Saúde

Infertilidade masculina: saiba como estilo de vida compromete o caso

Estilo de vida e baixa qualidade do sêmen afetam diretamente a esterilidade do homem. O fator masculino representa, aproximadamente, 50% dos casos de infertilidade conjugal

A infertilidade masculina tem se tornado uma preocupação crescente para a saúde reprodutiva. Estudos realizados nas últimas décadas apontam uma queda progressiva na qualidade dos espermatozoides em diversas regiões do mundo, cenário associado a fatores como sedentarismo, obesidade, estresse, má alimentação, consumo de álcool, tabagismo e até uso indiscriminado de anabolizantes. Apesar disso, o tema ainda é cercado por tabus e desinformação, fazendo com que muitos homens demorem a procurar ajuda médica.

Ao contrário do que muitos imaginam, infertilidade masculina não significa apenas ausência de espermatozoides. Alterações na quantidade, movimentação, morfologia e até qualidade genética dessas células também podem dificultar a gestação. Segundo o urologista e coordenador do Departamento de Andrologia da Sociedade Brasileira de Urologia, Gustavo Paul Marquesine, a infertilidade deve ser entendida dentro do contexto do casal. “Hoje, sabemos que o fator masculino participa de aproximadamente metade dos casos de infertilidade conjugal”, explica.

A investigação costuma começar quando o casal não consegue engravidar após 12 meses de relações frequentes sem métodos contraceptivos. Nos casos em que a mulher tem mais de 35 anos, o período de investigação normalmente é reduzido para cerca de seis meses. Entre as principais causas da infertilidade masculina estão a varicocele — considerada a principal causa tratável da condição —, alterações hormonais, infecções, fatores genéticos e hábitos de vida inadequados.

Além das questões físicas, especialistas alertam para o impacto da rotina moderna sobre a saúde reprodutiva masculina. O estresse crônico, a privação de sono e a piora da qualidade alimentar têm influência direta na produção dos espermatozoides. Isso porque a formação dessas células leva cerca de 70 a 80 dias e depende de um equilíbrio delicado entre fatores hormonais, metabólicos e emocionais. “Qualquer agressão metabólica, hormonal ou ambiental pode comprometer esse processo”, afirma.

A infertilidade masculina também pode funcionar como um indicativo de outros problemas de saúde. Distúrbios hormonais, como alterações na tireoide, podem interferir diretamente na produção hormonal e na qualidade dos espermatozoides. Doenças cardiovasculares e metabólicas também entram no radar, já que fatores como obesidade, hipertensão, sedentarismo e diabetes impactam tanto a circulação sanguínea quanto o funcionamento hormonal do organismo. Por isso, médicos reforçam que investigar a infertilidade masculina vai além da tentativa de engravidar, sendo também uma oportunidade de avaliar a saúde geral do homem de forma mais ampla.

Principais causas

Varicocele (varizes no escroto)
Distúrbios hormonais
Infecções
Fatores genéticos
Obstruções anatômicas

Estilo de vida

Estresse (aumento do cortisol interfere na produção de esperma)
Privação de sono
Sedentarismo
Má alimentação e ingestão de ultraprocessados
Obesidade
Uso excessivo de álcool e de cigarro
Anabolizantes
Exposição a poluição e substâncias químicas
Excesso de calor na região íntima

Sinais de alerta

Baixa libido
Disfunção erétil
Infecções sexualmente transmissíveis
Cirurgias e/ou traumas na região genital

Saúde emocional

Pressão social (virilidade)
Ansiedade durante as tentativas de gravidez
Queda de autoestima (pode desencadear inseguranças)
Impactos no relacionamento

Exames

Espermograma
Avaliação hormonal
Ultrassonografia de bolsa escrotal
Teste de fragmentação de DNA espermático
Exames genéticos
Urinálise pós-ejaculatória


Reversão

Segundo o geneticista Paulo Zattar, mudanças no estilo de vida, tratamentos hormonais, cirurgias e técnicas de reprodução assistida têm ampliado significativamente as chances de homens inférteis conseguirem ter filhos. Para Zattar, os avanços da medicina de precisão e da investigação genética masculina têm permitido diagnósticos mais específicos e tratamentos cada vez mais personalizados — procedimentos como fertilização in vitro e técnicas de recuperação espermática.

Palavra do especialista

Em quais situações a reposição hormonal masculina é realmente recomendada?

A reposição hormonal masculina é recomendada principalmente para homens com diagnóstico confirmado de hipogonadismo, uma condição em que o organismo não produz testosterona em níveis adequados. Nesses casos, é comum observar sintomas como queda da libido, fadiga, perda de massa muscular, alterações de humor, dificuldade de concentração e até redução da densidade óssea. O tratamento não deve ser indicado apenas com base na idade ou em sintomas isolados, mas sim após uma avaliação clínica e laboratorial criteriosa.

De que forma funciona a reposição hormonal e quais são os principais tipos de tratamento disponíveis atualmente?

A reposição hormonal funciona restaurando os níveis adequados de testosterona no organismo, buscando melhorar sintomas e qualidade de vida. Atualmente, existem diferentes formas de tratamento, como aplicações intramusculares, géis transdérmicos, adesivos e implantes hormonais. A escolha depende do perfil do paciente, da rotina, dos objetivos terapêuticos e da resposta clínica. O acompanhamento médico contínuo é fundamental para ajustar doses e monitorar possíveis efeitos adversos.

Existem casos em que apenas a reposição hormonal não é suficiente para resolver os sintomas ou restaurar a fertilidade? O que costuma ser avaliado nessas situações?

Existem situações em que apenas a reposição hormonal não é suficiente para resolver os sintomas ou restaurar a fertilidade. Nesses casos, investigamos outros fatores associados, como alterações testiculares, causas genéticas, varicocele, doenças metabólicas, distúrbios da tireoide, apneia do sono e até aspectos emocionais. Quando o foco é fertilidade, também avaliamos exames como espermograma e, muitas vezes, trabalhamos de forma integrada com especialistas em reprodução humana.

Fernanda Parra é médica formada pela Universidade Cidade de São Paulo (Unicid), com pós-graduação em endocrinologia e metabologia.

 

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