O avanço do endividamento das famílias brasileiras recolocou os juros bancários no centro do debate sobre consumo, crédito e inadimplência. Entre as dívidas mais comuns aparecem cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal e prestações de carro e casa.
Em março de 2026, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), apontou que 80,4% das famílias tinham dívidas a vencer, 29,6% estavam com contas em atraso e 12,3% declaravam não ter condições de quitar esses débitos.
Na mesma direção, o mapa mais recente da Serasa mostra 81,7 milhões de brasileiros inadimplentes, com mais de 332 milhões de dívidas em aberto e valor médio de R$ 6.598,13 por consumidor. O peso maior continua concentrado em débitos com bancos e cartões, além de contas básicas e financeiras.
O custo do crédito ajuda a explicar esse cenário. Dados divulgados pelo Banco Central e reportados pela Agência Brasil mostram que, em fevereiro de 2026, a taxa média do cartão de crédito rotativo chegou a 435,9% ao ano, enquanto o cartão parcelado foi a 200,2% ao ano. No mesmo período, a taxa média do crédito livre para pessoa física ficou em 62% ao ano.
Custo real da dívida e análise jurídica
Para o advogado tributarista e especialista em finanças Bruno Medeiros Durão, o consumidor precisa ir além da análise superficial da parcela mensal. “Muitas vezes, a percepção de abuso não está apenas no número que aparece no boleto, mas no custo total da operação. Quando o contrato embute encargos excessivos, seguros, tarifas e sucessivas renegociações, a dívida pode crescer muito além do que o consumidor imaginava no momento da contratação”, afirma.
Segundo o especialista, a discussão jurídica exige critério técnico. “Nem toda taxa elevada será automaticamente considerada abusiva, mas isso não significa que o consumidor esteja sem proteção. O ponto central é verificar se houve transparência, se os encargos são compatíveis com a modalidade contratada e se o custo final se afasta de forma injustificada dos parâmetros de mercado”, diz.
Como identificar e contestar juros abusivos
A seguir, veja como identificar e contestar juros abusivos em contratos bancários:
1. Verifique a taxa mensal e anual prevista no contrato
O primeiro passo é localizar a taxa efetivamente contratada. Sem essa informação, o consumidor fica preso ao valor da parcela e perde a noção do impacto total da dívida.
2. Analise o Custo Efetivo Total da operação
O CET revela o peso completo do contrato, incluindo juros, seguros, tarifas e demais encargos. Em muitos casos, é nele que aparece o verdadeiro desequilíbrio da operação.
3. Compare a cobrança com a modalidade correta de crédito
Empréstimo pessoal, cheque especial, consignado, financiamento e cartão de crédito têm naturezas distintas. A análise só é válida quando feita dentro da categoria contratada.
4. Desconfie de dívidas que aumentam mesmo com pagamentos regulares
Quando o saldo devedor segue crescendo de forma desproporcional, mesmo após parcelas pagas ou renegociações, há sinal de alerta para encargos excessivos ou refinanciamentos ruins.
5. Exija clareza sobre tarifas, seguros e encargos adicionais
Informação incompleta ou pouco transparente é um ponto recorrente de conflito. O consumidor precisa saber exatamente o que está pagando e por quê.
6. Guarde contrato, extratos, faturas e comprovantes
A documentação é decisiva para eventual contestação administrativa ou judicial. Sem prova, a revisão do contrato se torna mais difícil.
7. Evite renegociar no impulso
Renegociações feitas sob pressão podem consolidar uma dívida já elevada e adicionar novas camadas de custo, em vez de resolver o problema.
8. Redobre a atenção com o cartão de crédito
Como o rotativo segue em patamar extremamente elevado, o cartão continua entre as principais portas de entrada para o superendividamento.
9. Busque análise técnica antes de concluir que a cobrança é normal
Nem sempre o abuso aparece de forma explícita. Em muitos contratos, o problema está no conjunto dos encargos e na estrutura da operação.
10. Não espere a inadimplência se agravar para reagir
Com o país em nível recorde de endividamento, revisar cedo um contrato problemático pode evitar restrições de crédito, novas renegociações desvantajosas e crescimento acelerado da dívida.
Endividamento em alta exige atenção redobrada
Na avaliação de especialistas, o avanço do endividamento e o peso crescente do crédito caro tornam ainda mais importante a leitura cuidadosa dos contratos bancários, especialmente em operações que envolvem cartão de crédito, empréstimo pessoal e renegociações sucessivas.
“Em um ambiente de crédito caro e inadimplência elevada, o consumidor precisa desenvolver uma leitura mais estratégica do contrato bancário. Identificar juros abusivos não depende apenas de achar a taxa alta, mas de entender o custo total da operação, a transparência da contratação e a coerência daquela cobrança com a modalidade de crédito utilizada”, conclui Bruno Medeiros Durão.
Por Thainara Martins
