Cultura

O Ano Novo no Brasil dos feriados

Entenda como os feriados prolongados de 2026 ampliam o aumento de fluxo turístico e os impactos positivos na cultura e no turismo, mas abrem brechas para os desafios enfrentados por comércio, indústria e serviços.

O Ano Novo no Brasil dos feriados (Foto: Stefan Schweihofer/ Pixabay)

Para hoje, ouso refletir sobre a previsão dos feriados nacionais em 2026 e os impactos, positivos pelo lado das cadeias produtivas do turismo e da cultura e negativos por parte das empresas, do comércio e da indústria, todos reféns dos possíveis períodos prolongados que virão.

A intenção é apresentar aqui, um panorama geral, com um comparativo de aumento de fluxo, nas regiões brasileiras, considerando partes do calendário como o verão, semana santa, festas juninas, mês do folclore, calendários religiosos e até mesmo o Natal.

Entramos em 2026 com um calendário de feriados nacionais que, para além de marcar datas no papel, organiza o ritmo real do país. A verdade é que o calendário mexe com a vida das famílias, com o planejamento de viagens, com a agenda cultural das cidades e, ao mesmo tempo, pressiona a produtividade de empresas que operam no limite da logística, do prazo e do caixa.

Novembro entra no jogo e muda a lógica do ano

A novidade é que, com a consolidação do dia 20 de novembro como feriado nacional, por meio da Lei Nº14.759 de dezembro de 2023, o tabuleiro fica ainda mais interessante para quem vende experiência e ainda mais desafiador para quem depende de linhas contínuas de produção, abastecimento e entrega.

Em outras palavras, o Brasil entra no ano com um cenário perfeito para o turismo e para a cultura surfarem ondas de consumo, mas também com um conjunto de “soluços” no calendário que podem custar caro à indústria e ao comércio tradicional quando não há planejamento mais refinado.

Pelo recorte oficial do Governo Federal, teremos dez feriados nacionais em 2026, segundo o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, além de pontos facultativos que, na prática, viram termômetros de “emenda” e estimulam deslocamentos em massa.

O calendário divulgado pelo órgão oficial lista, como feriados nacionais, 1º de janeiro, 3 de abril, 21 de abril, 1º de maio, 7 de setembro, 12 de outubro, 2 de novembro, 15 de novembro, 20 de novembro e 25 de dezembro.

No mesmo documento, aparecem como pontos facultativos o Carnaval em 16 e 17 de fevereiro, a Quarta Feira de Cinzas até 14 horas em 18 de fevereiro, o dia 20 de abril, Corpus Christi em 4 de junho e o dia 5 de junho, além das vésperas de Natal e Ano Novo.  

Esse conjunto merece consideração porque, mesmo quando a regra não alcança automaticamente o setor privado, ela influencia decisões de órgãos públicos, escolas, repartições, parte do varejo e serviços, alterando fluxo urbano e comportamento de consumo, afetando diretamente a população.

Feriados prolongados e a cultura das escapadas

Quando olhamos para os feriados em 2026 pelo ângulo dos “prolongamentos”, fica claro porque o tema sempre volta à mesa no início do ano. Com a tradição de que “o ano só começa depois do Carnaval”, o aperto começa a ser percebido. Com mais quarenta dias e já teremos a Paixão de Cristo, que cai numa sexta-feira, em 3 de abril, e o Dia do Trabalho, que também cai em uma sexta feira, em 1º de maio.

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Isso cria dois finais de semana naturalmente prolongados, sem precisar de articulações ou criatividade do trabalhador, e ao mesmo tempo, joga combustível em um tipo de viagem muito típico do nosso país, as escapadas curtas, feitas de carro, regionalmente, dentro do próprio estado, com foco em praia, serra, circuito histórico, gastronomia e eventos.

Some a isso o 7 de setembro numa segunda feira, Finados em 2 de novembro numa segunda feira, e o calendário desenha mais oportunidades objetivas para deslocamentos de 3 dias, o que é excelente para hotelaria, bares e restaurantes, atrativos turísticos, transporte rodoviário e aéreo, guias, artesanato e toda a economia criativa que se encaixa em um feriado.

A formalização do 20 de novembro como feriado nacional, reforça um movimento que já vinha crescendo de forma desigual pelo país, com estados e municípios tratando a data como feriado local. Agora, com alcance nacional, a data tende a estimular programações culturais, eventos identitários, festivais e iniciativas de educação patrimonial e memória, ao mesmo tempo em que adiciona mais um dia de interrupção potencial na rotina produtiva anual. Nos últimos 2 anos, já experimentamos essa sensação.

Na prática, para turismo e para a cultura, é uma oportunidade de construir temporada em novembro além do eixo tradicional de “Black Friday e compras”, com roteiros afro centrados, programação artística e fortalecimento do calendário de cidades que têm patrimônios e narrativas potentes, neste segmento, cada vez mais crescente e com vasto amparo em bases históricas, econômicas e sociais.

Quando os feriados viram negócios

O lado positivo, para as cadeias produtivas do turismo e da cultura, é quase intuitivo, mas merece ser dito com clareza, feriado é janela de tempo e, no Brasil, janela de tempo vira deslocamento.

A engrenagem gira porque o consumo turístico, sabidamente, é uma cadeia longa e pulverizada, já que começa no combustível ou na passagem, passa pela hospedagem, alimenta a gastronomia, deságua em compras de lembranças, ativa guias e receptivos, sustenta eventos e espetáculos, lota museus e centros históricos, e ainda incentiva trabalhadores informais que só garantem o mês quando as cidades enchem.

Mesmo quando o destino é gratuito, como uma festa religiosa de rua ou um grande evento popular, as cidades monetizam por meio de serviços e comércio nos entornos, e o que parecia só folga, vira circulação positiva de renda.

No Verão, a alta temporada não depende do calendário

No verão, esse efeito costuma ser mais forte e mais longo porque não depende apenas de feriados. Ele se soma às férias escolares e ao imaginário nacional do calor, da praia e da rua. Recentemente, nas últimas semanas, já falei sobre isso.

Há estimativas de entidades do comércio e turismo apontando o verão como período de pico, com faturamento expressivo concentrado entre dezembro e fevereiro, além de leituras que colocam as férias de verão como um pedaço enorme da receita anual do setor, reflexo do tempo disponível, do clima e do desejo de viagem.

Nessa época, o comparativo regional tende a favorecer o Nordeste e parte do Sudeste litorâneo, com forte atração para Bahia, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Alagoas, enquanto o Rio de Janeiro mantém papel de vitrine emblemática e figurando como o principal receptor de turismo nacional e internacional.

A região Sul entra com força em praias de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, e o Norte ganha protagonismo em rotas de natureza e cultura, além de destinos urbanos que crescem quando há grandes eventos e feriados bem-posicionados.

Semana Santa com fé, patrimônio e deslocamento

Inegavelmente, a Semana Santa será outro ponto alto, e em 2026 ela cai num recorte muito estratégico, com a Sexta Feira Santa em 3 de abril. Mesmo sem listar aqui cada tradição local, a lógica é conhecida e já explorada nesta coluna em outras oportunidades, ou seja, cidades históricas e destinos de turismo religioso e cultural ganham densidade, porque a data reúne significado, ritual, deslocamento familiar e programação pública.

Minas Gerais, por exemplo, costuma concentrar um tipo de fluxo que mistura fé e patrimônio, com atenção especial ao barroco, às encenações, aos concertos e aos circuitos gastronômicos de interior neste período, com destaque para Congonhas do Campo, Mariana sede da mais tradicional Arquidiocese e claro, Ouro Preto, destino âncora no estado.

No Nordeste, parte do fluxo se redistribui entre litoral e interior, e no Centro Oeste há destinos que capitalizam pela combinação de natureza, descanso e calendário um pouco mais lento.

Para a cultura, é um período em que o sagrado organiza a cena, mas a economia criativa opera do mesmo jeitinho, “palco, iluminação, sonorização, figurinos, mão de obra artística, equipes técnicas, comunicação” e a garantida circulação de público.

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Em junho, o termômetro muda completamente, e o Brasil entra em uma temporada que prova como a cultura popular é, também, uma indústria de alta tração. As festas juninas, com seus grandes polos, empurram um fluxo gigantesco para o Nordeste, e o comparativo regional nesse trecho do calendário costuma ser muito claro, com o Nordeste em alta, com cidades como Campina Grande e Caruaru funcionando como motores, mas com dezenas de outros municípios surfando a mesma onda em escala local.

Quando um evento desse porte acontece, ele não só lota hotéis e restaurantes, como cria demanda para costureiras, cenografia, montagem, ambulantes, produção cultural, artistas e técnicos, além de ampliar a circulação de recursos em cidades que, fora da temporada, teriam um consumo muito mais contido. É, com frequência, a cultura bancando a economia local com mais eficiência do que qualquer discurso.

Identidade e turismo cultural

O mês de agosto, a gente chama informalmente de “mês do folclore”, quando o fluxo muda de perfil e, em vez de uma explosão concentrada em poucos dias, aparece uma costura de eventos que fortalecem turismo cultural e educativo, com presença de famílias, grupos, escolas e visitantes interessados em identidade e tradição.

Um exemplo emblemático é o Festival do Folclore de Olímpia, em São Paulo, que conheci, acompanhando amigos da Cia. De Danças Folclóricas Aruanda de Belo Horizonte. O Festival de Olímpia, mobiliza um público expressivo e reforça como eventos de cultura popular podem organizar o calendário de uma cidade e atrair gente de fora para consumir serviços e uma belíssima programação cultural.

Nesse período, o comparativo regional tende a mostrar o Sudeste e parte do Centro Oeste ganhando força com festas tradicionais e festivais, enquanto o Norte e o Nordeste continuam relevantes com calendários próprios de cultura popular e manifestações religiosas, ainda que nem sempre com a mesma marca nacional das temporadas de verão e São João.

Outubro e novembro também são meses que, quando bem trabalhados, viram temporada e não apenas intervalo. O 12 de outubro, Nossa Senhora Aparecida, cai numa segunda feira em 2026, o que por si só estimula deslocamentos e turismo religioso, especialmente para destinos que se estruturam em torno da fé. Já o Círio de Nazaré, em Belém, embora não dependa do feriado nacional, mostra como um calendário religioso que se garante, movimenta multidões e injeta recursos pesados na economia criativa e turística da cidade.

Em novembro, com o 20 de novembro numa sexta-feira, o país ganha mais um gancho natural para viagens curtas e, ao mesmo tempo, um espaço para programação cultural e educativa com potencial de fortalecer destinos que trabalham patrimônio afrobrasileiro, gastronomia de matriz africana, música, dança e roteiros de memória.

Natal como experiência e produto turístico

Em dezembro, o Natal, por sua vez, é um capítulo que mistura consumo, simbolismo e turismo.

A lógica regional aqui é curiosa, o calor empurra muita gente para o litoral, mas o “Natal como experiência” também fortalece destinos de clima mais ameno e forte capacidade de cenografia urbana, como o caso do Natal Luz em Gramado, que já consolidou um modelo de festival longo e altamente atrativo, com números expressivos de visitantes, ocupação e impacto econômico reportados na imprensa.

Esse tipo de evento, se evidencia como a cultura quando se torna calendário e produto, quando gera previsibilidade para a cidade, incentiva investimentos e cria emprego temporário em larga escala, além de reforçar a imagem do destino.

O outro lado do balcão

Até aqui, a fotografia parece otimista, e de fato é, para turismo e cultura. Só que o outro lado do balcão tem razão quando reclama. Empresas, comércio e indústria são reféns do que os feriados fazem com o tempo produtivo, com o custo do trabalho e com a continuidade das operações. A indústria, sobretudo a que depende de produção contínua, sofre com paradas e retomadas que não são “apertar um botão”.

Há perda de eficiência, quebra de ritmo, aumento de custo por hora produzida, necessidade de horas extras, revezamento, manutenção reprogramada e, em alguns setores, risco de gargalo logístico porque transportadoras e cadeias de suprimento também desaceleram.

No comércio, a dor é ambivalente, em zonas turísticas, feriado pode ser a melhor semana do mês; em centros urbanos tradicionais, pode virar dia de porta fechada, queda de faturamento e custo fixo correndo do mesmo jeito, com aluguel, energia mínima, folha e impostos.

E há ainda o setor de serviços corporativos, que vive de prazo, entrega e reunião, e precisa de uma engenharia de agenda para não transformar o ano em um dominó de adiamentos, que convenhamos, não é nada bom.

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O problema não é o feriado em si, penso que o problema é o feriado mal planejado.

Quando a empresa não antecipa produção, não ajusta escalas, não reorganiza entregas e não negocia com fornecedores e clientes, o custo aparece em forma de atraso, perda de venda e, em casos mais graves, ruptura de abastecimento.

Quando o poder público municipal não coordena trânsito, a limpeza urbana, a segurança e oordenamento, a cidade lota, mas o visitante sofre, a experiência piora e o destino perde reputação, simples assim.

Pior, é quando a cultura não é tratada como cadeia econômica, os eventos acontecem, mas a renda escapa, porque não há formalização mínima, curadoria de fornecedores, estratégia de comunicação, integração com hotelaria e gastronomia, nem plano para transformar pico em recorrência. Que falta que faz um Conselho Municipal de Turismo bem estruturado!

A previsão, portanto, para 2026 é de um ano com alto potencial de feriados prolongados que devem aquecer turismo doméstico e programação cultural, ao mesmo tempo em que exigirão maturidade gerencial do setor produtivo.

O calendário oficial já deixa claro onde estão as principais “janelas” de deslocamento, e o comportamento do brasileiro completa o resto, quando há três dias, ele viaja; quando há quatro, ele lota; quando há cinco, ele cria tradição.

O melhor caminho para equilibrar ganhos e perdas é tratar feriado como planejamento e não como surpresa.

Para os segmentos de turismo e cultura, isso é oportunidade para organizar temporadas, qualificar oferta e distribuir fluxo para além dos destinos óbvios, aliviando pressão e ampliando renda em cidades do interior.

Para comércio e indústria, é a chance de profissionalizar calendário operacional, investir em previsibilidade, alinhar estoques e logística, e até encontrar janelas de manutenção e treinamento que reduzam o custo invisível das paradas.

Contraponto entre a folga e o futuro

No fim das contas, a meu ver, 2026 não será refém dos feriados e sim refém da forma como o país se organiza em torno deles. Se a cultura for reconhecida como vetor econômico e o turismo for planejado com inteligência territorial, os feriados deixam de ser “dias perdidos” e viram dias de circulação de renda, emprego e identidade.

Se empresas e governos fizerem o dever de casa, os prolongamentos não significam queda automática de produtividade, mas redistribuição de tempo com menos dano e mais eficiência.

E se o Brasil, que já é naturalmente vocacionado para o encontro, para a festa e para o deslocamento, usar o calendário como estratégia, 2026 pode ser um ano em que a folga não briga com o trabalho, mas ajuda a sustentar, por outras vias, a própria economia que mantém o país de pé.

E você, já está fazendo o pé de meia, para viajar bastante em 2026?

Fico na torcida e boa viagem. Até a próxima.

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