Bons tempos aqueles em que não dependíamos de um celular nas mãos para socializarmos. Sou do tempo em que todos as famílias da rua e até do bairro se conheciam e promoviam uma interação social bastante interessante, fosse pelas brincadeiras de rua com as animadas turmas, fosse pelas festas sequenciadas de aniversários da meninada ou até mesmo pelas novenas de Natal, que provocavam encontros e visitas entre as famílias, que compareciam em peso. As mães, em sua maioria, iam para rezar e a meninada comparecia para rir e divertir.
O celular que aproxima e aprisiona
Na atualidade, com o advento do celular e da internet, vivemos um tempo curioso em que os antigos hábitos foram ficando à deriva do nosso comportamento social e as redes sociais deixaram de ser apenas vitrines de fotografias ocasionais ou murais de recados digitais e passaram a se comportar como verdadeiros universos paralelos, cheios de corredores, portais e janelas que se abrem sem aviso.
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Cada dia que passa ficamos mais presos e dependentes dessas ferramentas e cada atualização feita nas redes trazem novas funcionalidades, um novo botão, um novo convite ao clique e quando percebemos, já estamos explorando ferramentas que sequer existiam semanas antes e nem sentíamos falta.
É como se o ambiente virtual tivesse adquirido vida própria, se reinventando diariamente para não nos deixar escapar. O mundo está aprisionado pelo celular. Nesse cenário, o das redes sociais, os reels surgem quase como pequenos feitiços contemporâneos.
O feitiço dos reels
Quem nunca disparou, animadamente, uma sequência de reels para parentes e amigos, acreditando piamente, que todos acharão naquelas imagens, a mesma graça que você?
Os reels, são vídeos curtos, rápidos, dinâmicos, embalados por músicas que grudam na memória e cortes que hipnotizam o olhar. Não exigem longas explicações, não pedem silêncio, não cobram dedicação prolongada, apesar de provocá-la, afinal são consumidos em segundos, mas conseguem ocupar minutos, horas, às vezes períodos inteiros do dia.
A mágica está justamente aí, na sensação de brevidade que, somada, constrói uma longa permanência. O dedo desliza pela tela com naturalidade, como quem folheia páginas invisíveis de um livro que nunca termina. O curioso é que esse mecanismo, criado inicialmente como entretenimento leve, passou a ser também ferramenta de comunicação cotidiana.
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Famílias trocam vídeos ao invés de telefonemas, amigos compartilham memes como se fossem cartas modernas, profissionais divulgam serviços em clipes de poucos segundos e empresas disputam atenção em um oceano de imagens em movimento.
O reel virou linguagem, virou saudação, virou convite, virou currículo e até desabafo. O que antes era exceção tornou-se rotina, e a rotina, por sua vez, passou a ser medida em visualizações e curtidas.
Tempo de tela: o vilão silencioso
Mas toda magia cobra seu preço silencioso. O chamado tempo de tela, quando exagerado, começa a produzir efeitos que não piscam nem brilham, apenas se acumulam. Nas famílias, o jantar já não é mais conversa, é notificação. Nas escolas, apesar das proibições, o desafio não é apenas ensinar conteúdo, mas disputar atenção com telas luminosas que oferecem estímulos infinitos.
No aprendizado, a concentração se fragmenta, a leitura longa perde espaço e o raciocínio profundo precisa competir com a pressa do próximo vídeo. Nas relações interpessoais, o contato olho no olho vai sendo substituído por reações digitais que, embora práticas, não carregam o mesmo calor humano.
O equilíbrio possível
Ainda assim, não se trata de demonizar as redes, mas de compreender sua força. Elas são ferramentas poderosas, conectam pessoas distantes, democratizam informação, revelam talentos e encurtam caminhos profissionais.
O vigor que possuem no dia a dia da sociedade é inegável; são praças públicas contemporâneas onde todos falam ao mesmo tempo e, paradoxalmente, todos podem ser ouvidos. O desafio não é desligá-las, mas aprender a usá-las com consciência, afinal estamos conectados em tempo real e isso pode ser viciante.
Talvez o grande aprendizado deste tempo não esteja em abandonar a tecnologia, mas em equilibrar presença e ausência, conexão e silêncio, tela e realidade.
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No fim das contas, o deslizar infinito do dedo não substitui o aperto de mão, o abraço demorado ou a conversa sem pressa na esquina de casa. As redes encantam, informam e aproximam, mas é fora delas que a vida continua acontecendo normal e calmamente sem filtros, sem cortes e, felizmente, sem limite de tempo.
E você, já mediu ou percebeu quanto tempo gasta ou investe por dia deslizando os dedos na tela do celular? Juízo hein!
Até a próxima.
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