De baixa transmissão e com tratamento disponível, mas cercada de medo e estigmas, a hanseníase, também conhecida como lepra ou doença de Lázaro, é uma enfermidade infecciosa crônica causada pela bactéria Mycobacterium leprae, que ataca pela pele e pelos nervos periféricos — estruturas responsáveis pela sensibilidade e pela força muscular. Apesar de ser conhecida há séculos e ainda cercada de preconceitos, hoje a condição tem tratamento eficaz, gratuito e disponível pelo SUS.
A dermatologista Lúcia Helena Sampaio, do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, explica que, embora seja contagiosa, a hanseníase não é altamente transmissível. A infecção ocorre, principalmente, pelas vias respiratórias, após contato próximo e prolongado com uma pessoa que ainda não iniciou o tratamento. A médica explica também que é possível contrair a infecção mais de uma vez, se houver uma exposição prolongada ou o abandono da terapia.
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
Os sintomas costumam surgir de forma lenta e podem passar despercebidos por meses ou até anos. Manchas na pele com alteração ou perda de sensibilidade, dormência, formigamento e diminuição da força em mãos e pés estão entre os sinais mais comuns. Em fases avançadas, a inflamação dos nervos pode levar a feridas, deformidades físicas e limitações funcionais, muitas vezes irreversíveis quando o tratamento é tardio.
O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado no exame da pele e dos nervos periféricos, podendo ser complementado por exames como baciloscopia ou biópsia. O tratamento é feito com poliquimioterapia (PQT), padrão para hanseníase, que combina os antibióticos rifampicina, clofazimina e dapsona para curar a doença, evitar resistência medicamentosa e interromper a transmissão. Dura de seis a 18 meses, dependendo da forma da doença, e promove a cura quando seguido corretamente. Além de interromper a transmissão, o início rápido da terapia evita sequelas e melhora significativamente a qualidade de vida.
No Brasil, a hanseníase é considerada um problema de saúde pública, estando entre os países com maior número de casos no mundo. E apesar de já ser muito conhecida, e com tratamentos disponíveis, essa enfermidade ainda é marcada pelo preconceito, fruto da desinformação histórica. Dar visibilidade ao tema é fundamental para derrubar mitos, estimular a busca por atendimento aos primeiros sinais e reforçar que a doença tem cura. Informação, diagnóstico precoce e acesso ao tratamento seguem sendo as principais ferramentas para reduzir casos, sequelas e o estigma que ainda acompanha a doença.
Principais sintomas
-
Manchas na pele (claras, avermelhadas ou acastanhadas)
-
Perda ou diminuição da sensibilidade ao toque, dor ou calor
-
Dormência, formigamento ou fraqueza em mãos e pés
-
Espessamento de nervos
-
Queda de pelos e diminuição do suor nas áreas afetadas
-
Em casos avançados: feridas, deformidades e infecções secundárias
Causa
A causa da hanseníase é a infecção pelo Mycobacterium leprae, uma bactéria que afeta principalmente pessoas suscetíveis (imunossuprimidos, pessoas que vivem com o vírus do HIV), já que a maioria da população possui imunidade natural, ou seja, capacidade do organismo de se defender contra o microrganismo sem adoecer.
Diagnóstico
-
Avaliação das lesões de pele
-
Teste de sensibilidade
-
Exame dos nervos periféricos
-
Baciloscopia
-
Biópsia de pele
Partes do corpo afetadas
-
Pele
-
Nervos periféricos (principalmente mãos, pés e face)
-
Olhos
-
Nariz e mucosas
Transmissão
A transmissão ocorre principalmente por vias respiratórias, após contato próximo e prolongado com uma pessoa não tratada, mas não sendo altamente transmissível. Após iniciar o tratamento, o paciente deixa de transmitir a doença.
Tratamento
O tratamento é feito com a Poliquimioterapia (PQT), fornecida gratuitamente pelo SUS.
-
Duração: dependendo do tipo da doença
-
É eficaz, segura e cura a hanseníase
-
Paucibacilar de seis a nove meses
-
Multibacilar de 12 a 18 meses
Manifestações da doença
-
Paucibacilar: até cinco lesões cutâneas (manchas) e/ou um tronco nervoso afetado, com poucos ou nenhum bacilo (baciloscopia negativa); baixa transmissão.
-
Multibacilar: seis ou mais lesões na pele e/ou dois ou mais troncos nervosos afetados, ou baciloscopia positiva (muitos bacilos); transmissão elevada, especialmente sem tratamento.
Grupos e fatores de risco
-
Contato domiciliar com pessoa não tratada
-
Condições socioeconômicas precárias
-
Ambientes com aglomeração
-
Baixa imunidade
-
Acesso limitado aos serviços de saúde
Métodos de prevenção
-
Diagnóstico e tratamento precoce
-
Avaliação de contatos próximos (busca ativa de contactantes)
-
Vacina BCG (oferece proteção parcial)
-
Informação e combate ao preconceito
Sequelas ou sintomas de longa duração
Ocorrem especialmente quando o diagnóstico é tardio:
-
Perda definitiva de sensibilidade
-
Deformidades físicas
-
Dificuldades funcionais
-
Impacto psicológico e social
Palavra do especialista
Existe muito preconceito acerca dessa doença? Por quê?
Sim, ainda existe muito preconceito em relação à hanseníase, em grande parte devido ao estigma histórico associado à doença, quando não havia tratamento e os pacientes eram isolados. Esse estigma persiste por desinformação, apesar de hoje ser uma condição curável e com baixa transmissibilidade quando tratada.
Por que é preferível que o diagnóstico seja o mais cedo possível?
Podem ocorrer sequelas quando o diagnóstico é tardio, incluindo perda permanente de sensibilidade, deformidades em mãos e pés e limitações funcionais, que impactam a qualidade de vida e a capacidade de trabalho do paciente. O diagnóstico precoce é fundamental porque permite iniciar o tratamento antes que ocorram lesões irreversíveis nos nervos, reduzindo o risco de sequelas, incapacidades físicas e também a cadeia de transmissão da doença na comunidade.
É importante conscientizar e dar visibilidade? Por quê?
A conscientização e a visibilidade são essenciais para combater o preconceito, estimular a procura precoce por atendimento de saúde e reforçar que a hanseníase tem cura, sendo uma estratégia central tanto para a proteção do indivíduo quanto para o controle da doença como problema de saúde pública. A hanseníase ainda é uma doença negligenciada e relativamente comum em alguns países, incluindo o Brasil, que figura entre os países com maior número de casos no mundo; apesar disso, trata-se de uma doença em declínio progressivo quando há políticas eficazes de vigilância e tratamento.
Henrique Valle Lacerda é infectologista do Hospital Brasília, da Rede Américas
*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte
