Literatura

Praga e O Segredo Final, de Dan Brown

Em novo romance, o autor de Código da Vinci e outros best-sellers mistura ação, simbolismo e turismo literário por alguns dos cenários mais emblemáticos da capital tcheca.

Praga e O Segredo Final, de Dan Brown (Foto: falco/ Pixabay )

Já é clichê dizer que ler nos faz viajar sem sair do lugar, mas obras como O Segredo Final (Editora Arqueiro, 2025) levam isso a outro nível. O mais recente lançamento do best-seller Dan Brown, autor de O Código Da Vinci, é um thriller ambientado em Praga, capital da República Tcheca, cidade que carrega séculos de história, mistério e simbolismo. Para quem não conhece Praga, como eu não conheço, ao mesmo tempo entreten, informa e nos faz colocar a cidade na lista de futuras viagens.

Um mapa da cidade com pontos importantes destacados abre o livro, e já no começo da história Dan Brown conduz o leitor por ruas antigas, praças e edifícios que revelam a convivência entre passado medieval e modernidade, estabelecendo o clima de urgência e de mistério que marca toda a trama. Assim, há cenas importantes na Torre Petrin, construção de 1891 que se inspirou na Torre Eiffel e é o ponto de observação mais alto da cidade; no Parque Letná, com sua vista privilegiada sobre o rio Moldava e o centro histórico; no Labirinto dos Espelhos, com salas que distorcem a imagem e uma sala final com um diorama da Batalha de Praga. A perseguição no Labirinto dos Espelhos, aliás, é uma das cenas clichês de livros e filmes de ação que o romance faz questão de contemplar.

LEIA TAMBÉM: As casas de Pablo Neruda em Valparaíso, Santiago e Isla Negra

Outros espaços, como o Castelo de Praga e o Relógio Astronômico de Praga, não são cenários de uma grande cena de ação, mas suas presenças simbólicas dialogam diretamente com a trama. O belo relógio instalado na fachada da Prefeitura da Cidade Velha desde o século XV, sintetiza como poucos símbolos a obsessão humana por medir o tempo, decifrar o cosmos e atribuir sentido ao invisível — temas centrais em O Segredo Final. Em sua complexa combinação de astronomia, matemática, símbolos zodiacais e figuras alegóricas da morte e da passagem da vida, o relógio encarna a tensão entre ciência e transcendência que atravessa o romance. Já o Castelo de Praga, um dos maiores complexos palacianos do mundo e sede histórica do poder político da Boêmia, surge como representação da continuidade do poder ao longo dos séculos. Construído no longínquo ano de 870, foi sendo ampliado, reformado e reconstruído ao longo de mais de mil anos, incorporando estilos românico, gótico, renascentista e barroco e tornando-se o tipo de lugar ideal para guardar segredos que atravessam regimes, ideologias e crenças — exatamente o tipo de segredo que move a trama do livro.

Foto: Lenka Libertová/ Pixabay

Para amantes de livros, destaque para a cena na Biblioteca do Klementinum. O complexo de mesmo nome é o segundo maior complexo de prédios históricos na capital tcheca, atrás apenas do Castelo. Sua biblioteca, inaugurada em 1722, reúne cerca de 20 mil volumes, muitos deles obras raras de teologia, filosofia, astronomia e ciências naturais, além de globos terrestres e celestes originais do século XVIII, que reforçam a conexão entre saber científico e visão cosmológica. Impressiona pelo salão barroco ricamente decorado, com afrescos no teto que exaltam o conhecimento, a ciência e as artes.

Kafka e A Metamorfose também são citados no thriller, afinal o autor tcheco passou quase toda sua vida no país, e sua obra se tornou um símbolo do peso do Estado e da burocracia na vida dos cidadãos, da sensação de alienação diante de sistemas impessoais e opressores, e da angústia existencial provocada por forças invisíveis que controlam o destino humano — temas que dialogam diretamente com a atmosfera de O Segredo Final, em que indivíduos se veem confrontados por instituições poderosas, segredos ocultos e perguntas que ultrapassam os limites da razão.

Até a sede da Embaixada dos Estados Unidos no país, o Palácio Schönborn, ganha destaque no tour que o romance nos proporciona. Construído no século XVIII como residência aristocrática, o edifício acabou atravessando um dos períodos mais sombrios da Europa quando a Tchecoslováquia foi ocupada pela Alemanha nazista, em 1939. Aqui vale chamar a atenção como a obra mistura ficção com realidade. Embora no início o autor nos diga que todas as obras de arte, artefatos, símbolos, documentos, experimentos, tecnologias e organizações citados no livro sejam reais, há menção de símbolos nazistas presentes nos objetivos do Palácio Schönborn, que teriam sido catalogados pelo regime, mas as fontes oficiais não o listam como um edifício que exiba intencionalmente tal iconografia.

Imagem tirada de https://www.bbc.com/news/blogs-news-from-elsewhere-41735261

Mas é no Bunker Folimanka, localizado abaixo do Parque Folimanka, que se dá o clímax da história. O bunker é um extenso labirinto de corredores e câmaras construído durante a Guerra Fria e concebido como um abrigo para civis em caso de conflito nuclear. Com mais de 1300 m², foi construído secretamente na década de 1950 e permaneceu secreto durante décadas, tornando-se palco de diversas teorias da conspiração sobre o que de fato havia no local. O duto de ventilação do espaço, localizado no Parque, tornou-se uma instalação de arte urbana criada por artistas de rua anônimos que homenageia o icônico robô de Star Wars R2-D2, e também ganha destaque na obra de Dan Brown.

Sobre Praga

A capital da República Tcheca é uma das cidades mais importantes da Europa Central, conhecida por sua arquitetura preservada, que vai do românico ao gótico, do barroco ao art nouveau. Praga foi, ao longo dos séculos, centro político, cultural e intelectual, especialmente durante o Sacro Império Romano-Germânico.

Foto: Visit Tczech

Sua história é marcada por conflitos religiosos, avanços científicos, períodos de dominação estrangeira e uma forte tradição ligada à alquimia e ao pensamento esotérico, sobretudo no reinado do imperador Rodolfo II (1576 a 1612).

LEIA TAMBÉM: O dia em que visitei o quarto de Fernando Pessoa

Durante a Guerra Fria, Praga esteve sob o domínio do bloco socialista, experiência que deixou marcas profundas na cidade e em sua população, tanto na arquitetura quanto na memória coletiva. Hoje, o turismo é um dos pilares da economia local, atraindo milhões de visitantes interessados não apenas em castelos, pontes e relógios famosos, mas também na atmosfera única de uma cidade onde o passado parece constantemente dialogar com o presente.

Sobre O Segredo Final

Com ritmo narrativo impressionante, O Segredo Final é um thriller de muita ação e pouco suspense. As temáticas escolhidas por Dan Brown lidam com questões profundas e universais, sempre acompanhadas de inúmeras citações científicas, filosóficas e históricas, fruto de um trabalho de pesquisa inegavelmente bem executado. Aqui, o tema central é a consciência — ou, mais especificamente, a possibilidade de a consciência sobreviver à morte, ou seja, a ideia de vida após a morte.

A trama inevitavelmente alimenta teorias da conspiração, sobretudo para leitores que têm dificuldade em separar realidade de ficção, confusão que o próprio autor faz questão de estimular, como deixa claro no aviso inicial do livro. Um dos tantos clichês a que o livro se rende, clichês que se tornam cansativos para leitores experimentados – especialmente se você chegar ao final da história.

No fim das contas, O Segredo Final funciona melhor como livro de viagens por Praga do que propriamente como literatura. Não que o livro não prenda, assim como outros do autor. Dan Brown traz de volta nesta história o simbologista Robert Langdon, o maniqueísmo absoluto (os bons são muito bons e sempre bons, os maus são sempre maus), certa previsibilidade estrutural e muita ação, acrescentando desta vez pitadas de misticismo e reflexões sobre ciência e espiritualidade.

Quer conhecer mais sobre minhas viagens e outros projetos? Me siga no Instagram @marcelospalding

Siga o @portaluaiturismo no Instagram e no TikTok @uai.turismo

Mais Lidas