teve todo o apoio humanizado que havia idealizado desde o começo da gestação.

O desejo pelo parto normal foi minado pela falta de dilatação, e na sala de cirurgia mais uma tensão: Luiza tinha pavor daquele ambiente. Reivindicou a presença da sua doula, a única a lhe acompanhar no momento do nascimento de Raví, e da sua mão não soltou até o choro do pequeno apossar-se do local. "Indira era a minha paz." Foi tudo rápido. A jovem não chorou, nem quis segurar o bebê.

No pós-parto, mais dificuldades. A amamentação exigiu paciência e resistência — os bicos dos seios ficaram em carne viva —, fazendo-a cogitar a interrupção. Depois do puerpério, a tristeza, a irritabilidade e a fadiga se mantiveram, apresentando-se como sintomas de depressão pós-parto que, segundo a jovem, não foi compreendida pelo pai da criança nem pelos familiares.

A necessidade de encontrar empregos esbarrou em inúmeras dores de cabeça. Para um sistema que raramente contrata mulheres grávidas e, mais ainda, mães solo, Luiza foi mais um número. Nas entrevistas, perguntavam-lhe com quem deixaria o filho, caso ele ficasse doente. Mas conseguiu um cargo de sous chef em uma confeitaria — a jovem é formada em gastronomia.

Com o trabalho, pôde contratar uma babá. Mas isso não diminuiu a exaustão, que há poucas semanas resultou em uma crise de pânico e ansiedade. Precisava dormir, descansar. Decidiu iniciar o processo de desmame, que tem corrido bem e melhorado aos poucos sua situação.

Para ela, as mães aguentam mais do que deveriam e se cobram além do possível. "Uma hora, não dá mais. A maternidade mexe com nossas cabeças, deveríamos ser cuidadas, receber mais atenção." Hoje, seu ciclo de amizades tem mais mães que antes e participa de grupos de mulheres que vivem a maternidade solo e compartilham suas histórias.

A conexão com Raví é imensa, tornando-o sua maior companhia. "Nunca achei que conseguiria amar tanto alguém assim; sinto saudades até quando ele está dormindo. Meu filho me dá forças", conclui.

Os desafios da depressão pós-parto 

Muito mais comum do que se imagina, a depressão pós-parto acomete cerca de vinte e cinco por cento das mulheres brasileiras, segundo pesquisa da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, associada à Fundação Oswaldo Cruz. Para a pesquisadora e psicóloga clínica da Secretaria de Saúde do DF Alessandra Arrais, esse adoecimento é, muitas vezes, mal compreendido pela sociedade.

“A depressão pós-parto não necessariamente tem a ver com a rejeição ao bebê, com a loucura, com essa mãe que vai machucar o filho. Não é isso. Infelizmente essa associação errônea prejudica a mulher a pedir ajuda”, explica. Casos mais graves e que ganham notoriedade normalmente têm relação com a psicose puerperal ou com distúrbios de caráter, bem menos recorrentes.

Se após cerca de um mês e meio ao puerpério, a mãe continuar sentindo-se muito triste, ansiosa e com medo, é preciso desconfiar de um possível adoecimento mais sério. Desmistificar o problema já é um bom início e, muitas vezes, na primeira consulta já há uma melhora significativa. A recomendação de Alessandra é oferecer à essa mãe mais ajuda e escuta do que dicas.

“Não seja invasivo. Respeite os limites da mulher e se mostre companheiro ou companheira. Cobre menos e apoie mais. A psicologia perinatal é especializada nessa fase”, frisa. Pedir ajuda não é um atestado de fracasso ou fraqueza; é algo necessário, especialmente porque a depressão pós-parto não tratada pode cronificar, podendo levar, na pior das hipóteses, ao suicídio materno e ao atraso neuromotor do bebê. “É preciso cuidar melhor das mães, com um olhar realmente interessado na mulher, não só interesseiro, com foco em sua barriga”, completa.

No que tange à psiquiatria, mulheres com histórico de ansiedade e depressão pregressa têm chance maior de desenvolver perturbações do humor após o parto, sobretudo se a doença durante a gestação não foi tratada corretamente. Além disso, já existem evidências significativas que mostram que a genética está envolvida nestes transtornos mentais. Nathália Arruda, psiquiatra da Clínica Humanizar, lembra que a mulher gestante ou lactante não pode usar qualquer medicação psicotrópica.

“Muitas vezes, quando o quadro é de leve a moderado optamos por implementar apenas o tratamento não farmacológico com psicoterapia e atividade física regular. Entretanto, muitas mulheres não têm a opção de ficar sem a medicação, ou porque não melhoram com o tratamento não farmacológico ou simplesmente porque o quadro é grave e gera muito sofrimento, prejuízo da qualidade de vida e/ou risco de vida com pensamentos de morte e ideação suicida”, esclarece. Neste último caso, é preciso lançar mão de medicações que possuem evidências de segurança nessa fase tanto para a mãe quanto para o bebê.

 

  • Projeto autoriza mudança do nome de recém nascido até 45 dias após o registro.
    Projeto autoriza mudança do nome de recém nascido até 45 dias após o registro. Foto: Carol Resende - Entre Pela Janela
  • Ryani no 
momento do 
parto de Olívia
    Ryani no momento do parto de Olívia Foto: AMANDA S SKEFF @amandaskeff
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