Em silêncio, os rins trabalham continuamente para filtrar o sangue, eliminar substâncias que o organismo não precisa e ajudar a controlar o equilíbrio de líquidos, sais minerais e outras funções importantes. Quando essa capacidade é comprometida de forma progressiva, porém, o corpo pode acumular toxinas e líquidos. Em casos mais avançados da doença renal crônica (DRC), pode chegar o momento em que os rins já não conseguem desempenhar suas funções adequadamente, e a diálise se torna necessária.
Embora muitas vezes associada apenas à velhice, a perda da função renal pode estar relacionada a diferentes condições. Diabetes, hipertensão, obesidade e doenças cardiovasculares estão entre os principais fatores associados. Outros fatores também podem aumentar o risco, como histórico familiar de DRC, doenças renais prévias, episódios de lesão renal aguda, tabagismo e uso frequente de medicamentos potencialmente nefrotóxicos. O problema é que, como a DRC costuma evoluir de maneira silenciosa, muitos pacientes só descobrem a perda da função dos rins quando o quadro já está avançado.
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Segundo André Pimentel, médico nefrologista e diretor médico da Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT), os dados mais recentes do Observatório Nacional dos Dados da Diálise contabilizavam 170.868 pessoas em tratamento de hemodiálise no Brasil em dezembro de 2025, além de 9.569 pacientes em diálise peritoneal. Entre 2024 e 2025, houve crescimento de 9,2% no número de pacientes em hemodiálise e de 3,8% na diálise peritoneal.
Diagnóstico
O diagnóstico precoce é um dos principais desafios. Para acompanhar a saúde dos rins, o rastreamento deve incluir a dosagem de creatinina, com estimativa da taxa de filtração glomerular (TFG), e avaliação da relação creatinina/albumina no exame de urina. A alteração deve ser acompanhada para confirmar se a perda da função é persistente. Diabéticos, hipertensos, pessoas com idade avançada, obesidade, doença cardiovascular, histórico familiar de DRC ou doenças renais prévias devem ter acompanhamento mais próximo.
Quando a diálise é necessária
A decisão de iniciar a diálise não deve ser tomada exclusivamente a partir da creatinina ou da taxa de filtração glomerular. Em geral, o tratamento passa a ser considerado quando a doença provoca manifestações urêmicas ou complicações que não respondem ao tratamento clínico. Entre elas estão o aumento persistente do potássio no sangue, acidose metabólica, excesso de líquidos no organismo, edema pulmonar, hipertensão não controlável, perda progressiva do estado nutricional, náuseas e vômitos persistentes, alterações cognitivas e pericardite, além de sintomas incapacitantes. Ainda assim, a decisão precisa ser individualizada e compartilhada com o paciente.
Hemodiálise ou diálise peritoneal?
Existem duas modalidades principais de diálise. Na hemodiálise, o sangue passa por uma máquina e por um filtro, responsável por remover toxinas e o excesso de líquido. Geralmente realizada em uma clínica, a terapia costuma ocorrer cerca de três vezes por semana, em sessões de aproximadamente quatro horas. Para isso, é necessário um acesso vascular, como uma fístula arteriovenosa ou um cateter.
Já na diálise peritoneal, o próprio peritônio, membrana que reveste internamente o abdome, funciona como filtro. Por meio de um cateter abdominal, uma solução de diálise é colocada e posteriormente drenada, levando consigo toxinas e líquidos acumulados. As trocas podem ser feitas manualmente durante o dia ou por meio de uma máquina, chamada cicladora, geralmente durante o sono.
“A escolha considera indicação clínica, função residual dos rins, condições vasculares e abdominais, risco de infecção, capacidade de autocuidado, suporte familiar, moradia, rotina de trabalho, preferência do paciente e disponibilidade local”, explica André Pimentel.
Acesso ao tratamento
Apesar de a diálise ser essencial para milhares de brasileiros, chegar ao tratamento pode ser mais difícil dependendo da região onde o paciente vive. Entre os obstáculos estão a distribuição desigual dos serviços, a necessidade de deslocamentos longos, a escassez de nefrologistas e equipes especializadas e as dificuldades de financiamento e manutenção das clínicas.
Impacto na rotina
Na hemodiálise, os horários fixos e os deslocamentos até a clínica passam a fazer parte da rotina, além de restrições relacionadas a líquidos e alimentação. Na diálise peritoneal, o tratamento é feito diariamente e exige armazenamento de materiais, autocuidado e atenção rigorosa ao cateter.
Também podem aparecer efeitos físicos, como fadiga, cãibras, hipotensão, anemia, coceira, alterações do sono, dor e redução da capacidade funcional. Ansiedade, depressão, medo da dependência e preocupação com a morte também podem fazer parte do processo de adaptação.
Socialmente, o tratamento pode interferir no trabalho, na renda, na sexualidade, nas relações familiares, na mobilidade e na participação comunitária. Por isso, Pimentel defende uma abordagem que envolva, além do nefrologista, profissionais de psicologia, nutrição, fisioterapia e assistência social, assim como o planejamento para transplante ou cuidados conservadores quando indicados.
Diálise em casa
Embora tanto a hemodiálise quanto a diálise peritoneal possam ser realizadas em casa, a segunda é a modalidade domiciliar mais estabelecida no Brasil. Na hemodiálise domiciliar, o princípio é o mesmo do tratamento feito em clínicas: o sangue passa por uma máquina e por um filtro. No Brasil, a modalidade ocorre predominantemente de forma assistida, com um profissional de saúde acompanhando o tratamento no domicílio.
Na diálise peritoneal, depois do treinamento, o próprio paciente ou um cuidador pode realizar as trocas em casa. “Diferentemente da hemodiálise, não é necessário acessar a circulação sanguínea a cada tratamento, o que facilita a realização da terapia pelo próprio paciente ou por um cuidador”, explica Fernanda Oliveira Coelho, médica nefrologista e diretora médica regional da DaVita Tratamento Renal.
Tecnologia
Nas últimas décadas, os equipamentos utilizados na diálise passaram por mudanças significativas. Hoje, máquinas modernas monitoram parâmetros como pressão, fluxo sanguíneo, temperatura e composição do líquido de diálise, além de contar com sistemas capazes de detectar a presença de ar e possíveis perdas de sangue.
O controle mais preciso da retirada de líquidos e da temperatura durante as sessões também pode contribuir para diminuir intercorrências, como quedas da pressão arterial. Dialisadores de alto fluxo aumentam a eficiência da remoção de determinadas toxinas. Entre os avanços mais recentes está a hemodiafiltração on-line, que combina diferentes mecanismos de remoção de toxinas.
O futuro do tratamento
Se hoje a prioridade é tornar a diálise mais segura e eficiente, os próximos anos podem trazer equipamentos menores e mais integrados à rotina. Entre as tecnologias em desenvolvimento estão sistemas portáteis e vestíveis, que buscam reduzir o tamanho dos aparelhos e dar maior liberdade ao paciente.
Uma das possibilidades para isso é a reutilização do líquido de diálise, reduzindo a necessidade dos grandes volumes de água utilizados pelos equipamentos convencionais. Em um horizonte mais distante, estão os rins bioartificiais implantáveis, que combinam sistemas de filtração com células renais vivas para tentar reproduzir algumas funções que a diálise convencional não consegue substituir.
Palavra do especialista
A diálise domiciliar pode ampliar o acesso e dar mais autonomia ao paciente?
A diálise domiciliar pode reduzir deslocamentos frequentes até uma clínica e, dependendo da modalidade, proporcionar maior autonomia e flexibilidade ao paciente. Tanto a hemodiálise quanto a diálise peritoneal podem ser realizadas no domicílio, mas existem diferenças importantes entre elas e na forma como são oferecidas no Brasil.
Existem equipamentos ou técnicas que tornam as sessões de hemodiálise mais eficientes ou menos desgastantes para o paciente?
Hoje já existem tecnologias que buscam não apenas aumentar a eficiência da hemodiálise, mas também tornar as sessões mais seguras e mais bem toleradas. Máquinas modernas permitem controlar com maior precisão a retirada de líquidos, a temperatura e outros parâmetros durante o tratamento, o que pode ajudar a reduzir intercorrências como quedas de pressão e cãibras.
Qual é o maior desafio do tratamento?
Em um tratamento crônico, como a diálise, inovação só se traduz plenamente em melhora do cuidado quando vem acompanhada de acesso. Esse é um desafio especialmente relevante em um país como o Brasil, com grandes diferenças regionais e diferentes formas de financiamento da assistência à saúde.
Fernanda Oliveira Coelho, médica nefrologista e diretora médica regional da DaVita Tratamento Renal
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