O amor na era digital está entrando em uma nova fase. Se nos últimos anos os aplicativos de relacionamento transformaram a forma como as pessoas se conhecem, agora a inteligência artificial começa a ocupar mais um espaço nas conversas sobre afeto, intimidade e companhia.
Esse tipo de fenômeno tem chamado a atenção de pesquisadores e plataformas de relacionamento e ganhou um nome para o conceito: digissexualidade.
O termo surgiu em estudos dos pesquisadores Neil McArthur e Markie Twist para descrever experiências afetivas e sexuais mediadas pela tecnologia. Em uma forma mais ampla, o conceito inclui pessoas que utilizam recursos digitais como parte importante de sua vida íntima. Em casos mais extremos, a tecnologia pode se tornar o principal meio de conexão emocional e sexual daquele indivíduo.
Embora o termo tenha surgido antes da generalização da inteligência artificial, o avanço dos chatbots e assistentes virtuais deu uma nova dimensão ao tema.
Quando a IA deixa de ser apenas ferramenta
Uma das tendências identificadas por plataformas de relacionamento para 2026 é o chamado “AI situationship”. A expressão descreve vínculos emocionais construídos com inteligências artificiais, não necessariamente como substitutas de relacionamentos humanos, mas como espaços de conversa, acolhimento e experimentação emocional.
Aplicativos de IA capazes de manter diálogos longos e personalizados vêm sendo usados por pessoas que desejam praticar conversas difíceis, falar sobre sentimentos ou simplesmente encontrar companhia em momentos de solidão.
Segundo pesquisa da Universidade de Manitoba, cerca de 17% dos jovens adultos já relataram ter estabelecido algum tipo de vínculo emocional com sistemas de IA, seja em aplicativos de conversa ou em experiências de realidade virtual.
Essa ascensão da inteligência artificial acontece em paralelo a outra mudança observada nos aplicativos de relacionamento.
Relatórios divulgados por plataformas como Happn indicam que os usuários estão cada vez mais cansados de sinais confusos, jogos emocionais e relacionamentos indefinidos. A tendência para 2026 é a busca por conversas mais diretas, expectativas claras e disponibilidade emocional.
Em vez de esconder intenções, muitos usuários passaram a informar logo no perfil o que procuram. Namoro sério, encontros casuais ou apenas novas amizades. A ideia é reduzir frustrações e tornar as relações mais transparentes.
Curiosamente, a inteligência artificial aparece como aliada nesse processo. Ferramentas capazes de sugerir descrições para perfis, selecionar fotos e até indicar atividades para encontros já começam a fazer parte da experiência de muitos usuários.
A digissexualidade ainda é um tema em construção e cercado por dúvidas. A inteligência artificial não é apenas uma ferramenta de produtividade, ela passou a ocupar espaço nas emoções, nos afetos e nas relações humanas. O desafio das pesquisas é entender até onde essa presença da IA pode chegar nas relações e até como ela vai mediar a forma de amar nas próximas décadas.
*Estagiária sob supervisão de Aline Gouveia
