Bichos

Eles nos entendem? Veja o que a ciência diz sobre a inteligência animal

Muitos animais resolvem problemas complexos, aprendem com a experiência e demonstram notável comunicação e empatia, desafiando a ideia da superioridade intelectual humana

Bruna e Frederic com os dois filhos e os animais da casa: 12 cães, quatro gatos, uma porca e um bode -  (crédito: Arquivo pessoal)
Bruna e Frederic com os dois filhos e os animais da casa: 12 cães, quatro gatos, uma porca e um bode - (crédito: Arquivo pessoal)
postado em 29/10/2023 10:00

Ao cumprimentar os cães, pedimos a patinha e eles a oferecem com entusiasmo. Dizemos deita e eles rolam no chão; pedimos senta e obedecem prontamente. Mas o que mais esses leais amigos entendem? Como decifram emoções no ar, quando palavras não são ditas? Como é que, muitas vezes, parecem ler nossas mentes?

Em um mundo repleto de comunicação não verbal, os animais continuam a surpreender com suas habilidades perceptivas. Há estudos que ajudam a desvendar os mistérios da inteligência animal, explorando como os queridos companheiros não apenas seguem os comandos, mas também sintonizam-se com sentimentos mais profundos de seus donos.

A conexão que vai além das barreiras da linguagem humana é a profunda harmonia dos laços afetivos entre humanos e animais, evidenciando-se à medida que compartilham suas vidas. Eduardo Bessa, professor de zoologia na UnB, campus de Planaltina, apresenta a hipótese predominante na pesquisa sobre inteligência animal: a do cérebro social.

"Essa teoria sugere que espécies altamente sociais tendem a ser mais inteligentes, pois a convivência em sociedade exige a capacidade de recordar interações passadas, identificar parceiros confiáveis e reconhecer favores. Se essa hipótese estiver correta, os cães, descendentes de lobos com estruturas sociais organizadas e hierarquias estabelecidas, poderiam ser considerados mais inteligentes do que os gatos selvagens, que têm uma vida social menos estruturada", detalha.

Bessa destaca que a definição de inteligência é debatida, e muitos cientistas preferem o termo "cognição" em comportamento animal. "Há indicadores de inteligência em animais, como teoria da mente, organização de símbolos e planejamento. Cães e gatos demonstram algumas dessas habilidades; por exemplo, estudos mostram que cães podem ler expressões faciais humanas."

Segundo o professor, isso demonstra que, ao observar nossos rostos, eles podem discernir nossas emoções, reconhecendo se estamos felizes, zangados, assustados ou enjoados. "Essa habilidade de ler a mente é algo que praticamos constantemente, mas sua existência formal entre animais só foi reconhecida recentemente na ciência", afirma.

É comprovado!

Para a ciência, os cães demonstram uma inteligência sofisticada. É o que sugere Stanley Coren, especialista em comportamento animal da Universidade da Colúmbia Britânica, que publicou o livro A inteligência dos cães. Nessa obra, ele argumentou que existem diferenças na inteligência entre diversas raças de cachorros, usando a facilidade de adestramento como critério para classificá-las.

No entanto, seu livro também indica que cientistas estão descobrindo que a inteligência dos cães vai além da facilidade de adestramento, sugerindo que há mais aspectos a serem considerados na compreensão da inteligência canina.

A inteligência geral, um experimento com 68 border collies, dos psicólogos Rosalind Arden e Mark Adams, ou fator "g", concluiu que o bom desempenho em uma tarefa está relacionado a um bom desempenho em outras, sugerindo uma inteligência adaptável e multifacetada dos peludos, assim como a boa interpretação do sentimento do tutor, não descartando a descoberta do tipo de memória que permita o animal reconhecer a si próprio.

Mais que demais!


Bruna Timponi, 35 anos, é nutricionista e, ao lado do marido, o empresário Frederic Sainty, 36, formou uma grande família, incluindo dois filhos: Caio, com 1 ano e 9 meses, e Clara, com 4 meses. Além disso, compartilham seu lar com uma variada coleção de animais de estimação, que inclui 12 cachorros, quatro gatos, uma porca e um bode.

"A maioria dos nossos cães foram resgatados das ruas ou abandonados em nossa porta. Olívia, a porca, foi um presente surpresa para o meu marido, e nosso bode, Bento, apareceu na casa da minha sogra e resolvemos ficar com ele. Criar diferentes espécies de animais é um desafio que aceitamos devido ao nosso amor por eles. No entanto, criar porcos é particularmente exigente devido à personalidade forte e às necessidades especiais de espaço. É importante destacar que não é uma tarefa para todos."

Seus animais de estimação exibem notáveis características, incluindo o reconhecimento da rotina e a capacidade de responder a seus nomes. "Os cães buscam agradar, enquanto a porca Olívia demonstra inteligência, especialmente ao buscar comida. Bento, o bode, já demonstra uma inclinação para imitar o comportamento de outros animais, independentemente de sua espécie", compartilha Bruna.

No que diz respeito às crianças, Bruna ressalta que os cães conseguem distinguir bebês/crianças de adultos, agindo com delicadeza e paciência. Além disso, eles têm a capacidade de alertar em situações de perigo, como quando um dos cachorros caiu na piscina.

A nutricionista também destaca a inteligência da porca Olívia, que aprendeu a abrir portões para pet desde os 45 dias de vida e também adquiriu comandos observando os cães, sempre motivada por recompensas alimentares.

Em relação à interação com animais, Bruna enfatiza: "É importante o treinamento de comandos, o enriquecimento do ambiente com brinquedos e a realização de passeios para expor os animais a novas experiências e estímulos".

O papel do adestramento


"Cães demonstram notável inteligência, lendo expressões e antecipando ações, e o adestramento personalizado é essencial para atender necessidades específicas de cães e tutores. Enfatizo ensinar tutores a entender seus pets, considerando raça e estilo de vida. Minha abordagem vai além do adestramento, incorporando interação com pessoas e adaptação a cenários variados."

Wisney Dias Furtado é adestrador e tratador de cães com experiência com os cães da Receita Federal (aeroporto) e no canil da Polícia Federal. Formou-se como adestrador de cães de guerra no Batalhão de Polícia do Exército de Brasília.

Felinos

Já os gatos, com sua reputação de independência, há muito surpreendem seus tutores com táticas inteligentes para conseguirem o que desejam. A cientista Karen McComb, da Universidade de Sussex (Inglaterra), lançou luz sobre um dos comportamentos intrigantes dos felinos: o miado estridente que, mais do que uma súplica, parece um apelo dramático.

A pesquisa de McComb revelou que esse miado intenso não é uma característica universal entre todos os gatos, mas sim um comportamento desenvolvido por aqueles que vivem em casas com humanos. E qual é o propósito desse "miado histérico"? A resposta é simples e surpreendente: os gatos aprenderam que esse tipo de vocalização específica é eficaz para obter o que desejam, seja comida fresca, seja água da torneira.

Ao longo do tempo, os gatos domesticados perceberam que o miado que soa como um choro de criança pequena desperta a atenção das pessoas e, consequentemente, os humanos cedem aos seus desejos. Essa pesquisa ilustra a capacidade de adaptação e de aprendizado dos gatos, que usam sua inteligência para manipular sutilmente seus tutores. Portanto, da próxima vez que seu gato soltar um miado dramático, lembre-se de que, na mente astuta dele, está a perfeita compreensão de como conseguir o que deseja.

 

 

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

 

Gostou da matéria? Escolha como acompanhar as principais notícias do Correio:
Ícone do whatsapp
Ícone do telegram

Dê a sua opinião! O Correio tem um espaço na edição impressa para publicar a opinião dos leitores pelo e-mail sredat.df@dabr.com.br

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação