O Réveillon no Nordeste brasileiro voltou a colocar a região no centro das atenções nacionais — não apenas pelas festas grandiosas, praias lotadas e shows de grandes artistas, mas também por uma sequência de episódios que evidenciaram problemas recorrentes na falta de planejamento turístico e overturismo. O casal que foi agredido em Porto de Galinhas/ PE, congestionamento na fila da balsa de Porto Seguro para Arraial d’Ajuda, facções criminosas instaladas em pequenos destinos de praia, brigas generalizadas, preços considerados abusivos, trânsito caótico e sobrecarga da infraestrutura urbana marcaram a virada do ano em alguns dos destinos mais procurados do país.
Imagens de confusões em festas públicas e privadas circularam amplamente nas redes sociais antes mesmo do dia 31/12, enquanto turistas relataram dificuldades de mobilidade, longas horas em congestionamentos e falhas em serviços básicos como limpeza urbana, transporte público e segurança. Em paralelo, o aumento expressivo nos preços de hospedagem, alimentação e serviços turísticos gerou críticas e reacendeu o debate sobre práticas pouco sustentáveis no setor e a relação custo x benefício.
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O Nordeste é, historicamente, um dos principais polos turísticos do Brasil no segmento sol e praia, especialmente durante o verão e as festas de fim de ano. Destinos como Porto de Galinhas, Porto Seguro e seus distritos de Trancoso, Arraial d’Ajuda e Caraíva, Alagoas, Praia da Pipa e tantos outros, recebem milhares de visitantes em um curto espaço de tempo. No entanto, o crescimento da demanda nem sempre é acompanhado por investimentos estruturais, planejamento integrado e governança turística eficaz.
O problema não é necessariamente o volume de turistas, mas a forma como ele é gerenciado. A ausência de planos de contingência, estudos de capacidade de carga e estratégias de ordenamento urbano contribuem para a repetição de cenários de caos, especialmente em períodos de alta temporada. O resultado é um impacto negativo não apenas na experiência do visitante, mas também na qualidade de vida dos moradores locais.
Outro ponto sensível é a escalada de preços no período do Réveillon. Embora a alta temporada naturalmente gere reajustes em qualquer lugar do mundo, muitos turistas percebem valores considerados desproporcionais, sem correspondência na qualidade dos serviços oferecidos ou produtos comercializados. É o caso de um dos vídeos que circulam nas redes sociais, que mostram um turista estrangeiro sendo cobrado em R$185,00 por duas cervejas e uma água de côco. Essa prática, além de afetar a imagem do destino, pode comprometer a fidelização do visitante e estimular a busca por alternativas nacionais e internacionais mais competitivas.
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O turismo contemporâneo exige mais do que grandes eventos e festas populares. Tendências globais apontam para a necessidade de um modelo baseado em planejamento de longo prazo, turismo responsável e gestão integrada entre poder público, iniciativa privada e comunidade local. Sem essa articulação, os impactos negativos tendem a se intensificar, especialmente em destinos que já enfrentam desafios urbanos estruturais.
Apesar das críticas, o Réveillon 2025/2026 também reforçou o enorme potencial turístico do Nordeste. A diversidade cultural, a gastronomia e os cenários naturais continuam sendo grandes atrativos. No entanto, para que esse potencial se converta em desenvolvimento sustentável e não receita momentânea, é fundamental investir em políticas públicas consistentes, qualificação profissional, fiscalização e uso inteligente de dados turísticos.
A repetição dos mesmos problemas a cada temporada de verão indica que o debate precisa avançar para além das manchetes pontuais. Planejamento turístico não deve ser tratado como gasto, mas como investimento estratégico se o destina pensa o turismo como alternativa de desenvolvimento social e econômico. Destinos que conseguem equilibrar fluxo turístico, infraestrutura e bem-estar social tendem a se posicionar melhor no mercado, atrair visitantes mais conscientes e fortalecer sua imagem a longo prazo.
O Réveillon no Nordeste segue sendo um dos mais desejados do Brasil. A pergunta que permanece é: até quando o sucesso em números continuará sendo celebrado sem uma reflexão profunda sobre seus impactos e limites?
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