Estamos no Brasil não é minha gente, por isso, inevitável falar em Carnaval por aqui. A festa, que é uma das maiores manifestações populares brasileiras, comemoradas no país inteiro, com ícones importantes, no entanto, insisto em destacar por aqui, os aspectos mais envolventes e diferenciados que é a possibilidade de um público que além do carnaval, queira conhecer mais sobre a história do Brasil, a trajetória histórica dos caminhos do ouro e dos diamantes da coroa portuguesa em Minas Gerais.
Foram estes caminhos, que acabaram por traçar um espaço geográfico das cidades históricas mineiras, que na atualidade, convivem com o calendário festivo em meio às riquezas histórico-culturais, ao universo verde das paisagens e dos mares de morros mineiros, das tradições gastronômicas e que ajudam a enriquecer os festejos de carnaval e ainda por cima, a possibilidade de se divertir na folia, aproveitando os shows, os cortejos, a irreverência e a alegria do carnaval das cidades históricas.
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Na verdade, o Brasil aprendeu a dançar antes mesmo de aprender a andar em linha reta. Talvez por isso o carnaval vá além que uma simples festa, quem é folião, sabe como é, o carnaval é um estado de espírito coletivo, uma catarse organizada, um calendário emocional que se impõe de um canto a outro do país.
Quando fevereiro se aproxima, o Brasil inteiro parece pensar em outro ritmo.
O Brasil que dança em diferentes ritmos
No Recife, o gigante acorda cedo e arrasta multidões sob a sombra simbólica do Galo da Madrugada. No Rio de Janeiro, as luzes da Marquês de Sapucaí transformam o desfile das escolas de samba em espetáculo de arte, técnica e emoção. Em Salvador, os trios elétricos percorrem circuitos tradicionais, misturando axé, fé, ancestralidade e um envolvimento popular que só o povo baiano sabe oferecer.
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Já em Belo Horizonte e São Paulo, o carnaval de rua explodiu em diversidade, ocupando avenidas, praças e bairros com uma força democrática que reposicionou o protagonismo dos blocos urbanos.
Minas Gerais, que preserva e reinventa a festa
Mas há um Brasil que, no meio da folia, convida o visitante a fazer uma pausa estratégica entre um cortejo e outro. São lugares que dançam olhando para trás, para a própria história. Um Brasil onde o confete cai sobre igrejas barrocas, casarões coloniais e ladeiras de pedra que testemunharam o ciclo do ouro e dos diamantes da Coroa portuguesa. Esse Brasil está em Minas Gerais, especialmente no território que hoje conhecemos como Quadrilátero Ferrífero e nas cidades que integram o Circuito Turístico do Ouro.
As cidades históricas mineiras nunca abandonaram o carnaval. Pelo contrário. Foram elas que mantiveram viva a tradição quando, por muito tempo, a festa parecia menos evidente no cenário estadual, isso conforme registra o release do “Carnaval das Cidades Históricas de Minas Gerais”, que me inspirou para o conteúdo de hoje.
Pelas ruas mineiras, os blocos caricatos centenários e o jeito peculiar de viver a folia garantiram a permanência da festa momesca como manifestação autêntica e identitária. Ali, tradição não é discurso político, mas sim, uma prática continuada e escancarada nas manifestações nas ruas, passando de geração a geração.
O patrimônio vira cenário da folia
Em Ouro Preto e Mariana, por exemplo, resistem dois dos blocos mais antigos do Brasil, o lendário Zé Pereira dos Lacaios e o Zé Pereira da Chácara, ambos com quase dois séculos de existência e ali pertinho, em Itabirito, o Bloco do Zé Pereira, abre os portões para a folia ainda na quarta-feira que antecede a festa, colorindo o centro histórico, com arte, ritmos e alegria.
É difícil encontrar em outro ponto do país uma combinação tão intensa entre patrimônio material e patrimônio imaterial. O cortejo passa, os bonecos gigantes avançam pelas ladeiras, a bateria ecoa entre torres de igrejas setecentistas e, de repente, o folião percebe que está dentro de um livro de história que resolveu sambar.
O carnaval mineiro, especialmente nas cidades históricas, tem uma característica que o diferencia de muitos outros polos nacionais, por lá, ele não se impõe apenas pelo volume, mas pelo contexto.
O cenário urbano barroco não é pano de fundo; é protagonista silencioso. O visitante que chega para a festa descobre que pode alternar a euforia do bloco com uma visita a um museu, a uma igreja esculpida por mestres do período colonial ou a um mirante de onde se avista o mar de morros verdejante que desenha a geografia mineira.
Em Congonhas, por exemplo, que está bom uma bela programação, é onde está o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, Patrimônio Cultural da Humanidade. Cenário conhecido internacionalmente. Os visitantes podem vivenciar o contraste entre a solenidade das esculturas dos profetas e a irreverência dos blocos que ocupam as ruas.
A poucos quilômetros, em Itabirito, Santa Bárbara e Rio Acima, a festa se mistura à hospitalidade interiorana, às praças acolhedoras e à gastronomia que transforma qualquer intervalo da folia em experiência memorável e que vale a pena ser vivenciada.
Não se trata de promover um município específico, mas de reconhecer uma ambiência regional. O Quadrilátero Ferrífero, historicamente marcado pela mineração, ontem de ouro e ferro, hoje também de memória e cultura e conseguiu transformar seu passado em ativo turístico.
O ciclo histórico do ouro traçou caminhos que conectaram vilas, ergueram igrejas, consolidaram centros administrativos e deixaram um legado arquitetônico que hoje convive harmonicamente com o calendário festivo.
Há algo de profundamente simbólico em dançar carnaval sobre o mesmo chão que sustentou tropas, mineradores e artistas do período colonial. O folião contemporâneo, talvez sem perceber, percorre trilhas abertas séculos atrás. Essa sobreposição de tempos cria uma experiência singular e muito significativa, já que o visitante pode celebrar o presente enquanto toca o passado.
E se o espírito pede descanso entre um show e outro, Minas oferece refúgio natural. Trilhas, cachoeiras, serras e atividades de aventura estão a poucos minutos dos centros históricos, é só procurar um pouco, que uma boa prosa de rua, te leva para algum paraíso natural.
Em distritos como Lavras Novas e São Bartolomeu, ligados a Ouro Preto, o chamado “Carnaval da Tranquilidade” propõe outra cadência, menos multidão, mais contemplação. A proposta dialoga com um perfil de público que quer folia, mas também quer silêncio; quer música, mas também quer paisagem.
Gastronomia, natureza e aventura no compasso do carnaval
A gastronomia, por sua vez, é capítulo à parte. Enquanto o Brasil inteiro se rende aos espetinhos e às bebidas geladas das ruas, as cidades históricas acrescentam ao cardápio o pão de queijo artesanal, o feijão tropeiro, os doces de tacho, as cachaças premiadas e a culinária afetiva que remete às cozinhas coloniais. Comer em Minas durante o carnaval é quase um ritual de reconexão com a tradição.
É verdade que o carnaval brasileiro é múltiplo e grandioso. O Carnaval do Rio de Janeiro impressiona pela grandiosidade cenográfica; o Carnaval de Salvador encanta pela energia dos trios e pela força da cultura afro-brasileira; o Carnaval de Recife emociona pela tradição e pela potência popular, com o delicado olhar do Instituto Leopoldo Nobrega sobre o Galo da Madrugada. Mas o carnaval das cidades históricas mineiras acrescenta uma camada narrativa que poucos destinos conseguem oferecer, a possibilidade de aprender enquanto se diverte.
O turista que escolhe Minas para a folia pode sair com muito mais do que fotos e lembranças. Pode sair com a compreensão ampliada sobre como a trajetória do ouro moldou o território brasileiro, como as rotas comerciais estruturaram vilas e como a arte barroca floresceu em meio à efervescência econômica do século XVIII. Pode perceber que o carnaval, ao ocupar essas cidades, não apaga a história, pelo contrário dialoga com ela.
Carnaval com pausa, com festa e contemplação no mesmo destino
No fim das contas, talvez seja essa a maior riqueza do carnaval mineiro, ele permite que corpo e espírito sejam alimentados simultaneamente. O corpo dança ao som das baterias, dos shows e dos cortejos irreverentes. O espírito se expande diante das igrejas, das serras e das memórias que ecoam nas pedras das ruas.
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Em um país onde o carnaval assume tantas formas, Minas Gerais oferece uma síntese curiosa alicerçada em tradição, juventude, euforia, contemplação, festa e patrimônio.
As Cidades Históricas de Minas, não são apenas destinos para quem quer fugir do óbvio, mas para quem entende que celebrar também pode ser um ato de reconhecimento da própria história. Entre confetes e altares barrocos, entre trilhas ecológicas e blocos centenários, o carnaval mineiro reafirma que a alegria brasileira tem raízes profundas e continua florescendo, ano após ano, nas ladeiras que contam a história do Brasil.
Confesso, que esse ano meu carnaval será mais tranquilo por motivos de força maior, mas como bom folião, não resisto a te fazer este convite!
Venha logo, ainda dá tempo, Minas Gerais está de fato, mostrando história no carnaval.
Até a próxima.
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