A trombofilia costuma aparecer de forma silenciosa, mas o organismo dá sinais de que algo não vai bem. E os seus efeitos podem ser graves. O cirurgião vascular Herik Oliveira explica que a condição aumenta a tendência de formação de coágulos no sangue e pode desencadear episódios de trombose venosa, embolia pulmonar, AVC e até complicações na gestação.
Embora muitas pessoas associem a trombofilia apenas a casos hereditários, os especialistas alertam que ela também pode ser adquirida ao longo da vida. Gravidez, uso de anticoncepcionais hormonais, tabagismo, obesidade, câncer e doenças inflamatórias estão entre os fatores que elevam os riscos. Segundo o clínico geral Lucas Albanaz, as causas podem ser genéticas, adquiridas ou mistas, enquanto Herik destaca que fatores hormonais e doenças autoimunes também alteram a coagulação e favorecem a formação de trombos.
O desafio é que, na maioria dos casos, a trombofilia não apresenta sintomas claros até que uma complicação aconteça. Dor e inchaço nas pernas, falta de ar súbita, dor no peito e alterações neurológicas podem ser alguns dos sinais de alerta. "A trombofilia em si, muitas vezes, não dá sintomas. Os sinais aparecem quando há trombose", afirma Albanaz. O cirurgião reforça ainda que muitas pessoas convivem anos com a condição sem saber, descobrindo o diagnóstico apenas após um episódio trombótico ou durante investigações por perdas gestacionais recorrentes.
Além das complicações cardiovasculares, a trombofilia chama atenção pelo impacto na saúde feminina e gestacional. Abortos de repetição, pré-eclâmpsia, restrição de crescimento fetal e partos prematuros podem estar relacionados à condição, principalmente quando ela não é identificada precocemente. Segundo Lucas, a gravidez já provoca naturalmente um aumento da coagulação como mecanismo de proteção do organismo, o que intensifica os riscos em pacientes predispostas.
Diante desse cenário, especialistas reforçam a importância da investigação médica individualizada, especialmente em pessoas com histórico familiar, tromboses em idade jovem ou perdas gestacionais recorrentes. Embora o termo tenha se popularizado nos últimos anos, o diagnóstico inadequado e a automedicação ainda preocupam. "Anticoagulante usado sem indicação pode causar sangramentos graves", destaca Albanaz.
Apesar do susto que o diagnóstico costuma causar, médicos ressaltam que a trombofilia não significa, necessariamente, que a pessoa desenvolverá trombose. O acompanhamento adequado, mudanças no estilo de vida e, em alguns casos, o uso preventivo de medicamentos ajudam a reduzir os riscos. O cirurgião vascular reforça que a informação correta e investigação individualizada são fundamentais para evitar tanto complicações graves quanto tratamentos desnecessários.
O que é?
Trombofilia é uma alteração no sistema de coagulação do sangue que aumenta a propensão do organismo a formar coágulos (trombos). Ela não é considerada uma doença em si, mas, sim, um fator de risco que eleva a probabilidade de desenvolver trombose venosa profunda ou embolia pulmonar.
Tipos de trombofilia
- Hereditárias (genéticas): causadas por alterações nos genes herdados dos pais. Exemplos incluem a mutação do Fator V de Leiden e a deficiência de proteínas anticoagulantes naturais (como Proteínas C e S).
- Adquiridas: desenvolvidas ao longo da vida, geralmente associadas a outras condições médicas (como câncer e obesidade), uso de medicamentos (como anticoncepcionais hormonais) ou doenças autoimunes, como a síndrome do anticorpo antifosfolípide (SAAF).
Sinais e sintomas
A trombofilia em si é uma condição silenciosa e não apresenta sintomas. Os sinais só aparecem quando ocorrem complicações decorrentes da formação de coágulos, como trombose ou embolia pulmonar.
Os principais sinais de alerta exigem atenção médica imediata:
- Trombose Venosa Profunda (TVP)
- Inchaço, geralmente em apenas uma das pernas (ou braço)
- Dor e sensação de peso ou aperto no local
- Vermelhidão e aumento da temperatura na região
- Embolia Pulmonar (EP)
- Falta de ar repentina
- Dor no peito que piora ao respirar fundo
- Tosse (que pode conter sangue) e tontura
- Na Gravidez
- Abortos de repetição ou óbito fetal
- Pré-eclâmpsia precoce ou crescimento fetal restrito
Diagnóstico e Tratamento
- Diagnóstico: feito por meio de testes específicos e exames de sangue, geralmente solicitados por um hematologista ou um obstetra após histórico familiar ou episódios prévios de trombose.
- Tratamento: o acompanhamento é focado na prevenção. Pode envolver mudanças no estilo de vida (como manter-se ativo e evitar o tabagismo) e o uso preventivo de medicamentos anticoagulantes, especialmente em situações de risco elevado, como longas viagens ou cirurgias. Em gestantes, medicamentos como a heparina podem ser indicados.
Grupos de risco
- Pessoas com trombose prévia
- Histórico familiar
- Gestantes e puérperas
- Usuários de estrogênio
- Pessoas com câncer e obesidade
- Usuários de tabaco
- Cirurgias recentes e internação
- Imobilização prolongada
- Idade avançada
Fatores de risco
- Uso de hormônios: anticoncepcionais orais combinados e terapia de reposição hormonal
- Gravidez e pós-parto: a gestação é um estado natural de hipercoagulabilidade; mulheres com trombofilia têm risco aumentado de pré-eclâmpsia, aborto e restrição de crescimento fetal
- Imobilização: longos períodos de repouso (como viagens de avião prolongadas ou pós-operatórios) que reduzem o fluxo sanguíneo
- Sedentarismo: a falta de atividade física regular prejudica a circulação, diminui o tônus muscular, que auxilia no retorno do sangue e está diretamente ligada ao sobrepeso, que também pressiona as veias
- Hábitos de risco: Obesidade, tabagismo e envelhecimento
Palavra do especialista
Quando uma pessoa deve procurar ajuda médica para investigar o problema?
Deve procurar ajuda diante de trombose sem causa clara, trombose antes dos 50 anos, eventos repetidos, trombose em local incomum, parente de primeiro grau com trombose jovem, perdas gestacionais recorrentes ou antes de usar estrogênio se houver forte histórico familiar.
Qual a importância da informação correta para evitar automedicação com anticoagulantes?
Anticoagulante usado sem indicação pode causar sangramentos graves, anemia, sangramento cerebral e complicações em cirurgias ou gravidez. A informação correta evita tanto o medo excessivo quanto o uso perigoso de remédios sem necessidade.
Há diferença entre trombofilia arterial e venosa? Como isso muda o acompanhamento?
A trombofilia venosa se relaciona mais a trombose nas pernas e embolia pulmonar. A arterial se relaciona a AVC, infarto e tromboses em artérias, sendo a síndrome antifosfolípide uma causa importante. Isso muda os exames, o especialista envolvido e, muitas vezes, o tipo e a duração do tratamento.
Lucas Albanaz é clínico geral, diretor Clínico do Hospital Santa Lúcia Gama e doutor em ciências médicas
