A coluna de hoje foi inspirada em uma excelente abordagem sobre o tema publicado no perfil do amigo de longos anos Gilvan Santos, executivo com larga experiência em hotelaria e expert de primeira prateleira na área de controladoria. A discussão deste espinhoso tema passa diretamente pela análise (também) dos números que refletem o efeito financeiro da alteração já tramitada através de uma PEC (Projeto de Emenda Constitucional) Nr.8/2025 na Câmara dos Deputados onde a redução por etapas da jornada regulamentar de trabalho foi aprovada por 461 a favor no último dia 27 de maio.
Fim da escala 6×1 na hotelaria: evolução e desafio operacional
O possível fim da escala 6×1 no Brasil traz um debate necessário e de fundamental importância e movimenta fortemente todos os envolvidos no setor hoteleiro que, na maioria dos casos, funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana e pelos 365 dias do ano. Desde as entidades que representam os meios de hospedagem em suas diversas matizes como hotéis de lazer, corporativos, pousadas entre outros. Entidades como a FBHA (Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação), a ABIH (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis), o FOHB (Fórum dos Operadores Hoteleiros do Brasil) e a Resorts Brasil foram consultados a propósito deste espinhoso tema que preenche os debates não só dos atores do setor, mas também chegando à sociedade como um todo.
A pergunta remanescente é: Como equilibrar a sustentabilidade operacional e almejada melhora da qualidade de vida dos profissionais que atuam na área? Por um lado, a busca legítima de jornadas mais equilibradas, mais tempo para dedicar a família e projetos pessoais, maior zelo com a saúde mental e o bem-estar para que estes consigam uma melhor entrega de serviços memoráveis à luz dos hóspedes. Por outro lado, o desafio real para os gestores de manter os custos operacionais em patamares viáveis, equalizar a necessidade de ampliação do quadro funcional sempre mantendo a qualidade almejada. Importante lembrar que sem negócios rentáveis não existe renda, arrecadação de impostos e geração de riquezas o que compromete inclusive a subsistência de quem trabalha com hospitalidade.
Debate em todos os cantos da hotelaria
Apesar do calor do momento em torno do tema muitos gestores ainda não fizeram as contas completas para análises aprofundadas e assertivas. Elas devem contemplar com absoluta certeza: Custos com o atual elevado Turn Over (rotatividade), horas extras recorrentes e contratações de extras em períodos de pico, ou devido a substituição de colaboradores em períodos de férias, afastamentos temporários. Custos estes que já representam cifras maiores do que se imagina e nem sempre aparecem claramente detalhados nos relatórios gerenciais dos hotéis e DREs (fechamentos mensais). Todos esses impactos precisam ser devidamente considerados e suas variáveis muito bem avaliadas, explica Gilvan Santos da Doutor Hotel Consultoria Hoteleira.
Hotéis e redes saíram na frente e já migraram para o 5×2
Nos últimos meses alguns hotéis e redes saíram na frente e já migraram para o 5×2 espontaneamente, os relatos são públicos com números e motivações declaradas. Ao mesmo tempo entidades representativas e proprietários de hotéis seguem apreensivos com o impacto financeiro, e com razão: a mudança traz a reboque custos adicionais reais e na operação não há margem para improvisos.
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O custo direto é real, concreto e não negociável em todas as áreas operacionais de um hotel, leia-se: Governança, recepção, manutenção e alimentos e bebidas. Em um hotel de médio porte o cálculo percentual de incremento de despesa com a folha de pagamento chega a 17,7%,
O argumento principal de quem defende a redução de jornada é que a atual elevada rotatividade laboral (54% na média geral em 2025), irá cair, o absenteísmo (faltas) também e que por isso a conta fechará. Alguns analistas discordam desta afirmação tácita. A redução de rotatividade não é automática, ela é uma probabilidade condicionada, não uma certeza e dependerá de fatores específicos que variarão de hotel para hotel.
O Palácio Tangará, um dos hotéis mais luxuosos do Brasil situado no Morumbi em São Paulo Capital, adotou a escala 5×2 para 100% de seu numeroso staff. A mudança começou em setembro de 2025 com a contratação de 27 novos profissionais, redução da carga horária de 44 para 42 horas semanais sem prejuízo dos salários existentes. A produtividade aumentou, a rotatividade diminuiu e a satisfação do time é visível no dia a dia afirmou a coluna o diretor geral do hotel, Celso Valle. Em pesquisa de clima laboral feita algum tempo depois da implantação da nova escala, cerca de 87% dos colaboradores atestaram um alto índice de satisfação sendo que 97% dos hóspedes que avaliaram a hospedagem citaram o atendimento como diferencial. Arremata Celso.
O que a mudança de escala pode proporcionar
Faltas e afastamentos além de pedidos de demissão motivados por esgotamento físico atrelado a jornadas extenuantes de seis dias consecutivos, muitos deles com picos de demanda, alto grau de exigência. Dois dias de folga, alternados ou sequenciais podem mudar o jogo pois permite uma percepção de qualidade de vida diferenciado. Me recordo de meus primórdios na atividade quando utilizava minha preciosa folga semanal para resolver questões particulares, obrigações familiares entre outros o que me fazia crer não ter tido uma folga na acepção da palavra.
O que a mudança de escala não resolve
Escassez estrutural de mão de obra qualificada no setor, equação melhorada de oferta de empregos x candidatos capacitados as funções. Não resolve também a melhoria dos salários historicamente baixos em relação ao esforço exigido e ao que o candidato a vaga imagine poder auferir atuando de forma autônoma e eventual seja em outras áreas do varejo, delivery, transportes por aplicativo ou empreendendo em pequenos negócios caseiros. Em suma: A escala 5×2 não aumentará a base de novos candidatos no mercado.
Posicionamento de entidades do setor
A discussão sobre a eventual mudança da escala de trabalho 6×1 ganha cada vez mais espaço no Brasil e precisa ser analisada com atenção, especialmente quando olhamos para setores intensivos em mão de obra, como a hospitalidade e a alimentação fora do lar.
Trata-se de uma pauta legítima do ponto de vista social, mas que exige equilíbrio para não gerar efeitos adversos sobre a sustentabilidade dos negócios, sobretudo os de micro e pequeno porte. Para os pequenos empreendedores, que representam grande parte do setor, o desafio é ainda maior. Com estruturas enxutas e margens reduzidas, a necessidade de ampliar equipes para cobrir novas escalas pode significar aumento relevante de custos. Em muitos casos, isso pode levar à redução de horários de funcionamento, repasse de preços ao consumidor ou até mesmo inviabilidade do negócio especialmente em regiões onde a demanda já é mais sensível explica Alexandre Sampaio recentemente reconduzido à presidência da FBHA.
Juntamente com uma Frente Parlamentar Mista da Hotelaria Brasileira a ABIH Nacional vem mobilizando lideranças empresariais, entidades representativas e parlamentares para garantir que a discussão considere as particularidades da atividade turística e da operação hoteleira no país afirma Sérgio Pereira Gaspar, Presidente da ABIH Nacional.
Para setores que operam 24/7, como a hotelaria, o impacto é direto. Não se trata apenas de ajustar escalas de trabalho. Estamos falando de custos, estrutura operacional, disponibilidade de mão de obra e, no limite, da própria sustentabilidade dos negócios. Experiências internacionais mostram que mudanças não acontecem de forma imediata. Exigem produtividade, adaptação e, principalmente, tempo. Pontua Orlando de Souza, Presidente do FOHB.
Somos favoráveis a mudança, mas ressaltamos que os impactos operacionais e financeiros para o setor devem ser bem avaliados. Entre as alternativas estão a realização de projetos-piloto, ajustes de processos e a busca por soluções que equilibrem a sustentabilidade do negócio com a qualidade de vida dos colaboradores que, em última análise são as pessoas que entregam a qualidade desejada aos nossos hóspedes de lazer e eventos enfatiza Lizete Ribeiro, CEO do Grupo Tauá e Conselheira da Resorts Brasil.
Conclusão sobre o assunto
A hospitalidade é uma das maiores portas de entrada para o mercado de trabalho no país, com forte presença de jovens e profissionais em busca do primeiro emprego. Mudanças que elevem custos sem a devida adaptação podem impactar diretamente a geração de vagas, reduzindo oportunidades em um segmento que historicamente contribui para a inclusão produtiva. É fundamental que o debate considere as especificidades regionais e operacionais do Brasil. Um modelo único e rígido pode não refletir a diversidade do País e das diferentes realidades empresariais.
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Por isso, o diálogo entre governo, setor produtivo e trabalhadores é essencial para construir soluções equilibradas, que protejam direitos sem comprometer a atividade econômica. O caminho mais adequado passa pela construção de alternativas flexíveis, que permitam adaptação gradual e respeitem a realidade dos negócios. A hospitalidade brasileira tem enorme potencial de crescimento, geração de empregos e contribuição para o turismo. Preservar esse ambiente, com segurança jurídica e previsibilidade, é fundamental para que o setor continue sendo um dos motores da economia nacional.
O modelo operacional de cada hotel determinará o cenário tangível de efeitos da mudança. Isso dependerá da localização, perfil da equipe atual, causas reais do turn over existente e a força do sindicato local da categoria, este exercerá papel fundamental nesta discussão normativa.
Maarten Van Sluys (Consultor Estratégico em Hotelaria – MVS Consultoria)
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