Literatura

Por que ver os clássicos

Revisitando Por que ler os clássicos, de Ítalo Calvino, esta crônica reflete sobre a magia de vermos pessoalmente pinturas e esculturas clássicas.

Ítalo Calvino tem uma obra de grande importância para os estudos literários chamada Por que ler os clássicos. Mais do que defender uma lista fixa de obras obrigatórias, a coletânea de ensaios procura explicar o que faz um livro atravessar o tempo e continuar relevante para diferentes gerações.

Os ensaios em si podem se mostrar desafiadores mesmo para um leitor experiente, em função de referências um tanto eruditas e nem sempre conhecidas do leitor contemporâneo, mas o texto introdutório do livro se tornou um dos textos mais importantes do século XX. Nele, Calvino busca algumas definições sobre o clássico, e tomo a liberdade de reproduzir aqui a síntese de algumas delas:

  • Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: Estou relendo… e nunca estou lendo…;
  • Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual;
  • Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira;
  • Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura;
  • Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer;
  • Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes);
  • Os clássicos são livros que, quando mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos;
  • O seu clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.
  • Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aqueles, reconhece logo o seu lugar na genealogia;
  • É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo;
  • É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível.

Poderíamos discorrer sobre cada uma das afirmações, gosto muito da reflexão sobre a importância dos temas atuais em um clássico, por exemplo, mas a ideia deste texto afinal estamos em um espaço para falar de viagens é transpor o conceito para as artes visuais. Porque não se vai até determinada cidade em busca do manuscrito original de um autor para conhecê-lo pessoalmente, a reprodução e circulação de livros e textos é aceita e altamente incentivada há séculos. Mas para se conhecer Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, O Nascimento de Vênus, de Botticelli, Abaporu, de Tarsila do Amaral ou A Pietà, de Michelangelo, é preciso viajar, pagar ingresso, entrar em fila. E mesmo para quem não é entendido de artes visuais como eu não sou vale muito o esforço.

Multidão diante da obra de Botticelli (Foto: Marcelo Spalding)

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Como escreve Calvino, os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes). Então estar sob a incrível obra de Michelângelo na Capela Sistina a famosa A Criação de Adão, aquela imagem em que os dedos de Deus e Adão quase se tocam não é apenas ver ao vivo uma obra tão reproduzida em livros ou telas, é estar em um local onde Michelangelo esteve, local da eleição de papas, da controversa história da Igreja, locação de filmes conhecidos, cenário de romances populares.

Cada obra clássica traz consigo toda uma história para além da pintura ou escultura em si, e essa energia a gente sente estando naquele local. Estar diante da Vênus de Milo, no Museu do Louvre, é se conectar com a milenar tradição grega, admirar a permanência da cultura, das gentes e da obra em si. Mesmo uma escultura despretensiosa como o secular Porcelino de Florença ou uma réplica como o David diante do Palazzo Vecchio, também em Florença, são capazes de nos arrancar um suspiro, um sorriso, um uau. Faz com que ao mesmo tempo percebamos o quão pequenos somos diante de toda história da humanidade, mas também como somos parte dessa história, estamos ali a testemunhando, participando dela, a mantendo viva.

O MASP e Abapuru

Embora eu tenha ficado muito encantado com os clássicos na Itália e na França, o que me incentivou a escrever esta crônica não foram minhas incursões na Europa, foi antes, em uma viagem a São Paulo com uma visita ao MASP que terminou em pequena frustração.

Eu já havia visitado o museu na adolescência, mas depois acabei voltando a São Paulo apenas a trabalho. Com o foco pós-pandemia de viajar o máximo possível, optamos por passar uns dias turistando em São Paulo, e dessa vez a visita ao MASP foi um dos pontos altos (ao lado dos musicais e do Ibirapuera, diga-se de passagem).

Di Cavalcanti é um dos artistas brasileiros em destaque no MASP (Foto: Marcelo Spalding)

O MASP é ponto obrigatório para quem mora no Brasil e gosta de viajar e de artes. Chegar ao acervo principal do terceiro andar e ver aquela imensidão de quadros dispostos lado a lado, como em uma grande confraternização, é de impressionar. Aí começamos a circular e descobrimos que estamos diante do mundo (pelo menos do mundo ocidental): “Rosa e Azul (As Meninas)”, de Renoir, “O escolar (O filho do carteiro Gamin au Képi)”, de Van Gogh, “Retrato de Suzanne Bloch” (1904), de Pablo Picasso, “Virgem com o Menino e São João Batista Criança”, de Botticelli, “Ressurreição de Cristo”, de Rafael Sanzio, “A Canoa Sobre o Epte, de Claude Monet, “As tentações de Santo Antão”, de Hieronymus Bosch. Além, claro, de obras fundamentais dos brasileiros Cândido Portinari, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Di Cavalcanti e tantos outros.

É o livro de história, de literatura e de artes da nossa escola diante de nossos olhos. Mas senti falta de uma obra, o famoso Abaporu, de Tarsila do Amaral, que também não estava na Pinacoteca (outro importantíssimo museu brasileiro, onde está, por exemplo, Mestiço, de Portinari).

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Descobri então que o Abaporu está no MALBA, Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires. Questionamentos à parte sobre o porquê de um dos quadros mais importantes do Brasil não estar no Brasil, colocamos o MALBA na lista de atrações a visitar na ida seguinte a Buenos Aires (onde praças e musicais, aliás, também são protagonistas, junto com o encantador Puerto Madero).

Foto: Marcelo Spalding

Foi então, diante da mais famosa pintura de Tarsila do Amaral, que caiu a ficha sobre a importância de ver os clássicos. E lembrei da sensação de encantamento que tive diante de O Nascimento de Vênus, aquela multidão ao redor tentando fotografar, ou apenas observando, ou alternando entre uma coisa e outra.

No caso de Abaporu, não é apenas reconhecer aquele quadro tão presente nos livros sobre o Modernismo, é reconhecer a grandiosidade dos traços, a forma como ele nos transporta por aquelas linhas, ainda que seja ele tão pequeno no original.

Síndrome de Stendhal

Já que começamos esse texto escrevendo sobre um autor, vamos terminar com outro, Stendhal. O célebre romancista francês, autor do clássico monumental O vermelho e o negro, durante sua visita à Basílica de Santa Croce em Florença, Itália, após observar os famosos afrescos de Giotto no teto, ficou extremamente emocionado com o que viu, e descreveu a sensação nas seguintes palavras em 1817:

“Eu caí numa espécie de êxtase, ao pensar na ideia de estar em Florença, próximo aos grandes homens cujos túmulos eu tinha visto. Absorto na contemplação da beleza sublime, cheguei ao ponto em que uma pessoa enfrenta sensações celestiais Tudo falava tão vividamente à minha alma Ah, se eu tão-somente pudesse esquecer. Eu senti palpitações no coração, o que em Berlim chamam de ‘nervos’. A vida foi sugada de mim. Eu caminhava com medo de cair.

Somente nos anos 1980 a psiquiatra italiana Graziella Magherini descreveu e nomeou a síndrome, hoje conhecida como Síndrome de Stendhal. Consta que ela trabalhava em hospitais de Florença e observou turistas apresentando crises emocionais após visitar museus como a Galleria degli Uffizi. Um fenômeno psicológico em que uma pessoa apresenta reações físicas e emocionais intensas ao entrar em contato com obras de arte, arquitetura ou experiências estéticas consideradas muito impactantes.

Galeria de autorretratos da Uffizi, em Florença (Foto: Marcelo Spalding)

Talvez seja essa sensação mas em uma dose confortável e saudável que nos acometa diante dos clássicos, sejam eles da literatura ou das artes visuais. E fica claro, pelas palavras de Stendhal, ele próprio hoje um reconhecido clássico, que pode acometer mesmo aqueles capazes de fazer parte desse panteão.

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