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Gramado: por que a cidade quer evitar virar uma cópia dela mesma

Cidade da Serra Gaúcha inicia reposicionamento estratégico para os próximos 15 anos e aposta em autenticidade, cultura local e experiência do visitante para manter protagonismo no turismo brasileiro.

Gramado: por que a cidade quer evitar virar uma cópia dela mesma (A inquietação de Gramado: por que a cidade turística mais desejada do Brasil resolveu mudar. (Foto: IA) )

Durante décadas, Gramado construiu um dos maiores cases do turismo brasileiro. Mesmo sem aeroporto e localizada no interior da Serra Gaúcha, a cidade se transformou em um dos destinos mais desejados do país, atraindo milhões de visitantes todos os anos e criando uma economia fortemente sustentada pelo turismo.

Agora, em vez de apenas comemorar os resultados, a cidade decidiu iniciar um amplo processo de reposicionamento de marca e planejamento estratégico para os próximos 15 anos uma decisão que pode se tornar referência para destinos turísticos de todo o Brasil.

O movimento não surgiu por crise ou queda no fluxo de visitantes, pelo contrário, a cidade segue com alta ocupação hoteleira, calendário robusto de eventos e forte capacidade de atrair turistas em diferentes períodos do ano. Ainda assim, a gestão municipal decidiu antecipar discussões sobre identidade, autenticidade e sustentabilidade do crescimento turístico.

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O novo desafio de Gramado no turismo brasileiro

O principal risco enfrentado por destinos turísticos consolidados costuma ser silencioso: acreditar que o sucesso atual garante relevância permanente, algumas pessoas chamam esse fenômeno de turismo de inércia. Muitos municípios entram em uma espécie de modo automático, focados apenas em manter altos números de visitantes enquanto o comportamento do turista muda rapidamente.

Foi justamente essa reflexão que levou a Secretaria de Turismo de Gramado, liderada por Ricardo Bertolucci Reginato, a iniciar um amplo debate sobre o futuro da cidade. O questionamento central passou a ser simples e profundo ao mesmo tempo: Quem é Gramado hoje?

Durante muitos anos, o destino ficou conhecido como Suíça Brasileira. Em seguida, ganhou comparações frequentes com parques temáticos internacionais e com a experiência de entretenimento inspirada na Disney, impulsionada principalmente pelo crescimento do turismo temático, dos espetáculos e do Natal Luz. No entanto, a cidade percebeu que existia um risco estratégico nesse caminho, que era perder parte da própria essência em meio à busca constante por novas atrações.



Museu Major José Nicoletti Filho e a Rua Torta formam um dos cenários mais icônicos de Gramado. Ao lado da famosa via inspirada na Lombard Street, o museu gratuito preserva a memória da cidade em uma charmosa casa centenária no coração da Serra Gaúcha. (Foto: Rafael Cavalli)

Gramado quer aumentar permanência e reduzir sazonalidade

O novo posicionamento de Gramado não significa abandonar o entretenimento, os eventos ou os parques temáticos que ajudaram a consolidar o destino. A proposta é justamente equilibrar crescimento econômico com identidade cultural, fortalecendo aquilo que não pode ser facilmente copiado por outros destinos.

O conceito passou a ganhar força após um processo de escuta ativa envolvendo mais de 3 mil pessoas entre moradores, empresários, turistas e representantes do trade turístico. Segundo informações divulgadas pela própria cidade, o planejamento estratégico utilizou metodologias internacionais de place branding e construção de cenários futuros.

O diagnóstico revelou uma percepção importante, atrações podem ser reproduzidas em qualquer lugar, já história, pertencimento e autenticidade territorial são diferenciais praticamente impossíveis de replicar. Essa mudança de visão estratégica acontece justamente em um momento em que várias cidades brasileiras passaram a reproduzir elementos inspirados em Gramado, como decoração temática, iluminação cênica, eventos natalinos e projetos urbanos voltados ao turismo de experiência.

A resposta encontrada pela cidade foi reforçar as próprias raízes. A nova marca turística apresentada recentemente utiliza o conceito Gramado: Feita de Histórias, valorizando a memória afetiva, o protagonismo dos moradores e a conexão emocional com o destino.

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Turismo de experiência ganha força em Gramado

O movimento acompanha uma tendência global do turismo contemporâneo. O visitante moderno busca cada vez mais experiências ligadas à cultura local, gastronomia regional, tradições, histórias autênticas e conexões emocionais com o destino.

Nesse cenário, a bela cidade do Rio Grande do Sul, tenta ampliar seu posicionamento além da estética europeia e dos grandes eventos sazonais. O planejamento estratégico da cidade inclui fortalecimento do turismo rural, valorização das colônias, incentivo à economia criativa e desenvolvimento de experiências mais imersivas ligadas ao território.

A estratégia também busca reduzir um dos maiores desafios de destinos turísticos altamente populares, a dependência de grandes temporadas.

Outro ponto importante do novo planejamento turístico é a mudança na forma de medir sucesso. Em vez de focar exclusivamente no aumento do fluxo de visitantes, Gramado passou a priorizar indicadores ligados à qualidade da experiência.

A cidade já recebe cerca de 8 milhões de acessos anuais, segundo dados apresentados pela gestão municipal em diferentes entrevistas e eventos do setor. O foco agora é aumentar o tempo médio de permanência dos turistas, distribuir melhor o movimento ao longo do ano e reduzir os impactos da sazonalidade. Na prática, isso representa uma mudança relevante para o turismo brasileiro, trocar crescimento baseado apenas em volume por eficiência econômica e experiência qualificada.

Essa lógica vem sendo adotada por destinos internacionais que perceberam que o excesso de visitantes pode gerar desgaste urbano, pressão sobre infraestrutura e afastamento da comunidade local.


Luzes acesas, arquitetura inspirada na Europa e o charme da Serra Gaúcha transformam as ruas de Gramado em um dos cenários urbanos mais encantadores do turismo brasileiro. Cada detalhe da cidade parece pensado para fazer o visitante desacelerar e viver a experiência além da paisagem. (Foto: Rafael Cavalli)

O que o turismo brasileiro pode aprender com Gramado

O principal ensinamento do caso de Gramado talvez esteja justamente na capacidade de questionar o próprio modelo antes que surjam sinais de desgaste mais graves.

Ao discutir seu futuro em meio ao sucesso, a cidade demonstra que destinos turísticos precisam funcionar como organismos vivos, capazes de se adaptar às mudanças de comportamento, às transformações tecnológicas e às novas expectativas dos viajantes.

Mais do que parques, arquitetura temática ou grandes eventos, o diferencial competitivo de Gramado parece estar na decisão de nunca considerar seu modelo como algo definitivo.

Enquanto muitos destinos turísticos brasileiros ainda tentam copiar fórmulas prontas, Gramado começa a olhar para aquilo que nenhum concorrente consegue reproduzir integralmente: sua própria identidade.

E talvez seja exatamente isso que mantenha a cidade relevante nas próximas décadas e essa seja a grande virada da cidade para os próximos anos. Enquanto muitos lugares ainda tentam parecer com Gramado, Gramado começa a trabalhar para parecer cada vez mais consigo mesma.

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