O calendário cultural e religioso brasileiro possui uma dinâmica singular e precisa ser entendido. Se por um lado o carnaval representa explosão de cores, sons e alegria coletiva, por outro, a Quarta-feira de Cinzas inaugura um período de recolhimento que convida à introspecção.
O simbolismo das cinzas e a pedagogia da conversão
Essa transição não é apenas simbólica; ela carrega séculos de tradição cristã e uma pedagogia espiritual que molda comportamentos, ritos e significados. Na última quarta-feira, a de Cinzas, fui à missa para receber as cinzas, lembrando-nos que do pó viemos e ao pó voltaremos.
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Confesso que foi uma celebração especial, onde o celebrante nos lembrava sobre a pureza e a grandeza da bondade de Deus, a importância do nosso posicionamento como cristãos, bem como da prática constante e se possível diária, da oração, elemento dos mais importantes neste tempo.
A quaresma é um período de aproximadamente quarenta dias que antecede a Semana Santa e a Páscoa, marcado por práticas de oração, penitência, jejum e caridade.
O número quarenta, recorrente na tradição bíblica, remete a momentos de preparação e transformação, tais como os quarenta dias de Jesus no deserto. Assim, a quaresma é entendida como um caminho interior, uma travessia espiritual que conduz à celebração da ressurreição. Ritualmente, é tudo muito bonito e cheio de significados.
Curiosamente, a relação entre Carnaval e Quaresma não é casual. Historicamente, o carnaval surge como o último momento de festividade antes do tempo penitencial. O próprio nome carnaval é frequentemente associado à expressão latina carne vale, que significa adeus à carne, indicando o início do período de abstinência alimentar e simbólica.
A festa, portanto, funciona como uma espécie de fronteira cultural entre o excesso e a contenção, o riso coletivo e o silêncio contemplativo.
No Brasil, essa passagem ganha contornos ainda mais interessantes. Enquanto as ruas ecoam marchinhas, blocos e cortejos, muitos fiéis já se preparam para a mudança de ritmo que a Quarta-feira de Cinzas representa.
Não se trata de oposição entre festa e fé, mas de uma complementaridade que revela a complexidade da experiência humana, ou seja, celebrar, mas também refletir.
A Quarta-feira de Cinzas é o marco inicial desse novo tempo. Durante a celebração religiosa, os fiéis recebem sobre a cabeça, a imposição das cinzas, geralmente em forma de cruz. Este gesto é carregado de simbolismo.
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As cinzas lembram a fragilidade da vida, a finitude humana e a necessidade de conversão. As palavras tradicionalmente pronunciadas, Lembra-te que és pó e ao pó voltarás ou Convertei-vos e crede no Evangelho, que reforçam a dimensão de humildade e renovação espiritual, sugerida para o momento.
As cinzas utilizadas nesse ritual têm origem nos ramos abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior, queimados e preparados para a celebração. O ciclo simbólico evidencia a ideia de continuidade e transformação, reforçando que a fé se constrói em processos e memórias coletivas.
Todas estas informações e a compreensão sobre estes ciclos, nos ajudam a entendermos melhor os tempos da igreja, que dão vazão à lógica do aprendizado constante e da evangelização.
Tradições religiosas e manifestações culturais nas cidades históricas
Ao longo da quaresma, a vivência religiosa se intensifica por meio de práticas que variam entre comunidades e regiões. O jejum e a abstinência, especialmente às sextas-feiras, representam exercícios de disciplina e solidariedade. A caridade, é outra prática, que ganha destaque como expressão concreta da fé, e a oração torna-se instrumento de interiorização.
Em muitas cidades históricas, por exemplo, esse período é marcado por procissões, vias-sacras, encenações sacras e manifestações culturais que mesclam religiosidade e patrimônio histórico. A Semana Santa, ápice desse caminho, revive os últimos momentos da vida de Cristo, culminando na celebração da Páscoa.
Trata-se de um período de intensa carga emocional e simbólica, em que rituais e tradições fortalecem a memória coletiva e a identidade cultural dos territórios. Em cidades do interior, a vivência ganha contornos ainda mais profundos, com a participação comunitária e a preservação de práticas centenárias, envolvidas pela musicalidade dos corais e das centenárias bandas de música, presentes em todas as procissões.
A Páscoa, por sua vez, rompe o silêncio quaresmal com a mensagem de esperança e renovação. Mais do que uma celebração festiva, ela representa a vitória da vida sobre a morte e a possibilidade permanente de recomeço.
A Semana Santa como ápice do percurso espiritual
Assim, o percurso iniciado nas cinzas encontra sua plenitude na luz pascal, fechando um ciclo espiritual que atravessa emoções, reflexões e práticas comunitárias, sempre muito prestigiadas pelas comunidades.
No contexto brasileiro, essa narrativa entre Carnaval e Quaresma revela uma identidade cultural marcada por contrastes harmônicos. O país que dança junto nas ruas também sabe silenciar em templos e procissões.
É singelo ver as igrejas cheias na Quarta-Feira de Cinzas, mostrando que a sociedade que celebra intensamente a alegria coletiva, é a mesma que reconhece a importância da introspecção e da espiritualidade. Talvez seja justamente essa alternância que explique a riqueza simbólica do calendário.
Passada a folia, chega o recolhimento e o Brasil reafirma que a vida é feita de ritmos variados, com momentos de festa, tempos de pausa e oportunidades de renovação.
A quaresma como convite permanente à introspecção
A quaresma, nesse sentido, não é apenas um período religioso, mas um convite universal à reflexão, à reconexão interior e à construção de novos caminhos.
É interessante ouvir uma homilia bem-feita na missa da Quarta-Feira de Cinzas. O Padre que eu ouvi, mostrou claramente que a quaresma se revela como um convite profundo à pausa consciente em meio ao ritmo acelerado da vida contemporânea.
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Ao recordar a fragilidade humana e apontar para a possibilidade permanente de conversão por meio de uma decisão que é pessoal e só nossa, o tempo iniciado nas cinzas prepara o coração para a celebração da Páscoa, símbolo maior de esperança e renovação.
Nesse percurso, cada gesto de oração, cada prática de caridade e cada exercício de silêncio interior tornam-se sementes de transformação pessoal e coletiva, reafirmando que a fé, quando vivida no cotidiano, é capaz de ressignificar caminhos, fortalecer vínculos comunitários e renovar o sentido da própria existência.
Eu já estou me organizando para ter mais disciplina com meus momentos de oração e me policiando para estar cada vez mais atento às oportunidades de acolhimento e atenção ao próximo!
Se tenho fé, quero que ela me faça bem!
Até a próxima!
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