Penso, analiso, reflito, mas não tem jeito, há algo de quase ritualístico na forma como o brasileiro se relaciona com o período de férias. Não é apenas uma pausa no calendário ou uma brecha entre compromissos profissionais, chega a ser um estado de espírito.
É uma espécie de licença poética coletiva para viver o tempo de outro jeito, mais solto, mais solar, mais próximo daquilo que, ao longo do ano, fica represado entre despertadores, planilhas, boletos, cansaço e relógios apressados.
Quando as férias se anunciam, o país inteiro parece mudar de marcha. Para mim, a referência de pausa, é a segunda quinzena de dezembro.
E é assim que funciona, o verão potencializa esse sentimento. Ele chega sem pedir licença, com seus dias longos, calor insistente e uma promessa silenciosa de liberdade, apesar da chuvinha, as vezes chata, que chega junto com ele.
Verão é o tempo do corpo exposto, da roupa leve, do chinelo que vira quase uniforme oficial e da agenda liberada para o improviso. O verão no Brasil não é um mero acaso climático. Se observarmos bem, a estação se consolida como um comportamento social e talvez por isso ele dialogue tão diretamente com o desejo coletivo de movimento, deslocamento e fuga da rotina.
É nesse contexto que se dá um dos fenômenos mais curiosos do nosso calendário, aliás, as redes sociais, que agora fazem parte da nossa rotina, ilustraram muito bem este fenômeno este ano, falo da invasão, quase épica, do litoral brasileiro por uma população que, durante todo o ano, vive distante do mar.
São milhões de pessoas vindas dos interiores, das serras, dos cerrados, das cidades sem sal na brisa e sem horizonte azul. Gente que não tem praia no quintal, mas que carrega no imaginário a ideia de que, diante do mar, a vida fica mais leve e os problemas parecem menores.
Como mineiro que sou, posso assegurar, que nossa rotina é cercada por morros, montanhas e vales sempre muito verdes. Um dos hinos que homenageiam a minha cidade, começa ilustrando e confirmando este contexto, “entre serras engastadas és um lar”, por isso, vislumbrar o horizonte praiano, azul e celeste é sempre uma expectativa!
No entanto, para enxergarmos essas belezas, precisamos enfrentar as rodovias, que neste período se transformam em rios humanos. Carros abarrotados, malas improvisadas, pranchas amarradas no teto, coolers disputando espaço com crianças sonolentas e adultos ansiosos.
O destino é quase sempre o mesmo, a linha onde a terra termina e o mar começa. É ali, que o brasileiro do interior encontra algo que vai além do lazer, é praticamente um símbolo. A praia representa um prêmio, um descanso merecido, um cenário onde tudo parece possível, ainda que por poucos dias.
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E quando finalmente se chega à areia quente, o encantamento é imediato. O som das ondas, o cheiro de protetor solar misturado ao sal, o comércio ambulante que nunca dorme, a música alta e muitas vezes de mau gosto, que se espalha sem pedir autorização. A praia brasileira é democrática, caótica, barulhenta, profundamente humana e neste ano se mostrou também safada e briguenta, pelo menos foi isso que a imprensa nos mostrou!
As praias são espaços onde o anonimato é relativo e onde, curiosamente, todos parecem iguais diante do mar, independentemente da origem, do sotaque ou da renda. Mas o verão não se resume ao deslocamento geográfico, ele também provoca deslocamentos simbólicos e um deles é a relação quase obsessiva com o corpo.
À medida que o calendário avança em direção ao carnaval, instala-se um outro fenômeno nacional, a preparação do “shape”. Academias lotadas, dietas que começam sempre “na segunda-feira”, promessas de transformação corporal e uma corrida silenciosa em busca da melhor versão de si mesmo, ainda que temporária.
Nesse culto à forma física, vejo uma mistura de vaidade, humor e autoengano tipicamente brasileira e não me isento desta ilusão. O corpo vira projeto de verão! Nem sempre, um projeto necessariamente saudável, não raramente apressado, mas quase sempre carregado de expectativa, afinal, o carnaval se aproxima como uma vitrine coletiva, onde o corpo fala antes das palavras.
O Carnaval, e quando a estética ganha protagonismo e as formas corporais se tornam parte do espetáculo social. Os festejos de Momo, nesse sentido, funcionam como um grande palco. Seja nos blocos de rua, nos trios elétricos, nos desfiles ou nas festas privadas, o corpo está no centro da experiência.
Os corpos dançam, suam, brilham, ocupam espaços e se expõem sem grandes pudores. Há algo de libertador nisso, mas também de exigente, afinal, o verão cobra presença física, disposição e, sobretudo, uma certa coragem de existir à vista de todos.
Esse movimento todo, do interior para o litoral, do sofá para a academia, da rotina para a festa, não acontece sem impactos, pelo contrário, ele movimenta de forma intensa as cadeias produtivas do turismo e da cultura.
Hotéis lotam, pousadas improvisam, bares e restaurantes ampliam turnos, vendedores ambulantes, artesãos e tantos outros autônomos encontram no verão a principal fonte de renda do ano. O dinheiro circula com mais velocidade, gera empregos temporários e aquece economias locais que dependem quase exclusivamente dessa sazonalidade.
Essa rotina econômica nós já conhecemos, mas é muito importante chamarmos atenção para este lado de todo esse processo e movimento das massas. Movimento de gente, está diretamente ligada a movimentação financeira, geração de divisas e de oportunidades, isso é inegável.
Dificuldades aparecem? Claro, os desafios surgem. O aumento do fluxo pressiona serviços públicos, encarece preços, gera conflitos urbanos, amplia a produção de resíduos e expõe fragilidades estruturais de muitos destinos turísticos.
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Estamos na era ESG, sustentabilidade a toda prova! O verão brasileiro é generoso, mas também exige planejamento, responsabilidade e equilíbrio para que os ganhos não sejam anulados pelos custos sociais e ambientais.
Ainda assim, é impossível negar nosso fascínio. Nós brasileiros nos reconhecemos nesse movimento. Nós precisamos do verão como precisamos de fôlego. É um tanto complexo, ao mesmo tempo que precisamos da praia como metáfora de descanso, temos o carnaval como catarse coletiva, do corpo como expressão de alegria e pertencimento.
Entre exageros, contradições e improvisos, seguimos repetindo esse ritual ano após ano, como se nele estivesse guardada uma parte essencial da nossa identidade e eu acho que está mesmo. Talvez porque, no fundo, o verão nos lembra que viver também é isso, ocupar espaços, celebrar encontros, movimentar economias, expor fragilidades e, sobretudo, permitir-se, ainda que por alguns dias, ser menos cálculo e mais sensibilidade.
É nessa mistura de calor, gente, música e mar que o Brasil, mais uma vez, se encontra consigo mesmo. Que assim seja! Para os que podem partir para o litoral, boa viagem!
Este ano eu não fui contemplado com esta agenda praiana, fiquei mesmo entre as montanhas mineiras, mas não tem problema, em breve dou meu jeito e dou uma volta pelo litoral!
E fica o lembrete, o Carnaval este ano chega mais cedo! Fique atento e até a próxima!
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