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Mudanças no turismo impulsionadas por mulheres

Com a proximidade do Dia Internacional da Mulher, setor ressalta a importância e o protagonismo do público feminino 

Mudanças no turismo impulsionadas por mulheres (Lejania Malheiros - Aquidauana (MS) (Foto: Divulgação))

O cenário do turismo brasileiro e internacional em 2026 consolida uma transformação que deixou de ser tendência para se tornar um dos principais motores econômicos do setor: o protagonismo feminino. Seja decidindo o destino de investimentos bilionários no exterior ou liderando empreendimentos de base comunitária na Amazônia, as mulheres estão redesenhando a cadeia turística com um foco apurado em planejamento estruturado, curadoria e sustentabilidade. No Dia Internacional da Mulher, os dados oficiais reforçam que essa força vai muito além do lazer, representando uma mudança profunda na forma como o mundo viaja e faz negócios.

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Desejo de viajar

De acordo com dados do Banco Central do Brasil, as despesas de brasileiros no exterior ultrapassaram a marca de US$ 21 bilhões em 2025, um volume que confirma a relevância das viagens internacionais como item de investimento pessoal. Nesse contexto de altos custos e variação cambial, a figura da mulher surge como a grande estrategista. Carmita Ribeiro, administradora e idealizadora do perfil Mala Vermelha pelo Mundo, observa que o comportamento feminino mudou radicalmente, tratando a jornada para fora do país como um projeto empresarial que exige análise rigorosa de logística e segurança. Carmita destaca que, especialmente para mulheres acima dos 40 e 50 anos, a maturidade traz escolhas conscientes onde a curadoria baseada em vivência real reduz drasticamente a margem de erro.

Essa busca por autonomia também impulsiona o fenômeno das viagens solo. Levantamento internacional da Condor Ferries indica que 64% dos viajantes solitários no mundo são mulheres, enquanto no Brasil o interesse por desbravar destinos sem companhia já atinge 45% das turistas, especialmente entre mulheres acima dos 35 anos dados da plataforma Statista. Santuza Macedo, CEO da Diamond Viagens, reforça que viajar sozinha deixou de ser um ato impulsivo para se tornar uma decisão ligada à saúde emocional e ao desejo de vivenciar experiências próprias. Para responder a essa demanda, o Ministério do Turismo lançou o Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas, visando preparar o trade para garantir que a segurança e o respeito sejam pilares do atendimento feminino e também como forma de orientar essas viajantes.

Os números mostram que, enquanto o interesse geral por voos nacionais ainda se concentra no eixo Sudeste (São Paulo e Rio de Janeiro), o público feminino está redesenhando o mapa das buscas. Quando o recorte considera apenas as mulheres, os estados do Norte e Nordeste passam a concentrar maior interesse, especialmente em destinos associados à natureza, cultura local e experiências de descanso.

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Gestão feminina

A influência das mulheres transborda o consumo e domina a gestão. Segundo a ONU Turismo, elas influenciam ou decidem mais de 70% das escolhas de viagens globalmente. No Brasil, essa força se reflete na oferta, com cerca de 57% dos negócios turísticos sendo liderados por mulheres, segundo o IBGE. Histórias como a de Adriane Brocker Boeira, que comanda a gigante Brocker Turismo, ou de Mayumi Kurimori, que há 30 anos comanda a agência Vai Viver na Serra Gaúcha, ilustram como a resiliência feminina moldou destinos inteiros. Essas lideranças muitas vezes enfrentaram o ceticismo de um mercado masculino, mas hoje operam com níveis de excelência que puxam a economia regional e fortalecem o coletivo através do associativismo.

“Isso mostra que ainda estamos vivendo um momento de transição cultural. O espaço das mulheres no turismo vem crescendo de forma muito consistente, mas algumas percepções e hábitos ainda estão em processo de mudança”, analisa Lejania Malheiros, presidente da Abeta – Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura. Os recordes do turismo brasileiro nos últimos anos mostram que o mercado ruma para uma maturidade onde a resiliência, a pluralidade e a sensibilidade socioambiental crescem à medida em que as a atuação das mulheres na linha de frente sustenta essa expansão.

Turismo sustentável

Um dos campos onde essa liderança mais floresce é o turismo sustentável e de base comunitária. Enquanto no empreendedorismo geral as mulheres representam 34%, no setor sustentável esse número salta para 44%. Exemplo disso é a trajetória de Nilde Gomes, CEO da Caboclos House Ecolodge no Amazonas. Criada às margens do Rio Negro, ela transformou a sabedoria ancestral em uma hospedagem reconhecida entre as melhores do mundo pelo TripAdvisor. O impacto de Nilde se estende a outras mulheres da comunidade, como Sueula Teixeira, que através de mentorias transformou o extrativismo de ervas na marca de cosméticos naturais Cheiro da Floresta, provando que o turismo comunitário é uma ferramenta poderosa de equidade e geração de renda.

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A tendência é que os números aumentem ainda mais, principalmente no turismo de base comunitária, que combina geração de renda local, imersão cultural e valorização das pessoas locais. O grande contraste, quando comparado a outros setores e até mesmo ao modelo tradicional de turismo, ajuda a explicar por que o turismo sustentável pode ser uma frente poderosa no atendimento da equidade de gênero, que é um dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) na Agenda 2030.

Além do impacto econômico, a presença feminina no campo altera a percepção de segurança do destino. Guias especializadas, como Mônica Azevedo, apontam que a liderança feminina passa uma confiança singular para outras viajantes, criando um ambiente de compreensão mútua que profissionais homens dificilmente conseguem replicar. O relato de turistas como Rita Alves, que visitou a Amazônia sob a condução de equipes femininas, confirma que o compromisso com detalhes e a ética no trato com o território transformam a viagem em uma experiência de segurança e acolhimento.

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