Os assuntos e as pautas do momento sempre me atiçam a explorá-los nesta coluna. Pautas de destaque tais como as temáticas políticas e das guerras não me seduzem tanto a ponto de apresentar aqui minhas observações, opto por analisar e discorrer sobre temas que embalam a agenda rotineira da sociedade como um todo e neste momento, uma temática bastante evidente é a Semana Santa e o crescimento da movimentação religiosa no país.
Sendo assim, vamos para mais uma matéria! A Semana Santa sempre foi, no calendário cristão, um convite ao recolhimento, à contemplação e à revisitação de valores que atravessam séculos, mas, curiosamente, em um tempo marcado pela pressa, pela sobrecarga de informações e pela lógica imediatista das redes sociais, é justamente nesse ambiente digital, muitas vezes apontado como dispersivo, que a fé tem encontrado novas formas de se expressar e, sobretudo, de alcançar a população mais jovem.
A catequese na palma da mão
Se antes a catequese se limitava quase exclusivamente aos encontros presenciais nas paróquias, hoje ela também acontece na palma da mão. Vídeos curtos, reflexões objetivas, interpretações simplificadas dos textos bíblicos e até mesmo pequenos roteiros de oração circulam com impressionante alcance nas redes sociais, especialmente no Instagram.
Jovens evangelizando jovens, com uma linguagem moderna, acessível, estética bem cuidada e, principalmente, com autenticidade. Não se trata de substituir a tradição, mas de traduzi-la.
A Igreja Católica, historicamente marcada pela solidez de seus ritos e pela preservação de seus dogmas, tem demonstrado uma capacidade silenciosa e eficaz de adaptação. Particularmente, acho este comportamento surpreendente!
Padres, religiosos e leigos passaram a ocupar espaços digitais com naturalidade, compreendendo que evangelizar, hoje, também é saber dialogar com as ferramentas do presente e usá-las com propriedade, sabedoria e segurança. O mais interessante, no entanto, não está apenas na presença institucional da Igreja nas redes, mas no protagonismo juvenil nesse processo, isso sim desperta minha atenção e me anima.
Perfis dedicados à explicação do Evangelho, à partilha de testemunhos e à reflexão sobre a vida cristã têm crescido de forma orgânica, formando verdadeiras comunidades digitais de fé. São jovens que, ao invés de consumirem apenas entretenimento, produzem conteúdo com propósito, criando pontes entre espiritualidade e cotidiano.
Esse movimento revela algo maior. Em meio a tantas ofertas que, muitas vezes, conduzem ao excesso, à superficialidade e até a caminhos de dependência, cresce também uma juventude que busca sentido, pertencimento e direção. Melhor ainda, é que esta busca, se mostra facilitada em grupos de oração, estudos bíblicos, pastorais e ações sociais vinculadas à Igreja.
Encontros que transformam vidas
E é justamente nesse ponto que entram movimentos que, há décadas, seguem encantando gerações e que hoje voltam a ganhar força com ainda mais intensidade. O EAC Encontro de Adolescentes com Cristo e o EJC Encontro de Jovens com Cristo. Presentes em inúmeras paróquias pelo Brasil, esses encontros têm se consolidado como verdadeiras portas de entrada para uma experiência profunda de fé, convivência e transformação.
A Igreja percebeu, talvez com muita sensibilidade pastoral, que o jovem não se conecta apenas por discursos, mas por experiências. E o grande diferencial desses movimentos está exatamente nisso, a igreja oferece vivência.
Durante alguns dias, adolescentes e jovens são convidados a mergulhar em dinâmicas, músicas, testemunhos e momentos de espiritualidade que dialogam diretamente com suas realidades, suas dúvidas e seus desafios. O que encanta não é apenas a proposta religiosa, mas o ambiente construído.
Há acolhimento, pertencimento, linguagem próxima, emoção e, principalmente, verdade. O jovem se vê no outro, se reconhece nas histórias, se sente parte de algo maior e, talvez por isso, esses encontros não terminam quando acabam, eles continuam reverberando em grupos, amizades, pastorais e novas formas de viver a fé no dia a dia.
Quem já teve a oportunidade de presenciar uma celebração de encerramento de um EAC ou EJC sabe que há ali algo difícil de traduzir em palavras. No auge da emoção, entre lágrimas, abraços e cantos, ecoa uma frase que se tornou símbolo desses encontros o importante é a rosa.
O segredo
À primeira vista, pode soar simples, quase enigmática, mas para quem vive a experiência, seu significado é profundamente transformador. A rosa, ali, representa o amor, o cuidado, o gesto gratuito, a entrega ao outro. Representa Cristo no próximo, a fé vivida na prática, a escolha pelo bem mesmo em meio às dificuldades.
É um convite silencioso e poderoso para que cada jovem leve consigo não apenas a emoção do encontro, mas a essência do que foi vivido.
Talvez esteja aí um dos grandes segredos desses movimentos e, por extensão, da própria capacidade de renovação da Igreja, tocar o coração antes de querer convencer a razão. Em um mundo onde tudo é imediato, raso e descartável, experiências como essas resgatam profundidade, constroem vínculos e oferecem direção.
A fé, nesse contexto, deixa de ser apenas um conjunto de ensinamentos e passa a ser vivência compartilhada, grandes emoções vivenciadas, uma musicalidade à flor da pele e a formação de redes sólidas de construção e participação social.
Espiritualidade em novos caminhos
As campanhas solidárias organizadas por jovens, os encontros presenciais que nascem, muitas vezes, de conexões digitais e o engajamento em causas sociais mostram que essa nova forma de evangelização não termina nas telas, ela transborda para a vida real e contribui com a formação cidadã dessa juventude e acelera sua inserção no mundo profissional, com foco e responsabilidade.
Por isso, a Semana Santa ganha uma nova camada de significado. Enquanto as procissões, os cânticos e os ritos seguem preservando a memória e a tradição, há também uma geração que, conectada, ressignifica a forma de viver a fé. Uma geração que não abandona os fundamentos, mas encontra novas linguagens para expressá-los.
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Talvez este seja um dos sinais mais interessantes do nosso tempo, em meio à aceleração do mundo, a espiritualidade não desapareceu, ela apenas encontrou novos caminhos. E, ao que tudo indica, segue mais viva do que nunca, especialmente entre aqueles que decidiram transformar a fé em presença, propósito e comunidade.
Por falar nisso, você já definiu onde estará durante a semana santa?
Até a próxima!
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